8 de março, Mulheres & Revolução Russa: Mais que faísca, motor!
As mulheres não foram apenas a faísca da Revolução Russa,
mas o motor que a impulsionou”
Megan Trudell
“Os corações pulsavam de gozo, os olhares se levantavam em direção ao futuro e as vontades se reafirmavam e se inflamavam. Éramos movidas pela lembrança daquela grande manifestação das mulheres proletárias de Petrogrado.” (Revista Komunitska,1922 )
Nunca é demais relembrar que há 116 anos, em 1910 – quando as socialistas alemãs Luise Zietz e Clara Zetkin propuseram na Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, um dia dedicado às lutas das trabalhadoras no mundo inteiro – foi que efetivamente surgiu o Dia Internacional da Mulher. Tal resolução – inspirada no Woman’s Day organizado pelas socialistas dos Estados Unidos – não teve um dia específico definido entre 1911 e 1920, quando então a Conferência Internacional de Mulheres Comunistas a unifica…
Desde 1913, o movimento de mulheres socialistas russas costumava celebrar o Dia Internacional da Mulher no último domingo de fevereiro. Amanhecia em Petrogrado; era dia 23 – 8 de março no calendário ocidental. Sem pedir licença, as operárias têxteis do distrito de Vyborg entravam em greve, abandonavam seus locais de trabalho e se deslocavam, às centenas, de fábrica em fábrica, primeiro convocando outras trabalhadoras, depois, exigindo solidariedade e ação dos homens. Segundo a pesquisadora Megan Trudell, “atiravam paus, pedras, bolas de neve e forçavam a entrada nos locais de trabalho dos homens”. Se enfrentaram com a polícia na região e ao final do dia viraram multidão rumo à sede do governo local. Eram tempos da I Guerra Mundial. Viviam sob o jugo de séculos de parasitismo da monarquia. Precisavam de Paz, Pão e Terra.

Operários russas
O desafio de superar apagamentos
Em seu artigo “As mulheres de 1917” (www.marxists.org) Trudell contesta contemporâneos e historiadores que subestimam a importância das mulheres em todo o processo revolucionário de 17 a partir do “estopim” dos primeiros dias que derrubaram o regime absolutista na Rússia. Em todos os momentos decisivos daquele ano – incluindo a luta contra o golpe contrarrevolucionário de Kornilov até a tomada do Palácio de Inverno em Outubro – operárias e camponesas, influenciadas pelo trabalho das bolcheviques estiveram à frente das batalhas e apontaram caminhos. Como consta nos escritos de Trotsky sobre os acontecimentos de Fevereiro em sua obra História da Revolução Russa:
As mulheres trabalhadoras desempenham um papel fundamental na relação entre operários e soldados. Elas se aproximam dos cordões com mais ousadia do que os homens, pegam nos fuzis, imploram, quase ordenam: “Abaixem as baionetas – juntem-se a nós”. Os soldados ficam agitados, envergonhados, trocam olhares ansiosos, hesitam; alguém se decide primeiro, e as baionetas se erguem, com ar de culpa, acima dos ombros da multidão que avança. (História da Rev. Russa, capitulo7)
A historiografia liberal tratou de propagar o mito de que a Revolução de Fevereiro não havia passado de um motim, desconectado e espontâneo. No entanto, Fevereiro foi forjado no calor das experiências concretas e políticas pelas mulheres operárias e logo, pelos trabalhadores em geral. Não à toa, desde o início da I Guerra Mundial, em 1914, as bolcheviques se preocuparam em organizar as trabalhadoras e esposas de soldados no Comitê Interdistrital de Petrogrado, que chegou a contar com milhares de militantes.
A importância dada às mulheres tanto na revolução em si quanto na construção do socialismo se expressou, até início dos anos 20 em importantes resoluções. A legislação que garantia direito ao divórcio unilateral, aborto livre, creches, refeitórios e lavanderias públicas entre outras que procuravam garantir a igualdade em vários aspectos da vida cotidiana – foi um processso não sem contradições. Trudell alerta sobre a minimização e até mesmo apagamento desse papel fundamental das operárias e camponesas sob a liderança das bolcheviques, na historiografia.

As mulheres à frente das manifestações que levaram à tomado do poder em outubro de 1917 | Foto: Reprodução
Não é possivel aqui desenvolver, mas cabe ressaltar os retrocessos impostos pela casta burocrática – cuja principal liderança foi Joseph Stálin – que se apossou das estruturas da então URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) a partir dos anos 20, impedindo o avanço objetivo das pautas feministas das trabalhadoras e também prejudicando a pesquisa histórica sobre esse rico passado.
Segundo o artigo, duas questões – que constam também em algumas obras da geração revolucionária de 1917 – precisam ser levadas em consideração. Primeiro, que as greves insurrecionais das operárias em fevereiro respondiam, conscientemente, às necessidades imediatas e históricas que sintetizavam anos de aprendizado político, desde finais do século XIX passando pelos levantes de 1905. Nesses últimos, trabalhadoras de fábricas têxteis, de tabaco e de doces, junto com as domésticas e lavadeiras, já faziam greves e formavam sindicatos.
Slogans contra a guerra, a busca de unidade com os operários e a forte influência sobre os soldados ecoavam pelas ruas, sendo que a “audácia, a determinação e os métodos das mulheres deixaram claro que elas compreendiam a raiz de seus problemas, a necessidade de união operária e de conquistar o apoio dos soldados que protegiam o Estado czarista para a revolta.”
