Internacional

Trump contra os trabalhadores dos EUA e do mundo

Julio Anselmo

6 de fevereiro de 2026
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No último período, o mundo assiste a uma ofensiva econômica e militar sem precedentes por parte do imperialismo estadunidense. Dos tarifaços, passando pelas ameaças contra a América Latina, a Groenlândia e agora o Irã, até uma intervenção militar direta na Venezuela e o plano de ocupação de Gaza. No plano interno, Donald Trump promove uma caça aos imigrantes, passando por cima das leis do próprio país, mas também sofrendo uma forte resistência do movimento de massas. O que está por trás das ações dos EUA?

Trump tenta reformatar o mundo e os Estados Unidos para retomar uma dinâmica ascendente do capitalismo imperialista estadunidense, hoje em evidente decadência. Sua política parte do reconhecimento de que a manutenção do funcionamento “normal” da economia capitalista mundial passou a favorecer o emergente imperialismo capitalista chinês.

A concentração e centralização do capital, características do imperialismo, quando atingem níveis gigantescos, tendem a aprofundar o parasitismo financeiro. É isso que se expressa hoje nos EUA. Já o capitalismo chinês combina maior dinamismo na capacidade produtiva, taxas de lucro altíssimas e pujança comercial, além de se beneficiar do fato de ainda estar no movimento inicial de seu imperialismo com a exportação de capitais começando. Isso dá a ele uma vantagem relativa na disputa nos termos econômicos postos hoje no mundo. Por isso, consegue inundar a Europa com carros elétricos, adquirir ativos estratégicos ao redor do mundo e avançar sobre regiões historicamente dominadas pelos EUA, como a América Latina, aumentando a disputa por lucros com os monopólios capitalistas dos EUA.

Diante disso, Trump busca alterar as regras do jogo. Para tanto, combina o tensionamento autoritário do regime democrático‑burguês no plano interno com agressões econômicas e militares no plano externo. A perseguição aos imigrantes pelo Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE na sigla em inglês), as ameaças às liberdades democráticas, os ataques aos direitos dos trabalhadores e o questionamento do próprio processo eleitoral fazem parte dessa estratégia. No plano internacional, essas medidas se articulam com o tarifaço, as ameaças militares e a intensificação da política imperialista contra diversos países.

Agressões econômicas e militares do imperialismo

Os EUA ainda são o principal país imperialista do mundo e têm a vantagem de décadas de domínio e exportação de capitais. Seus monopólios de fato ainda dominam o mundo. Tem larga vantagem em vários ramos da disputa tecnológica que são chave para a disputa interimperialista. Mas sua principal força é a superioridade militar. E Trump já demonstrou que usará e tem usado este expediente quando julgar necessário.

Trump tenta reconfigurar a velha ordem mundial em todos os sentidos. Tudo para que consiga ainda mais domínio de matérias-primas fundamentais para as novas tecnologias, acesso a mercados em condições ainda mais privilegiadas e inclusive eliminação da concorrência de outros setores capitalistas. É a velha e permanente lógica de disputar entre os monopólios capitalistas por zonas de influência e de negócios pelo mundo.

Império contra-ataca

As ações de Trump contra Groenlândia, Venezuela e Irã

Primeira foto divulgada de Nicolás Maduro preso pelos EUA

Quando Trump ameaça a Groenlândia, ele não coloca em questão apenas a OTAN. Coloca em questão todos os acordos e a estratégia construída com os países imperialistas europeus após a Segunda Guerra Mundial, que acomodou o imperialismo inglês, francês e alemão e mais países, culminando num projeto de integração imperialista que significou ataques aos trabalhadores, desmantelamento do estado de bem-estar social, rebaixamento de países e espoliação dos mais pobres. Tudo em associação com os EUA. Trump questiona a União Europeia, a OTAN, tudo isso em prol dos interesses dos monopólios capitalistas dos EUA.

