Internacional

Palestina: Solidariedade e resistência contra o conselho de paz dos cemitérios de Trump

Soraya Misleh

6 de fevereiro de 2026
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Imagens de IA divulgadas pelas contas oficiais de Trump mostrando seu plano para Gaza

Com o lançamento de seu Conselho de Paz no Fórum Econômico Mundial de Davos, em 22 de janeiro, o presidente dos Estados Uunidos, Donald Trump, tenta tirar do papel seu projeto acalentado há tempos e divulgado sem constrangimento, em fevereiro de 2025, de constituir a Riviera do Oriente Médio em Gaza. Na dor do povo palestino diante de um genocídio que segue, aos olhos do mundo, vislumbra a oportunidade de estabelecer seu resort de luxo, ao mesmo tempo que dá carta branca a Israel, enclave militar do imperialismo, para dar cabo à solução final na contínua Nakba – a catástrofe palestina que dura quase 78 anos.

Assim, o tal conselho de paz dos cemitérios busca a erradicação da cultura, do patrimônio histórico, da memória e da identidade palestinas a partir de Gaza. Na terraplanagem para o levantamento de torres luxuosas, ao mesmo tempo, poria fim às evidências do genocídio que já matou pelo menos 71 mil palestinos, dos quais mais de 20 mil eram crianças, e destruiu 90% da infraestrutura de Gaza.

A cena futura, com o plano de Trump, é retratada em “Praia de Gaza 2030”, do cartunista Peter de Wit, em que um casal toma sol em praia paradisíaca enquanto o filho pequeno alegremente desenterra crânios na areia. A obra foi agraciada em 2025 com o prêmio anual de melhor charge política na Holanda.

Nações Unidas de Trump

Ao transformar a Palestina em laboratório do mundo, esse conselho pode repetir o feito em qualquer parte do mundo, no tabuleiro do banco imobiliário em que Trump transforma o globo. O imperialismo central, sem máscara nem mediação, explicita sua cara feia, sob a megalomania do líder da extrema direita.

Emblemático é o fato de o conselho, em nenhum momento, em sua carta de fundação, mencionar o povo palestino, a Faixa de Gaza ou a Palestina, mas evidenciar que seria um organismo internacional para atuar em “áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos”.

Trump fez questão de atestar isso em seu discurso de lançamento em Davos, ao afirmar que sua abrangência poderia abarcar outros “assuntos mundiais”. Ele declarou na ocasião: “Quando esse conselho estiver completamente formado, poderemos fazer praticamente tudo o que quisermos”.

Embora tenha dito que atuaria em conjunto com a Organização das Nações Unidas, tratou premeditadamente de sair de 66 organismos internacionais – 31 deles vinculados à ONU. Ao buscar enfraquecê-la e aprofundar sua falta de credibilidade para justificar seu plano sujo de formação do conselho, Trump, de maneira hipócrita, critica a incapacidade das Nações Unidas em resolver conflitos.

A ONU manteve o gene da Liga das Nações ao dar lugar a ela no pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945) – no pensamento de Lênin, a Liga das Nações era um “covil de bandidos” onde as potências imperialistas se reuniam para compartilhar o butim oriundo dos seus projetos coloniais e agressões. A estrutura da ONU, criada oficialmente em 24 de outubro de 1945, atende aos marcos de manutenção da ordem internacional capitalista.

Vale lembrar que já em sua segunda Assembleia Geral, em 29 de novembro de 1947, a ONU recomendou a partilha da Palestina em um Estado judeu (56,5%) e um árabe (42,9%), e a manutenção de Jerusalém sob administração internacional (0,6%), delegando ao projeto colonial sionista mais de metade das terras palestinas, sem consulta aos palestinos, os habitantes originários.

Foi um sinal verde para que as gangues paramilitares sionistas, fortemente armadas sobretudo pela União Soviética de Stálin via Tchecoslováquia, colocassem em prática seu plano de limpeza étnica da Palestina – cuja fase mais agressiva se iniciou doze dias após a recomendação de partilha pela ONU. O resultado foi a pedra fundamental da Nakba – a formação do Estado racista e colonial de Israel em 78% da Palestina histórica, sobre os corpos palestinos e os escombros de suas aldeias.

