As guardiãs da memória Amazigh no Marrocos – Parte I
“Somos um, eu e vocês/Compartilhamos paredes
Nossos campos compartilham limites e nascentes/
Como um só, eles são irrigados/
De nossos canais regamos os seus”
(Katherine Hoffman – Etnomusicologia, 2002, 517)
Em alguns livros didáticos de História ainda há a referência às populações originárias do Magreb, no noroeste do continente africano, somente como “berberes”. Essa designação dada pelo antigo Império Romano a todos povos com culturas diferentes da matriz greco-romana passou a descrever pejorativamente os que seriam “incivilizados, cruéis e violentos” e sabemos o quanto sempre serviu de justificativa para invasões e saques mundo afora. Similar ao termo genérico “índio”, utilizado aqui no Brasil para desconsiderar a complexidade dos povos originários e fundamentar a prática do genocídio e tantas outras atrocidades cotidianas, essas construções linguísticas procuram invisibilizar determinadas populações e suas histórias. No entanto, assim como no Brasil, também na região do Magreb esse tipo de nomeação é amplamente rejeitada pelas comunidades afetadas. Se reconhecem desde tempos remotos como Amazigh ou Imazighen (no plural) cujo significado é “Povo Livre”. Há mais de 12 mil anos ocupando a vasta região que abriga onde hoje se localizam o Marrocos, Argélia, Tunísia, Mauritânia, Libia e o Saara Ocidental (que luta pelo seu reconhecimento como país), a diversidade de povos do macro grupo linguístico tamazight abrange dezenas de línguas e milhões de pessoas.
Entre interações culturais e invasões colonialistas
Segundo algumas fontes, os fenícios teriam sido os primeiros a estabelecerem colônias comerciais na costa mediterrânea do Magreb por volta do século IX a.C., cuja mais importante foi a de Cartago, que se tornou um poderoso império comercial e militar, rivalizando com Roma até sua destruição em 146 a.C. Desde a ocupação romana, passando por influências bizantinas até a entrada massiva e definitiva dos árabes no século VII criando impérios híbridos com povos locais, a geografia da região, banhada pelo Mar Mediterrâneo e encruzilhada de 3 continentes – África, Ásia e Europa – se tornou um verdadeiro mosaico de culturas.
Contemporaneamente e em relação ao Marrocos, entre final do século XIX e início do XX – período conhecido como inaugural da etapa imperialista do capitalismo em que a crise econômica na Europa produz a disputa por novos mercados e territórios na África e Ásia – tanto Espanha quanto França viram na região um local estratégico. Após diversos embates e conferências de negociação com outras potências européias, o Marrocos foi oficialmente colonizado por ambos países, sob a forma de “protetorado”, de 1912 até 1956, quando então se dá o processo revolucionário de descolonização da África no pós-II Guerra Mundial. À Espanha coube uma parte menor, localizada ao norte, na cadeia de montanhas do Rif e ao sul na região de Tarfaya, próxima ao chamado Saara Espanhol (1884-1976), onde hoje fica a considerada “última colônia na África” – terra do povo saarauí que ainda luta por sua independência completa. Já a França abocanhou a maior parte do território marroquino.
Porém, o novo colonialismo imperialista teve imensas dificuldades, sofrendo grandes derrotas diante da resistência à invasão. Entre tantos exemplos vale destacar a constituição de uma República Independente na cadeia de montanhas ao norte do país, organizada a partir da chamada Guerra do Rif (1920-27). Já na parte colonizada pela França, uma das mais emblemáticas rebeliões dos povos originários se deu via Confederação Zaiana (tribos Zayanes), centrada na região de Khenifra, onde a chamada Guerra dos Zaian se estendeu de 1914 até 1921.