A agressão imperialista contra a Venezuela, com o sequestro de Maduro, nada tem a ver com a defesa da democracia ou combate ao narcotráfico. Foram desculpas usadas para garantir acesso ao petróleo e terras raras, ainda que os EUA tenha bastante petróleo hoje. Mas o interesse do Trump é garantir um acordo colonial com o governo venezuelano. Não só controla o petróleo, como o que o governo vai comprar com este dinheiro, que deve estar de acordo com os interesses dos EUA. Ao mesmo tempo, manda um recado contra a influência crescente do imperialismo chinês e russo.

Na verdade, esta ação é só o episódio mais grave de uma série de ataques contra todos os países da América Latina. Foi o tarifaco contra o Brasil tentando interferir no judiciário e nas eleições, ameaças a Colômbia, México e Panamá, e agora aumenta o tom das ameaças contra Cuba. Tudo isso faz parte de uma retomada da velha doutrina Monroe de tratar a América Latina como quintal dos EUA, aprofundando a espoliação e a ingerência dos EUA sobre todos os países do subcontinente.

Oriente Médio

Na faixa de Gaza Trump avança com seu plano de colonização em conluio com Israel para manter o povo palestino fora de suas terras, manter o genocídio por diversos caminhos, adicionado agora a política de gerir diretamente Gaza, com predomínio da participação dos monopólios capitalistas dos EUA na reconstrução, ou seja, transformar a reconstrução em negócios capitalistas principalmente no mercado imobiliário.

O ataque que Trump realizou contra o Irã em junho de 2025 foi uma antessala e uma demonstração da doutrina militar da extrema direita. Trump foi eleito prometendo não colocar os EUA em novas guerras. Mas isso não quer dizer menos violência imperialista. Trump não envia soldados mas se arvora no direito de atacar qualquer alvo que seja do interesse dos EUA. Assim, sem declarar guerra, sem autorização do congresso, sem nenhuma formalidade, só agride países com grandes operações militares como foi contra as instalações militares do Irã e contra a Venezuela. Tem atacado também o Estado islâmico na Nigéria com apoio do governo local.

E agora segue ameaçando militarmente o Irã. Não tem nada a ver com a repressão e as mortes promovidas pelo regime opressor do Irã contra trabalhadores, mulheres e o povo iraniano que justamente protestam contra a ditadura, as péssimas condições de vida com as medidas neoliberais adotadas pelo regime, assim como a falta de liberdade democrática para as mulheres no capitalismo teocrático iraniano. Os EUA é a nação mais opressora e repressora que existe. Usa isso e também o programa nuclear iraniano como desculpa para tentar subordinar cada vez mais esse país ao seus interesses econômicos e políticos na região.

Fora ICE

Luta e resistência contra a violência da polícia de imigração de Trump

O governo Trump ampliou o contingente e o financiamento do ICE para aplicar uma política de imigração profundamente violenta e reacionária. Milhares de agentes, muitos identificados com a extrema direita do movimento MAGA (Faça a América Grande de Novo), atuam para perseguir, prender e violentar pessoas sob a acusação de imigração irregular. Para isso, utilizam uma legislação já pouco democrática, herdada da chamada guerra ao terror, agora aprofundada e aplicada de forma ainda mais arbitrária.

Famílias são separadas, crianças arrancadas de seus pais, comunidades inteiras aterrorizadas. Tudo isso em nome do combate à imigração, quando na realidade os fluxos migratórios são resultado direto da opressão, da espoliação e da exploração histórica promovidas pelo imperialismo estadunidense sobre inúmeros países. O capital exige liberdade total para circular e explorar onde quiser. Já os trabalhadores, quando buscam sobreviver, são recebidos com repressão e violência.

A morte de Renee Good e Alex Pretti escancarou o caráter dessa política repressiva. Ambos eram cidadãos estadunidenses e se opunham de forma ativa às ações do ICE. Esses crimes evidenciaram que a repressão não se limita aos imigrantes: trata‑se de um ataque mais amplo contra a classe trabalhadora. Hoje são os trabalhadores imigrantes; amanhã, serão todos os trabalhadores. Não é a toa que essa política se combina com o constante envio de tropas federais para reprimir manifestações como vimos em Los Angeles.