O que obviamente Trump omite é que os EUA têm contribuição decisiva em manter a inefetividade da ONU que critica. Somente em relação ao genocídio em Gaza, vetaram o cessar-fogo no Conselho de Segurança por seis vezes, a última em setembro de 2025.

Os outros quatro estados nacionais que dividem com os EUA o status de membros permanentes nesse fórum deliberativo privilegiado e podem exercer direito de veto dentro da ONU não ficam atrás. São eles: França, Reino Unido, China e Rússia.

Os dois últimos se abstiveram na votação no Conselho de Segurança em 17 de novembro de 2025, do plano de Trump para Gaza – um ultimato à resistência palestina isolada e criminalizada pela propaganda de guerra sionista-imperialista, para que bombas massivas parassem de cair sobre as cabeças de seu povo, sobretudo de crianças e mulheres.

Uma falsa negociação “entre a espada e o pescoço”, parafraseando a resposta dada pelo revolucionário palestino marxista Ghasan Kanafani em famosa entrevista ao jornalista australiano Richard Carleton, em 1970, sobre por que não dialogar com israelenses.

O conselho de paz dos cemitérios é consequência desse acordo. O plano de Trump prevê sua constituição na segunda fase do falacioso cessar-fogo. A desmilitarização da resistência, parte desse plano macabro, é apoiada inclusive pela ONU, ao arrepio do direito internacional e contrariando suas próprias resoluções que garantem o direito de resistência, por todos os meios, aos povos sob colonização.

Em reunião do Conselho de Segurança, no dia 28 de janeiro, que debateu a implementação da segunda fase do plano de Trump, o vice-coordenador especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio, Ramiz Alakbarov, declarou que esta seria uma etapa crucial para consolidação do cessar-fogo. Afirmou ainda que as Nações Unidas estão prontas a colaborar com o Comitê de Administração dos tecnocratas palestinos, parte do tal conselho de Trump.

Genocídio continua

A farsa do cessar-fogo

Bombardeio sobre Gaza após o “cessar-fogo” Foto IRNA

Iniciado em 10 de outubro de 2025, o cessar-fogo é uma farsa – no dicionário sionista, “você cessa [palestino], eu atiro [sionista]”, como decifrou Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados.

De fato, o genocídio, agora sob o verniz de cessar-fogo, continua. Somente desde sua vigência em 10 de outubro do ano passado, Israel matou mais de 480 palestinos e continua a impedir a entrada previamente acordada da ajuda humanitária – permitiu cerca de 43% do compromisso, excluindo de forma deliberada alimentos ricos em nutrientes, como carnes, vegetais e laticínios, além das casas móveis e equipamentos necessários aos palestinos para reconstruírem Gaza, diante de 90% da infraestrutura destruída pelo bombardeio massivo.

Pelo menos 23 crianças já haviam morrido congeladas diante de inundações e do inverno cortante, sem casas para se abrigar. Vírus se disseminam com rapidez, resultado da destruição de hospitais e da infraestrutura de saneamento no genocídio contínuo perpetrado pela ocupação israelense com as armas dos imperialismos europeu e, sobretudo, estadunidense.

Albanese lembrou reiteradas vezes que é obrigação legal, não favor ou caridade, que todos os estados nacionais sancionem Israel, sob o direito internacional e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. Isso tem sido solenemente ignorado pela maioria.

Embora a ONU reúna um corpo de especialistas qualificados e honestos como Albanese e seja um rico repositório de documentos históricos que servem de instrumento à luta contra a opressão nacional do povo palestino, fica demonstrado que, por sua estrutura, não se deve ter ilusões de que a libertação virá das Nações Unidas. Vale observar que o organismo insiste na falsa solução de dois estados – que ainda que não fosse injusta desde sempre por não contemplar a totalidade do povo palestino, inclusive metade refugiada e na diáspora, já está morta e enterrada diante da expansão colonial agressiva.

Por óbvio, a ONU paralela de Trump se dá às margens até do direito internacional, premiando Israel. Trata-se de um balcão de negócios, em que, inclusive para que os estados nacionais tenham assento permanente, Trump cobra US$ 1 bilhão no primeiro ano.