Por sua vez a influência decisiva das mulheres sobre os soldados refletia a relação entre as operárias têxteis e o grande número de soldados, em sua maioria camponeses, em Petrogrado desde 1914. Conversavam, eram vizinhos e formavam laços, diluindo as fronteiras entre operário e soldado, o que foi decisivo tanto para Fevereiro quanto para a Revolução socialista de Outubro. Além disso, o peso objetivo na força de trabalho mudara radicalmente em poucos anos. Segundo as historiadoras Jane Mcdermid e Anna Hillyer:
“As mulheres representavam 26,6% da força de trabalho em 1914, mas quase metade (43,4%) em 1917. Mesmo em áreas especializadas, a participação feminina aumentou drasticamente. Em 1914, as mulheres constituíam apenas 3% dos metalúrgicos; em 1917, esse número havia subido para 18%.” (As parteiras da Revolução, 1999)
Em segundo lugar, as bolcheviques foram fundamentais para os acontecimentos daqueles dias de fevereiro, tendo trabalhado arduamente durante anos para organizar as trabalhadoras mais pobres. Foram as mulheres, em minoria no partido bolchevique, que defenderam uma reunião no distrito de Vyborg para que elas discutissem a guerra, a inflação e a convocação para o Dia internacional da Mulher. Entre elas estava Anastasia Deviatkina, bolchevique e operária que fundou um sindicato para esposas de soldados após a Revolução de Fevereiro.
Entre milhares de mulheres bolcheviques estavam também Nina Agadzhanova e Mariia Vydrina, que organizaram assembléias de trabalhadoras e esposas de soldados, greves, manifestações, e unidades de primeiros socorros.
No entanto,após os intensos dias de Fevereiro, na maioria dos relatos as mulheres praticamente desapareceram (com exceção de grandes líderes como Alexandra Kollontai, Nadezhda Krupskaia e Inessa Armand) subrepresentadas nas estruturas partidárias e nos Soviets. Se por um lado as próprias condições de vida material – trabalho pesado nas fábricas mais o fardo do serviço doméstico – aliadas a séculos de opressão presentes nas estruturas revolucionárias impediam o avanço na representação e direção, por outro elas estiveram presentes em todos os momentos e em papéis decisivos para o triunfo da revolução de Outubro.
Além das acima citadas, lideranças bolcheviques como Konkordiya Samoilova e Vera Slutskaia, entre outras, argumentavam há tempos sobre a importância das trabalhadoras ditas “não qualificadas”. O jornal bolchevique Rabotnitsa (A Trabalhadora), publicado pela primeira vez em 1914 e relançado em maio de 1917, trazia artigos sobre a questão das creches, berçários, legislação de proteção ao trabalhador para as mulheres, e reiteradamente enfatizavam a necessidade de igualdade e de que as “questões femininas” fossem abraçadas por todos os trabalhadores.
Fragmentos históricos de 1917: Nas barricadas e na Guarda Vermelha
“Se uma mulher é capaz de subir num andaime e lutar nas barricadas, então é capaz de ser uma igual na família operária e nas organizações operárias”
( Smoilova, K – Revista Rabotnitsa/A Trabalhadora, Maio de 1917)
A revolução de Fevereiro aumentou o já existente fosso entre as mulheres trabalhadoras e o feminismo liberal que apoiava a participação da Rússia na I Guerra Mundial e o Governo burguês pós-Fevereiro. Alguns breves exemplos evidenciam o quanto as trabalhadoras estiveram na vanguarda da preparação do Outubro socialista, em sua maioria influenciadas pelas bolcheviques e desobedecendo, insistentemente, às tentativas de controle das manifestações por parte do Governo burguês instalado entre fevereiro e outubro de 1917.
Em abril, contra a manutenção da Rússia na I Guerra Mundial, as ruas de Petrogrado são tomadas por milhares de soldatki (esposas de soldados) que exigem medidas imediatas do governo, como a questão das pensões para as famílias. A partir da atuação das bolcheviques, foi formado Comitê conjunto com o Soviet que em junho se transforma na União das Esposas de Soldados; Já em maio, cerca de quarenta mil lavadeiras, membros de um sindicato liderado pela bolchevique Sofia Goncharskaia, entraram em greve por melhores salários, jornada de oito horas e melhores condições de trabalho – higiene adequada, licença-maternidade e fim do assédio sexual.
Nas jornadas de julho, quando o povo sai às ruas em manifestações explosivas de descontentamento com o Governo Provisório e em agosto, diante de tentativa de golpe de Estado contrarrevolucionário por parte do general Kornilov, estiveram nas ruas, levantando barricadas. Em outubro, se envolveram em todas as pontas da revolução. Seja como parte da Guarda Vermelha ou responsáveis pela coordenação de revoltas em diferentes áreas de Petrogrado, até fornecimento de ajuda médica e na comunicação crucial entre as localidades. Relato sobre a atuação da bolchevique A.E. Rodionova traduz essa participação:
“A condutora de bondes, A.E. Rodionova, havia escondido 42 rifles e outras armas em sua garagem quando o governo provisório tentou desarmar os trabalhadores após os Dias de Julho. Em outubro, ela foi responsável por garantir que dois bondes com metralhadoras partissem da garagem para o ataque ao Palácio de Inverno. Ela também teve que assegurar o funcionamento do serviço de bondes durante a noite de 25 para 26 de outubro, para auxiliar na tomada do poder, e verificar os postos da Guarda Vermelha por toda a cidade.”(McDermid e Hillyer -As parteiras da Revolução)
À medida que os meses passavam e as tensões aumentavam, o programa político bolchevique foi conquistando parcelas cada vez maiores das trabalhadoras mais pobres de Petrogrado. Meses vividos intensamente por operárias, camponesas e esposas de soldados. Sem o seu envolvimento ativo, a insurreição de Outubro não teria obtido sucesso. Cabe à historiografia marxista avançar nas pesquisas que ajudem à compreensão do papel das trabalhadoras para que se produzam Outros Outubros!