29J – Dia Nacional da Visibilidade Trans: A visibilidade que temos e a que queremos
Ray Maria, da Secretaria Nacional LGBTI do PSTU e do Coletivo Revida
Em janeiro, mês da visibilidade trans, devemos comemorar nossa existência e resistência, mas concomitantemente nos questionar e nos revoltar. Neste artigo, temos por objetivo traçar um panorama geral de como a comunidade trans está inserida na luta de classes, suas conquistas e seus desafios. Desse modo, é possível esboçar por quais caminhos podemos e devemos seguir.
De acordo com o relatório de 2025 da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil continuava sendo o país que mais mata pessoas trans: pelo menos 80 mortes foram registradas ano passado. O número apresenta uma queda de 34,4% em relação às 122 mortes contabilizadas em 2024. Apesar disso, o estudo mantém o Brasil pelo 17º ano consecutivo como país mais perigoso para a população trans em todo o mundo.
De acordo com o dossiê, a vítima mais nova tinha 13 anos. O perfil das vítimas é majoritariamente de “jovens trans negras, empobrecidas, nordestinas e assassinadas em espaços públicos, com requintes de crueldade”. Ceará e Minas Gerais registraram o maior número de mortes: 8 em cada estado.
As mortes de Paula Nascimento Batista, Valkiria Ferreira da Silva, Rhianna Alves, Carmen de Oliveira Alves, Neuritânia Pacheco, Gabriella da Silva Borges, Raquelly Leticia e Alice Martins Alves estão entre os casos registrados (veja fotos abaixo).

Acima: Paula Nascimento Batista, Valkiria Ferreira da Silva, Rhianna Alves e Carmen de Oliveira Alves. Abaixo: Neuritânia Pacheco, Gabriella da Silva Borges, Raquelly Leticia e Alice Martins Alves, mulheres trans assassinadas no Brasil em 2025 — Foto: Arquivo pessoal/Reprodução G1
Importante assinalar: este país, o que mais mata pessoas trans, é, ao mesmo tempo, o que mais consome pornografia de pessoas trans. Neste recorte social, encontramos maior parte das pessoas trans entre a classe trabalhadora pauperizada, vivendo nas ruas, na miséria e, muitas vezes, na prostituição.
Contudo, uma pequena parcela consegue ascender, ter condições melhores de vida, entrar em universidades públicas, tendo acesso a educação gratuita e de qualidade. As cotas para pessoas trans auxiliam muito para que isso seja possível e possamos ocupar esses espaços que, por tanto tempo e até hoje, nos ostracizam.

Fonte: Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)
Vidas trans importam!
Nos deparamos atualmente com uma conjuntura nacional e internacional que torna cada vez mais a mera existência de pessoas trans em um pânico moral e, inclusive, num bode expiatório para que políticos da extrema direita se desvencilhem de dar resposta aos problemas reais e concretos do povo.
As crises cíclicas do modo de produção capitalista, que levam a população trabalhadora mais e mais à miséria, à fome e ao desemprego, assim como os problemas econômicos e políticos, são ocultados pelo pânico moral que se faz de pessoas trans entrando em banheiros públicos. No entanto, outro exemplo desse ocultamente se revela na questão das cotas, anteriormente citadas.
Em várias universidades do Brasil, estudantes protestam e reivindicam pelas cotas trans. Na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), por exemplo, desde o começo do ano passado, está sendo travada uma luta entre o movimento estudantil e os setores reacionários da representação docente no Conselho Universitário (Consuni) para que seja aprovada uma resolução de ampliação de todas as cotas, a qual está sendo até agora adiada. A situação da Udesc só piora esse ano, agora que o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), sancionou um projeto de lei que proíbe as cotas raciais e outros tipos de ações afirmativas nas demais instituições estaduais.
Outro exemplo lastimável é a perseguição que Lumen Lohn Freitas, travesti e ex-major da Polícia Militar – exonerada do cargo puramente por ser uma pessoa trans -, vem sofrendo por ter entrado para o curso de medicina na Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc) a partir das cotas trans. A perseguição se baseia no fato de que ela estaria “roubando” vagas da ampla concorrência, aqueles que teriam “mais mérito”.
