Sobre a polêmica do Nêgo Bispo e os perigos da romantização de territórios ameaçados
“Pessoal do Quilombo Onça. Eles estão pressentindo confronto amanhã
e estão pedindo ajuda.” (Mensagem recebida no dia 26 de janeiro)
Depois da publicação do artigo de Douglas Barros intitulado “Contra Nêgo Bispo”, uma polêmica se formou nas redes sociais envolvendo intelectuais e organizações antirracistas. Pâmela Carvalho, em seu artigo “Contra a redução epistêmica: em defesa de Nêgo Bispo e da substantividade do pensamento contracolonial”, afirmou: “Nêgo Bispo não escreveu para ser autorizado. Ele escreveu para existir. E isso, para a modernidade colonial, é um escândalo”.
Essa foi a pegada da maioria dos defensores de Nêgo Bispo, invocar a autoridade do autor antes de focar no debate, na polêmica e na crítica. Nêgo Bispo era, antes de tudo, um crítico e, portanto, estava e está sim sujeito a críticas. Ele tem a história dele, a experiência dele, a cara metida na realidade, assim como muitos entre nós também têm, e isso, de fato, ninguém pode apagar.
Mas, não se pode colocar ninguém na apoteose de deuses incriticáveis e protegidos por telhados de vidros. Se vivo fosse, Nêgo Bispo estaria se defendendo com o mesmo tom poético e sarcástico com que sempre escreveu. No Brasil, existe uma tendência de se caracterizar toda polêmica dentro da esquerda ou dos movimentos de luta contra as opressões como se fosse desrespeito.
Mesmo que possa parecer deselegante e arrogante, Douglas Barros teve o mérito de expor seu pensamento sem melindre. Fez a polêmica expondo o pensamento do Nêgo Bispo para poder criticá-lo.

Douglas Barros Divulgação
O que está por trás da crítica eurocêntrica
É preciso responder se Douglas está errado ao afirmar que Nêgo Bispo divide o mundo entre monoteístas e politeístas quando afirma no livro A terra dá, a terra quer: “Se deixamos o monoteísmo e adentramos o politeísmo, nos imunizamos?”. Nêgo Bispo dividia ou não dividia o mundo entre o que é “humano” e o que é “orgânico”? Responder a essas perguntas, acusando o opositor de ser eurocêntrico, é responder nada.
Existe uma tendência de se idealizar a vida nesses territórios mais do que quem vive neles! Tenho essa “vivência” – palavra em moda também mais no meio acadêmico que entre os quilombolas – por ter residido e militado no maior quilombo urbano da América Latina, o Quilombo Liberdade. Amo demais esse lugar, mas confesso que não vejo esse território como um “lugar fora do mundo”. Minha dissertação de mestrado é um estudo profundo sobre a “guerra interna” na qual esse território estava metido. Vi, intervi e escrevi sobre isso. O Movimento Hip Hop Quilombo Urbano e PSTU foram as principais organizações a denunciar e enfrentar essa guerra. E isso só foi possível porque não ficamos na fronteira da idealização. Caímos para dentro da guerra.
Por isso, não vejo necessidade de mitificar os quilombos como se fossem territórios sem contradições, sem conflitos, sem disputas, sem necessidades e sem vínculo orgânico com a sociedade capitalista, como se fossem lugares de “vivências”, protegidos por barreiras contracoloniais de onde se extraem conceitos e experiências não eurocêntricas. Aliás, a maioria dos conceitos e das categorias utilizadas pelos seguidores de Nêgo Bispo foram cunhados por gente branca e/ou europeia.
O termo “cosmovisão” é do filósofo alemão Immanuel Kant. Epistemicídio, que apareceu nas falas da maioria dos críticos de Douglas Barros, foi cunhado pelo sociólogo português Boa Ventura Santos. A “crise das metanarrativas”, para não dizer do marxismo, que aparece no artigo de Pâmela Carvalho, foi formulado pelo filósofo francês Jean Francois Lyotard em seu livro A condição pós-moderna. “Colonidade de poder”, de onde derivaram os conceitos de colonidade e contracolonidade, é de Aníbal Quijano. Ele não é europeu, é peruano, mas é branco e se dizia marxista. Como ficam as pessoas que reivindicam o conceito e afirmam que o marxismo é eurocêntrico?
Na verdade, Quijano é um desses “marxistas” que diziam que o marxismo havia fracassado e que, diante da “inevitabilidade da globalização”, com sua força uniformizadora, a saída seria a preservação da diversidade e dos laços de solidariedade, presentes nas comunidades pré-capitalistas. No artigo “Colonidade, Poder, Globalização e Democracia”, Quijano se volta para a confederação Helvética formada na Suíça do século XIII, onde, segundo ele, “a defesa exterior e a segurança interior são realizadas de modo direto, institucionalizado, pela comunidade”.