Pacificação nunca foi paz

Enquanto as imagens do sofrimento palestino são assistidas nas redes sociais, Trump busca dar ares de pacificação para vender a ideia de que alcançou a paz e, assim, entregar Gaza a magnatas para construírem seu resort de luxo. Pacificação é silenciar a resistência e controlar o povo oprimido, muito diferente da tal aclamada paz – que exigiria antes justiça e libertação. “Paz sem voz não é paz, é medo”, como lembram os versos da música “Minha alma (A paz que eu não quero)”, da banda “O Rappa”.

As imagens apresentadas pelo genro de Trump, Jared Kushner, ao lançamento do conselho em Davos vão na direção dessa pacificação e beiram a distopia: dezenas de arranha-céus de alto padrão que parecem futuristas e em nada lembram Gaza – tão artificiais quanto as ilhas em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

De outro lado, está o confinamento de palestinos em áreas residenciais pré-definidas, sobretudo na região de Rafah, no sul de Gaza, para servirem de mão de obra barata no resort de Trump. Ali, Israel já começou a aplicar esse plano maligno, ao planificar a área para estabelecer o campo de concentração de milhares de palestinos – para outros milhões, o destino seria a morte ou a expulsão. A “Nova Gaza”, que abrangeria hub tecnológico conforme a intenção israelense anunciada há anos, ao modelo de Singapura, reedita, desse modo, a Nakba de 1948. Assim como naquele momento, busca-se mudar a paisagem local e promover um verdadeiro memoricídio.

Na apresentação do plano mestre ao lançamento em Davos, o ridículo se mostrou pleno quando Kushner apresentou um slide escrito em árabe, mas com a grafia invertida, e outro com homens árabes com trajes mais associados aos usados em países do Golfo. Mais uma vez ao longo da história, os palestinos são alijados do seu destino e desumanizados.

Kushner chegou a declarar as propriedades à beira-mar de Gaza como muito valiosas. Vale lembrar que o genro de Trump é considerado o arquiteto dos Acordos de Abraão no primeiro governo do presidente de extrema direita, os quais promoveram o avanço da normalização dos países árabes com Israel.

Ele também anunciou a pretensão de abertura completa do posto de fronteira de Rafah, saída e entrada inclusive para pedestres – Israel anunciou “reabertura limitada” neste 26 de janeiro. O que se revela não é preocupação humanitária com os palestinos em Gaza, mas um caminho aberto para sua expulsão compulsória – limpeza étnica.

A estrutura do conselho

Embora o tal conselho de paz tenha sido apresentado com vigência de três anos, cabe a Trump destituí-lo, e esse prazo pode ser prorrogado a seu bel-prazer. O cargo vitalício e decisões absolutas coincidem com a imagem gerada por ele há algum tempo, via inteligência artificial, de “rei dos mundos”.

Grave ainda é o fato de que seu Conselho Executivo é formado por magnatas e criminosos de guerra. Dentre os primeiros, está o bilionário israelense do setor imobiliário Yakir Gabay; dentre os últimos, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, um dos principais apoiadores da invasão dos EUA ao Iraque em 2003, propagandeando falsamente as inexistentes armas de destruição em massa como justificativa.

Abaixo disso, estaria o comitê de administração com tecnocratas palestinos, responsável por assuntos administrativos – portanto, sem nenhuma autonomia na tomada de decisões. Uma réplica mal-acabada da Autoridade Palestina, criada como gerente da ocupação a partir dos malfadados acordos de Oslo, firmados em 1993 entre a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e Israel, sob intermediação dos EUA. Acordos de Oslo que também foram vendidos ao mundo como caminho para a paz gradual, então na perspectiva de solução de dois estados.

O resultado é expansão colonial agressiva sionista, ao que genocídio, limpeza étnica e apartheid são imprescindíveis. O conselho de paz dos cemitérios consegue se apresentar como versão piorada, em que os palestinos simplesmente inexistem, a não ser como peças no tabuleiro do comitê de administração para dar ares de legitimidade.

Ruptura das relações com o Estado de Israel

Cessar a cumplicidade internacional

Os palestinos lamentavelmente enfrentam a cumplicidade internacional contínua que permite a manutenção e o avanço desse projeto racista e colonial, inclusive para além de Gaza.