Esta é uma afirmação ridícula, grotesca. Ela ignora todo o sofrimento histórico, político e social que a comunidade trans carrega consigo, o que se reflete até hoje na desigualdade social e econômica que nos são impostas simplesmente por existirmos, por sermos quem somos. Devemos lembrar da Operação Tarântula, que caçava travestis moradoras de rua na Ditadura Militar -, e que nos coloca à margem da sociedade, por muito tempo sem direito a acessar os mesmos espaços que pessoas cisgêneras. Hoje, isso está sendo remediado pelas cotas.
Está longe de ser o suficiente, mas é uma conquista parcial, o atendimento de uma necessidade imediata, que torna possível a transição para a conquista de necessidades históricas, não apenas para a comunidade trans, mas para toda a classe trabalhadora em seu conjunto.
Ademais, sobre a questão do desempenho de cotistas nas universidades, é interessante apontar a existência de inúmeras matérias e artigos que demonstram que o desempenho dessas pessoas é o mesmo ou até maior do que não cotistas, como expõe estudos e dados recentes do Censo de Educação Superior. A classificação no vestibular não determina mérito ou capacidades cognitivas, mas simplesmente quem teve mais ou menos acesso a boa educação.
Ataques dentro do movimento
Todavia, os ataques às pessoas trans não provém apenas da extrema direita. Setores que se reivindicam “de esquerda”, dentro do movimento LGBTQIA+, também nos atacam e nos excluem. Um exemplo disso é a execrável Aliança LGB, que abertamente rejeita as pautas e a luta de pessoas trans.
Estes setores, geralmente, justificam sua transfobia por não considerarem a questão da identidade de gênero como um problema real, se utilizando, desse modo, de um “materialismo” vulgar, distorcido. Não é preciso ser um profundo conhecedor da literatura marxista para saber que Marx considerava as relações sociais – e nisso entram os papéis de gênero – também sob ótica materialista. Para ele, as demais relações sociais constituem um tipo específico de relação e, por isso mesmo, são não apenas sociais, como também históricas, por estarem circunscritas sempre dentro de um contexto histórico, social e político.
Com uma pesquisa básica – o que a Aliança LGB parece ser incapaz de fazer – é possível conhecer sobre diversas comunidades e povos do passado que tinham noções igualmente diversas sobre os papéis de gênero, em muitos casos até possuindo mais de dois gêneros na composição de suas sociedades. Agora, para quem quiser alegar que “apenas o sexo biológico consta”, é conveniente lembrar da existência de pessoas intersexo e com outros tipos de variações de cromossomos.
Tendo em vista todos esses aspectos e todas as lutas que estamos e havemos de travar, é importante se perguntar: que tipo de visibilidade queremos?
A visibilidade que queremos!
Ora, já sabemos o que não queremos. Não queremos ser assassinades. Não queremos ser sexualizades e descartades logo em seguida. Não queremos ser excluídes de espaços que todes da classe trabalhadora deveriam ter o direito de ocupar.
O que nós queremos é que parem de nós matar. Que parem de nos tratar como objetos sexuais. Que tenhamos acesso a saúde, moradia e educação de qualidade. Que iniciativas como o Ambulatório Trans parem de ser negligenciadas e sucateadas pelos governos. Que haja cotas trans em todas as universidades do país, e onde já houver, que sejam ampliadas!
Entretanto, acima de tudo, o que queremos é a derrubada do modo de produção capitalista, o qual instrumentaliza as opressões que sofremos para sua própria manutenção, propagando e expandindo a exploração da classe trabalhadora. Queremos a construção de uma sociedade socialista, com a classe trabalhadora e oprimida no poder, para extinguir as classes, as fronteiras, as desigualdades sociais e as opressões, e onde poderemos, finalmente, desenvolver nossas individualidades em sua plenitude, ao mesmo tempo em que construímos de forma coletiva e organizada a nova sociedade.
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