FHC, em Globalização e outros temas contemporâneos, afirma que os verdadeiros elementos da realidade brasileira, ameaçados pela globalização, seriam “uma história comum, uma herança cultural e uma trajetória coletiva”. Para Nêgo Bispo, na obra citada acima, “a humanidade está aí, não vamos matar a humanidade. Mas como vamos nos relacionar com ela? Estabelecendo fronteiras”.
Para os três, não existe saída, o capitalismo ou a globalização venceu. E, em que pese suas profundas diferenças, resta-nos remediar isso aí preservando os laços comunitários. Para FHC, isso já estaria sendo feito pelas ONGs, para Quijano estaria numa sociedade medieval e para Nêgo Bispo, nas comunidades quilombolas e indígenas.
Douglas Barros erra quando diz que o pensamento de Nêgo Bispo é produto de sua decepção com o PT. Esse tipo de pensamento, por mais honesto que seja, é o pensamento que prevalece entre a maioria das organizações políticas e antirracistas do Brasil: a falta de perspectiva e projeto para a superação do capitalismo. Por isso mesmo, o marxismo está na alça de mira de quase todos eles, bem como a idealização dos territórios afro-indígenas.
Romantizar é também uma forma de silenciar
O mundo urbano, frio e individualista, e o mundo rural, idealizado pelas cátedras, estão mais conectados do que se pode imaginar. E não é por conceitos, categorias e saberes abstratos, mas pelo capitalismo e seu desenvolvimento desigual e combinado. Romantizá-los de modo exagerado é também uma forma de silenciá-los.
O Moquibom, principal movimento quilombola do Maranhão, foi fundado depois do assassinato de uma de suas lideranças. Seus companheiros ficaram vigiando o corpo horas a fio para que os assassinos não desfizessem a cena do crime. A luta deste movimento nasceu do luto de um dos seus pares, uma vivência escrita com sangue quilombola. Nos quilombos, acorda-se cedo, labuta-se cedo e, de acordo com o Censo Quilombola de 2022, morre-se cedo. Muitas de suas lideranças já foram assassinadas ou estão ameaças de morte.
Em Alcântara (MA), município com mais quilombolas do Brasil, dezenas de comunidades foram expulsas para a instalação de uma base militar controlada pelos EUA. O grupo responsável por essa expulsão foi “Os 30 de Alcântara”, jovens quilombolas treinados pela Aeronáutica em São Paulo. Sabe o que significa você ser expulso do seu território por seus próprios parentes? Sabe quem estava por trás dessa vivência? Os capitalistas imperialistas! Ali ninguém precisou ler O Capital de Marx para entender o que é expropriação, mas se tivessem lido, certamente o ódio contra o capital poderia ter sido muito mais profundo.
Ninguém é obrigado a utilizar categorias como capital, trabalho, Estado, classe social, mais-valia, exploração e expropriação em suas elaborações. Mas fazer essa opção teórico-metodológica não livra ninguém de viver neste inferno onde tais categorias se materializam em opressão, humilhação e genocídio, principalmente em nossos territórios. Escrever nos oferece várias opções; sobreviver, não!
Romantizar territórios que estão com as suas existências ameaçadas pelo Matopiba não é um gesto de exaltação, e sim de distração em relação a essas ameaças. O Matopiba é a maior fronteira agrícola do Brasil, abrangendo os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Esse projeto foi aprovado em 2015, no governo Dilma, que outorgou ao agronegócio o direito a roubar mais 70 milhões de hectares e passar por cima de centenas de territórios ancestrais.
Se o Matopiba não for derrotado, só sobrarão memórias a serem exaltadas. O Matopiba é o projeto capitalista mais ameaçador que esses povos estão enfrentando e, com o acordo assinado pelos países do Mercosul com a União Europeia, eleva-se à milésima potência. Um acordo que Lula assinou com toda força, e a extrema direita aplaudiu de pé.
Será difícil barrar esse projeto se não houver uma ampla aliança entre os trabalhadores do campo e da cidade. E atenção: o Quilombo-Curtume, do Nêgo Bispo, está dentro da área que o PT entregou à burguesia do Matopiba.
Mas com a energia de gente como Nêgo Bispo haveremos de vencer mais essa guerra contra o capitalismo, que, repito, é uma forma de organização social extremamente assassina e nem um pouco abstrata.
Para encerrar: a epígrafe no início do texto foi uma mensagem repassada a mim por um policial militar antirracista que acompanha o Quilombo Onça, localizado em Santa Inês (MA), que está tendo suas terras invadidas pelos parentes do prefeito Felipe dos Pneus com o apoio da própria PM. A família desse prefeito é branco-burguesa, e o roubo das terras dos quilombolas é justamente para produzir capital.