Na Cisjordânia e Cidade Velha de Jerusalém, que, junto com a estreita faixa compõem os 22% do território palestino remanescente ocupados militarmente por Israel em 1967, a situação é também dramática, com limpeza étnica aprofundada. Nas áreas ocupadas em 1948, as quais hoje o mundo denomina Israel, os palestinos remanescentes da Nakba (1,9 milhão) também enfrentam o apartheid institucionalizado: convivem com 65 leis racistas, silenciamento e repressão. Nas masmorras sionistas, as torturas inomináveis, amplamente denunciadas, são regra. Algo como 10 mil presos políticos palestinos padecem nesses centros de tortura, incluindo cerca de 350 crianças e 50 mulheres. Enquanto isso, 6 milhões de palestinos vivem em campos de refugiados nos países árabes, impedidos do legítimo direito de retorno às suas terras, e outros milhares são parte da diáspora mundo afora.

Genocídio normalizado pela comunidade internacional

O genocídio em Gaza deveria ter sido a gota d’água para que houvesse a urgente ruptura de relações com o Estado sionista, ao encontro da mínima obrigação legal perante o direito internacional e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. Infelizmente, contudo, a maioria dos estados nacionais, inclusive o Brasil, segue com tratados e acordos militares, econômicos e diplomáticos com Israel. O genocídio do povo palestino é normalizado, em detrimento do necessário isolamento internacional do Estado genocida.

Isso vai na contramão da principal campanha de solidariedade ao povo palestino: BDS (boicote, desinvestimento e sanções) a Israel, aos moldes da campanha de boicote que ajudou a pôr fim no regime de apartheid na África do Sul nos anos 1990.

E, na contramão do direito à autodeterminação do povo palestino, suas vozes seguem a não ser ouvidas. Palestinos têm denunciado o tal conselho de paz dos cemitérios, que nada tem a ver com libertação, justiça, nem mesmo minimamente com reconstrução de Gaza.

Mas isso não impediu que pelo menos 23 países, até o momento, concordassem não apenas em integrá-lo, como também em dividir esse fórum com o genocida Israel. Dentre os demais convidados – cerca de 60 ao todo –, sete europeus recusaram até agora: Alemanha, França, Itália, Espanha, Noruega, Eslovênia e Suécia.

Pressionados pela ofensiva dos EUA em relação à Groenlândia e à chantagem de Trump com as tarifas para impor sua vontade, eles temem o desmonte da ONU e do chamado multilateralismo por sua substituição pelas “Nações Unidas de Trump”.

Ou seja, tem muito menos a ver com uma consideração sobre autodeterminação do povo palestino, o que se evidencia quando se observa que a União Europeia de conjunto se recusou a sancionar Israel e sobretudo quando se observa que cúmplices diretos do genocídio, como Alemanha, Itália e França, estão entre os que deram resposta negativa. A alegação é o formato do conselho. Esta é também a posição expressa pelo Brasil, que está entre os cerca de 60 e ainda não recusou o convite.

Em conversa por telefone com Trump, no dia 26 de janeiro, Lula pediu mudanças no conselho: que a Palestina tenha assento – leia-se Autoridade Palestina (AP) – e se limite a Gaza, sem extrapolar, portanto, sua abrangência para o resto do mundo. Se ouvisse a maioria do povo palestino, não a AP, gerente da ocupação, deveria recusar, romper todas as relações com Israel e convocar mobilizações contra o imperialismo estadunidense e em solidariedade ao povo palestino.

Este papel, contudo, está reservado à solidariedade internacional efetiva e concreta. Nas palavras de Kanafani, “a causa palestina não é apenas uma causa para os palestinos, mas para todo revolucionário, onde quer que esteja, das massas oprimidas e exploradas na nossa era”.

Manifestação em solidariedade à Flotilha e ao povo palestino, em Belo Horizonte Foto Geraldo Batata

Palestina livre, do rio ao mar

Passou da hora de retomar as fortes mobilizações unitárias pela Palestina e abraçar a resistência heroica e histórica palestina, exemplo para todo lutador, em qualquer parte do mundo.

Se a Palestina é o laboratório do mundo, cujas armas são testadas sobre as cobaias humanas em que Israel converte seu povo para depois promover o genocídio pobre e negro nas periferias brasileiras e extermínio indígena, a próxima Gaza pode estar muito mais perto do que se imagina. Como um chamado das ruas, “se internacionalizam a barbárie, internacionalizemos a resistência”. Não à paz dos cemitérios. Até a Palestina livre do rio ao mar!

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