Lula, a democracia e os lucros dos capitalistas
Enquanto fechávamos esta edição, Lula afirmava que a extrema direita cresce porque “o povo deixou de acreditar na democracia”. Mas segue defendendo esta democracia que, para ele, “é o direito de votar, mas é o direito de comer, de trabalhar, de estudar, de ter acesso à cultura, ao lazer. É isso que é a democracia”. Lula, no entanto, não responde à questão principal: por que este regime é incapaz de garantir vida digna à grande maioria da população, gerando frustração entre os trabalhadores?
Nas últimas décadas, os trabalhadores não viram melhorias reais em suas vidas. Pelo contrário, a precarização, o desemprego e a desigualdade avançaram. Isso é assim porque os problemas estruturais do país não só continuam como foram aprofundados. Segue a subordinação aos países imperialistas, a dominação das multinacionais, uma profunda desigualdade social fomentada por uma elite burguesa subserviente aos monopólios estrangeiros e violenta contra os de baixo. Ao ponto que o Brasil passa por um processo de desindustrialização e rebaixamento na divisão internacional do trabalho, ficando em uma posição bastante limitada de exportador de commodity e outras matérias-primas.
O PT governou quase metade do período pós-redemocratização
Um problema fundamental do Brasil é que o processo de redemocratização, fruto da luta pelo fim da ditadura, avançou muito pouco com relação aos direitos sociais dos trabalhadores. Na verdade, mesmo os direitos democráticos contaram com muitos limites, ficando entulhos autoritários na nova Constituição. Haja vista, por exemplo, o papel das Forças Armadas, o famigerado Artigo 142, a ausência de reforma agrária, o papel das polícias militares e até mesmo uma forma de Estado bastante afastada do povo.
Esse processo revelou o limite da estratégia defendida pelas correntes majoritárias da esquerda: primeiro “unir-se à burguesia pela democracia”, depois lutar contra essa mesma burguesia pelos direitos sociais. Quase quatro décadas depois, está provado: essa via não funciona.
Lula é parte fundamental dos problemas que assolam o país. De 37 anos de redemocratização, o PT governou durante 15. Hoje faz justamente um governo com setores da direita e da burguesia. Por isso seu governo não resolve a miséria, a fome ou a desigualdade. Funciona, isto sim, para manter os excluídos ainda mais excluídos e preservar os lucros dos bilionários.
Por isso, mesmo os supostos avanços muito pequenos que Lula gosta de dizer que conquistou nos governos anteriores desapareceram rapidamente com Bolsonaro. O próprio Lula lamenta “milhões voltando à fome”, mas evita a conclusão óbvia: se conquistas podem ser destruídas em poucos anos, é porque foram frágeis, adaptadas aos limites do capitalismo e incapazes de alterar as estruturas que produzem a desigualdade. Nada mudou na base, por isso tudo voltou.
Democracia para quem?
Enquanto Lula fala em “democracia com direitos sociais”, os capitalistas, com a ajuda de seu governo, acumulam lucros recordes. As empresas da B3 (antiga Bovespa) registraram R$ 244 bilhões em lucros apenas no primeiro semestre de 2025, um aumento de 39% em relação ao mesmo período de 2024. O Itaú obteve, em 2024, um lucro líquido de R$ 40,2 bilhões, o maior já alcançado por um banco privado no país. A Petrobras, celebrada pelo governo como motor de desenvolvimento, lucrou R$ 61,8 bilhões no segundo semestre de 2025, impulsionada pela expansão da produção de petróleo, inclusive na Amazônia, cuja exploração foi liberada pelo próprio governo.
Lula apresenta a democracia como valor universal, acima das classes sociais, como se fosse possível uma democracia para todos, patrões e trabalhadores. Defende a visão de que basta “aperfeiçoar o regime”. A democracia atual não é capaz de resolver os problemas que causam a miséria e a desigualdade tão sentidas pelos trabalhadores, justamente porque é uma democracia dos e para os ricos. Esse regime continuará funcionando assim, excluindo os trabalhadores e levando milhões à miséria enquanto o sistema capitalista persistir.
A saída não está nos limites do capitalismo
O crescimento da extrema direita não é um fenômeno meramente brasileiro, mas mundial, inclusive em países imperialistas, que historicamente puderam oferecer mais direitos sociais por explorarem nações periféricas. Hoje, até esses países enfrentam estagnação econômica, desmonte do Estado de Bem-Estar Social, crescimento da pobreza e desigualdade. Enquanto isso, a extrema direita se desenvolve alimentada pela frustração com os regimes de democracia burguesa que alternam governos de direita tradicional e esquerda capitalista, mas nada mudam.
A democracia burguesa no mundo entrega exatamente o que foi construída para entregar: lucros para bancos, petrolíferas, mineradoras e latifundiários. O fracasso em garantir direitos sociais não decorre de falta de democracia, mas do fato de que a democracia vigente está a serviço dos capitalistas. Quando governos reformistas preservam essas estruturas, mas prometem melhoria social, inevitavelmente geram frustração, terreno onde a extrema direita cresce. O problema não está no povo que “deixa de acreditar”, mas no próprio limite da esquerda capitalista e da direita tradicional, responsáveis por garantir o rebaixamento e a piora da vida dos trabalhadores. E dão espaço para a extrema direita, a encarnação autoritária da barbárie capitalista.
A saída para a crise social e ambiental não está em ampliar a participação dentro dos limites da democracia burguesa. Um governo que tenta conciliar interesses irreconciliáveis, bilionários capitalistas e trabalhadores, termina servindo ao capital. Tampouco a saída é o caminho proposto pela extrema direta, que é autoritarismo capitalista. A alternativa é outra: construir um poder dos trabalhadores sem patrões, capaz de tomar os meios de produção, estatizar bancos e setores estratégicos, planificar a economia para atender às necessidades humanas e garantir direitos reais: comida, moradia, cultura, trabalho digno e preservação ambiental.
Lula pede que confiemos na democracia dos ricos. A classe trabalhadora precisa confiar em si mesma. Só uma democracia dos de baixo socialista, baseada no poder direto dos trabalhadores, pode enfrentar e derrotar as raízes da extrema direita, da fome e da destruição ambiental em curso.