Língua, território e mulher
“A palavra Tamazight designa simultaneamente língua, território e mulher – um termo altamente simbólico que encapsula a trindade sagrada de Awal, Acal e Afgan (palavra, terra, ser humano). Herdeiras de uma longa tradição matriarcal, as mulheres Amazigh continuam a desempenhar os seus papéis, gerando e preservando conhecimentos.” – Amina Amharech/ativista indígena Amazigh – Revista da CEDAW
No Marrocos, a tradição de terras comunais dos povos Amazigh sofreu profundas mudanças ao longo da história mas se constituiu como um traço essencial de seus modos de vida, cujas lutas se mantém atualmente. As mulheres formam o pilar indispensável da comunidade, guardiãs do conhecimento e da sabedoria ancestrais que transmitem através da sua língua nativa. Essa centralidade das mulheres na organização social e suas raizes matrilineares se expressam também na linguagem. Assim, elas são reverenciadas nas comunidades como tamghart – líderes e sábias. Já as palavras que definem determinados membros das famílias, como irmão – Og-Mma – e irmã – Ot-Mma – significam “pertencentes à mãe.”
Segundo a linguista marroquina Fatima Sadiqi (O papel das mulheres marroquinas na preservação da língua e cultura, Museu Internacional/Unesco, 2007) a sobrevivência e preservação do território, língua e cultura dos povos originários marroquinos sempre foi obra deles mesmos, sendo que as mulheres cumprem historicamente um papel fundamental. Nesse sentido, a transmissão das tradições linguísticas de geração em geração se dá através dos recursos da oralidade praticados pelas mulheres rurais. Nos gêneros da música e da poesia, elas “utilizam seus versos para manter a comunidade informada sobre os deslocamentos de seus membros. Elas narram e registram eventos importantes, reforçam códigos morais e sociais e lembram à comunidade em geral de seus laços comuns”. Outra questão trazida pela autora diz respeito aos cuidados com as crianças, o que confere ao tamazight o seu estatuto de língua materna, consolidando ainda mais sua longevidade apesar da falta de representação na esfera pública. A dimensão da discriminação ao povo e sua língua ancestral pode ser medida pelo fato de que somente foi reconhecida como oficial, podendo entrar no currículo escolar – no ano de 2011. Para Sadiqi, a língua tem conotações de gênero no Marrocos. Se nos salões oficiais o árabe impera, é nas ruas que o tamazigh pulsa.

Bandeira Amazigh (“Povo Livre”)
Desapropriações e resistências
Para manter e seguir com seu modo de vida, obviamente a questão do território é essencial. A posse da terra, os espaços em que a vida se move e as relações de produção da vida material são determinantes para qualquer cultura. Entram em cena então as profundas contradições entre o modo de vida coletivista e comunitário do povo Amazigh e o sistema capitalista. Segundo a ativista Amina Amharech, no período colonial francês o direito tradicional (consuetudinário) à terra, chamado de Izarfan foi atingido pela Lei (Dirhar) de abril de 1919. Tal legislação facilitou a expropriação de terras nativas para colonos europeus, além de promover a divisão entre os povos originários e árabes numa estratégia de “dividir para governar”. Apesar disso, os colonizadores não conseguiram acabar completamente com as formas comunais de posse e acesso à terra. “Preservamos as formas de governança comunitária, os processos de tomada de decisão com a participação das mulheres e os métodos de soberania alimentar”. No entanto, a ativista alerta que a revogação dessa lei em 2019 por parte do regime monárquico de Mohammed VI muda o quadro para pior ao aprofundar o processo de desapropriação de terras coletivas, uma situação agravada pelos efeitos das mudanças climáticas. Destaca sua face perversa em que o deslocamento forçado para grandes centros urbanos e as péssimas condições de moradia e trabalho atingem principalmente as mulheres e meninas, mais vulneráveis (Revista O Mundo Indígena 2022: Marrocos). Para enfrentar essa tragédia anunciada, o povo Amazigh se organiza no que hoje são cerca de 800 associações espalhadas pelo Marrocos onde, segundo ativistas, cerca de 50% da população é falante de tamazight.
Ao mostrar esse texto para uma amiga ela não deixou de pensar nas nossas mulheres daqui, no Brasil. Agora eu penso também nelas. Nas nossas mães, nossas irmãs, nossas tias, nossas avós. As que nos ensinam todo dia a viver e resistir.
Quer saber mais sobre o assunto? Continua em próxima postagem!