Sobre a polêmica do Nego Bispo e os perigos da romantização de territórios ameaçados
“Pessoal do Quilombo Onça. Eles estão pressentindo confronto amanhã e estão pedindo ajuda.”
(Mensagem recebida nesta segunda-feira)
É bem mais provável nos depararmos com intelectuais acadêmicos, sejam eles negros ou não, idealizando e romantizando a vida nos territórios pretos, do que os próprios pretos que vivem nesses territórios! Falo isso porque tenho “vivência” – palavra em moda também mais no meio acadêmico que entre os quilombolas – com esses povos, assim como já morei no maior quilombo urbano da América Latina, o Quilombo Liberdade. Amo esse lugar mais do que qualquer outro, mas confesso que não vejo esse território como um “lugar fora do mundo”. Assim como não vejo a necessidade de defender o velho e bom griot, Nego Bispo, mitificando e romantizando os quilombos como se fossem territórios sem contradições, sem conflitos, sem disputas, sem necessidades e sem vínculo orgânico com a sociedade capitalista. Como se fossem simples lugares de “vivências”, de onde se extraem conceitos e experiência não eurocêntricas. Um lugar de outra modernidade e outras materialidades.
Quem pisa na terra desse chão sabe que o odor podre do capitalismo exala muito mais nesses territórios do que entre as paredes da UNB, UNIFESP, USP e demais cátedras. É comum para quem vive no mundo frio e individualista da selva de concreto querer apresentar o mundo rural como se fosse o extremo oposto. Lamento dizer, mas não é. Esses dois mundos, por mais diferentes que sejam, estão mais ligados do que se possa imaginar. E não estão ligados por conceitos, categorias e saberes abstratos, mas pela praga do capitalismo e seu desenvolvimento desigual e combinado. E romantizá-los, exageradamente, também é uma forma de silenciá-los. É óbvio que nos quilombos e nas aldeias vivem as pessoas mais humanas do mundo, menos afetadas pelo modo capitalista de ser, mas mais ameaçadas por esse Ser Social.
O Moquibom, principal movimento quilombola do Maranhão, foi fundado depois do assassinato de uma de suas lideranças. Seus companheiros ficaram vigiando o corpo horas a fio para que os assassinos, a mando de fazendeiros capitalistas, não desfizessem a cena do crime. A luta deste movimento nasceu do luto de um dos seus pares, uma “vivência” escrita com sangue quilombola.
Nos quilombos acorda-se cedo, labuta-se cedo e, de acordo com o Censo quilombola de 2022, morre-se cedo de morte morrida ou morte matada, principalmente se for liderança. Em Alcântara, município com mais quilombolas do Brasil, dezenas de comunidades foram expulsas de seus territórios para a instalação de uma base militar controlada pelos EUA, maior potência capitalista do planeta. Isso mesmo, capitalista! Sabe qual foi o grupo responsável por essa expulsão? 30 jovens quilombolas, conhecidos como “Os 30 de Alcântara”, treinados pela Aeronáutica em São Paulo. Sabe o que significa você ser expulso do seu território por seus próprios parentes? Sabe quem estava por trás dessa “vivência”? Os capitalistas! Ou melhor, capitalistas imperialistas, que não são conceitos abstratos, míticos ou produtos de outra materialidade. Ali ninguém precisou ler o Capital de Marx para entender o que é “expropriação”, mas se tivessem lido, certamente o ódio contra o Capital poderia ter sido muito mais profundo.
Ah, para que não fiquem dúvidas: quilombolas também sentem ódio de classe e de raça e, no geral, são obrigados a organizar seus ódios! Ninguém é obrigado a utilizar categorias “eurocêntricas” como capital, trabalho, classe social, mais-valia, exploração, expropriação e o diabo que o parta para suas elaborações intelectuais. O problema é que fazer essa opção teórico-metodológica não livra ninguém de viver neste inferno onde tais conceitos e categorias se apresentam na forma de relações sociais que oprimem, humilham e matam, principalmente em nossos territórios. Escrever nos oferece várias opções, sobreviver, não!
Romantizar territórios que estão com as suas próprias existências ameaçadas pelo MATOPIBA não é um gesto de exaltação e sim de distração em relação à ameaças como esta. O MATOPIBA é a maior fronteira agrícola do Brasil, abrangendo os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Esse projeto foi aprovado em 2015 no governo Dilma, que outorgou ao agronegócio o direito a roubar uma área de mais de 70 milhões de hectares e passar por cima de centenas de territórios, tão romanticamente exaltados pelas academias, e tão pouco denunciados em seus espaços.
Se o MATOPIBA não for derrotado e o agronegócio não for expropriado, só sobrarão memórias a serem exaltadas. O MATOPIBA é o projeto capitalista mais ameaçador que esses povos terão de enfrentar nos próximos anos, e que, com o acordo assinado pelos países do Mercosul com a União Europeia, essa ameaça se elevou à milésima potência. Um acordo que Lula assinou com toda força e que a extrema direita aplaudiu de pé.
Digo, sem romantização: será difícil barrar um projeto tão necessário para o capitalismo brasileiro e mundial, se não houver uma ampla aliança entre os trabalhadores do campo e da cidade. E atenção: o Quilombo-Curtume, do Nego Bispo, está dentro da área do MATOPIBA. Ou melhor, o MATOPIBA é o intruso capitalista metido pelo PT na área do Quilombo-Curtume.
Mas, com a energia de gente como Nego Bispo, haveremos de vencer mais essa guerra contra o capitalismo, uma forma de organização social extremamente assassina e nem um pouco abstrata.
PAra encerrar: a epígrafe no início do texto foi uma mensagem repassada a mim nesta segunda-feira por um PM antirracista que acompanha o Quilombo Onça, localizado em Santa Inês (MA) e que está tendo suas terras invadidas pelos parentes do prefeito Felipe dos Pneus, com o apoio da própria PM. A família desse prefeito é branco-burguesa e o roubo das terras dos quilombolas é justamente para produzir Capital.