Internacional

Em meio à repressão contra onda de protestos nos EUA, Lula promete visita a Trump

Em conversa com Trump, Lula ignora perseguição a imigrantes, incluindo brasileiros, prisão de crianças e execuções pelo ICE

Redação

27 de janeiro de 2026
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Manifestação em Minneapolis no último dia 23 Foto Laurie Shaull

Menos de três dias após a brutal execução do enfermeiro Alex Pretti por forças do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE na sigla em inglês) durante a onda de greves e protestos em Minneapolis, o presidente Lula conversou por telefone com Trump e prometeu uma visita ao presidente autocrata norte-americano.

A conversa ocorreu nesta segunda-feira, 26, e, segundo o perfil de Lula nas redes sociais, tratou sobre “colaboração” na repressão ao crime organizado, a situação na Venezuela e a famigerada proposta de Trump para um “Conselho da Paz” na Palestina. Lula, ao invés de rejeitar o declarado projeto colonial de Trump que visa expulsar os palestinos para erguer um resort em Gaza, limitou-se a propor que o tal conselho se limite à Faixa de Gaza e a garantia de um assento ao povo palestino (mesmo que toda decisão final fique a cargo do próprio Trump).

Execução fria e deliberada

As imagens da execução de Alex Pretti chocaram o mundo. Imobilizado, o enfermeiro foi atingido por pelo menos 10 disparos pelas forças do ICE. Como resposta, o governo Trump afirmou que o homem representava um “terrorista em potencial”. O assassinato ocorreu menos de um mês da execução de Renée Good, mulher norte-americana baleada pelo ICE na cabeça enquanto manobrava seu carro para desobstruir uma rua a mando da própria Patrulha de Fronteira.

Detalhe do momento em que agente do ICE mira na nuca de manifestantes antes de disparar

O assassinato de Renée Good e a escalada repressiva do ICE no estado do Minnesota generalizou os protestos culminando num dia de manifestações e greve geral no último dia 23, sob o lema “ICE Fora de Minnesota: Dia da Verdade e da Liberdade”. Centenas de estabelecimentos na capital Minneapolis e em St. Paul ficaram fechados enquanto a população ia às ruas contra o que está sendo chamado até por antigos apoiadores de Trump de uma “nova Gestapo” (a polícia política do regime nazista).

Além da execução do enfermeiro, as forças de segurança reprimiram as manifestações e detiveram centenas de pessoas. A revolta diante da nova execução pelo ICE, porém, não fizeram arrefecer os ânimos. O desgaste provocado pela política anti-imigratória de Trump e as cenas da execução fizeram Trump esboçar um recuo, ao mesmo tempo em que reitera sua ameaça persecutória contra imigrantes e minorias em geral.

Força paramilitar a serviço de Trump

Agentes do ICE reprimem manifestação em Minneapolis Foto Chad Davis

A escolha do estado de Minnesota para a ação em massa do ICE não vem do acaso. Apesar de outros estados contarem com um fluxo migratório muito mais significativo, Minnesota é governado pelo democrata Tim Walz, adversário político de Trump. Isso parece ter sido determinante para transformar a região num balão de ensaio para a política e a estratégia bonapartista de Trump.

De um lado, o orçamento para o ICE vem se multiplicando e o objetivo é chegar dos atuais 10 para 100 milhões de dólares até 2029. Caso isso se concretize, a agência submetida ao Departamento de Segurança Interna (DHS) será o maior órgão federal de segurança dos EUA. Recrutados fundamentalmente entre grupos supremacistas, e colocados nas ruas tão logo se inscrevem, o ICE tem poderes para abordar e deter qualquer um que se suspeite que esteja em situação irregular no país. Ou até mesmo cidadãos norte-americanos que estejam “interferindo” em suas ações.

Essa política instaurou um clima de medo e pânico entre a população imigrante e até mesmo cidadãos norte-americanos de origem negra, hispânica, oriental, ou seja, qualquer um que não seja branco e não tenha fenótipo anglo-saxão.

Ao mesmo tempo em que arregimenta uma força armada paralela para, no início, perseguir imigrantes, Trump atua para garantir poderes de exceção ao ICE. Vem causando comoção a tática de prender crianças para deter seus pais, como já ocorreu com uma criança de apenas 2 anos, e outra de 5. Segundo apuração da agência Associated Press, memorando interno do ICE orienta seus agentes a invadirem à força, sem mandado judicial, residências para prender supostos imigrantes ilegais. Isso contraria a própria Constituição norte-americana, abrindo precedente contra outros grupos ou opositores ao governo Trump. Ao mesmo tempo, o governo federal age para obstruir e impedir a responsabilização pelos assassinatos dos agentes do ICE.

Visita de Lula é ato de subserviência a Trump

A promessa de visita de Lula a Trump em Washington marca o papel subserviente diante do imperialismo norte-americano, e é especialmente acintoso num momento em que cidadãos brasileiros estão sendo caçados ao arrepio da própria lei norte-americana, detidos e mantidos presos em condições desumanas que configuram tortura sob qualquer aspecto.

O caso do brasileiro Matheus Silveira, detido no dia 24 de novembro passado, é simbólico. Casado com uma norte-americana, Matheus foi detido enquanto realizava a etapa final para a aquisição de seu green card. Preso desde então, o brasileiro está incomunicável, sua localização é incerta e as autoridades norte-americanas se limitam a qualificá-lo como “estrangeiro ilegal criminoso do Brasil”, mesmo que Matheus não tenha cometido qualquer “crime”, seja no Brasil ou nos EUA.

O silêncio cúmplice vem também da extrema direita no Brasil, que continua a prestar apoio incondicional a Trump, no seu tradicional servilismo canino aos EUA. A atuação durante o tarifaço já mostrou que a extrema direita atua como agentes diretos do imperialismo norte-americano, mesmo que isso signifique um ataque ao seu próprio povo.

Já Lula, apesar de, nas palavras, criticar certas ações de Trump, recusou-se a aplicar a lei da reciprocidade durante o tarifaço, e agora não move uma palha em defesa dos brasileiros perseguidos, presos e torturados nos EUA. Nem mesmo uma nota de reprovação pelo Itamaraty. Pelo contrário, Lula continua apostando na “química” com Trump, enquanto coloca as terras raras no balcão de negócios com o chefe do imperialismo norte-americano e marca uma visita ao autocrata que persegue seu próprio povo.

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