Resistência

Após os assassinatos, a resposta do governo foi defender os agentes e justificar a política de repressão, o que intensificou a revolta. Em Minneapolis, cresceu a organização comunitária para vigiar bairros e repelir as ações do ICE. Trata-se de uma auto-organização inicial dos trabalhadores, que pelas tradições do país incluem autodefesa armada, contra as arbitrariedades de um Estado capitalista dirigido pela extrema direita. Combinaram-se com greves parciais, grandes passeatas e mobilizações de massa e demonstraram a força da resistência dos trabalhadores.

O movimento de luta e resistência ao ICE em Minneapolis obrigou o governo Trump a recuar. Derrubou o comandante do ICE, embora tenha entrado outro cara tão ruim quanto. E obrigou o governo a retirar partes dos agentes das cidades e comunidades, mostrando a força da luta e resistência dos trabalhadores. A luta continua. Está sendo convocada uma grande mobilização com o lema “No Kings” para o dia 28 de março.

Apesar dos limites impostos pelas direções ligadas a concepções burguesas, é fato que as mobilizações são um terreno fértil para que os trabalhadores dos EUA reúnam forças para construir uma alternativa política própria, com independência de classe e defesa de um projeto socialista. A auto-organização dos trabalhadores deve colocar a luta contra o autoritarismo de Trump na perspectiva da independência de classe, da necessária luta dos trabalhadores dos EUA contra sua própria burguesia imperialista, e não ficar a reboque de outros setores burgueses como setores do Partido Democrata.

É preciso derrotar o autoritarismo e o imperialismo de Trump

Manifestação contra o tarifaço de Trump Foto Sindmetal/SJC

O sentido de todos estes acontecimentos é um só. Trump diz: ou faça o que eu quero ou corre o risco de receber um ataque militar. Não é à toa que os líderes europeus e vários capitalistas importantes disseram que a velha ordem já morreu e agora se trata de Trump tentando impor uma nova ordem baseada na lei do mais forte.

Para eles, é o fim da ordem baseada em regras internacionais. Para nós, é evidente que as regras internacionais sempre foram as regras que favoreciam os países imperialistas. A ordem mundial imperialista vigente até então era o engodo e a exploração dos trabalhadores por vias aparentemente democráticas, mas que significa a subordinação dos países pobres aos países ricos e a exploração dos trabalhadores pelos monopólios capitalistas da burguesia.

A jornada de Trump é contra os trabalhadores dos EUA e do mundo. Para aumentar a taxa de lucro das empresas dos EUA, flertar com o autoritarismo é uma necessidade. Por isso dentro dos EUA, embora ainda não tenha correlação de forças para implementar um autoritarismo aberto, promove repressão e tensiona o regime. Tudo para aumentar o nível de exploração dos trabalhadores dos EUA. De fato, Trump parece se inspirar no segredo do crescimento chinês, que foi a brutal repressão e a ditadura que permitiram a exploração profunda dos trabalhadores chineses. Os trabalhadores devem derrotar as ações autoritárias e imperialistas de Trump dentro e fora dos EUA.

Na disputa entre setores burgueses, não existe imperialismo bonzinho ou setor capitalista menos pior. O que existe são diversas faces da dominação dos monopólios capitalistas com um setor burguês alimentando o outro. Os trabalhadores devem enfrentar o imperialismo dos EUA com independência de classe, sem ficar a reboque do imperialismo da Europa ou da China. Unidade de ação contra as ações agressivas de Trump, mas denunciando o papel nefasto que cumpre as direções do movimento que se defendem e se aliam aos setores burgueses ou mesmo ligadas aos outros imperialismos. Construir, pelo contrário, um projeto dos trabalhadores, a única coisa que pode resolver a barbárie capitalista que vem se avolumando.

Os trabalhadores devem aproveitar a disputa entre o velho imperialismo e o novo imperialismo para fortalece um projeto socialista e revolucionário que defenda soberania dos povos e direitos para os trabalhadores e enfrente os lucros dos bilionários e o crescimento da barbárie.

Em defesa da soberania

Brasil deve romper com o imperialismo dos EUA

Enquanto os EUA governado por Trump ataca o Brasil e vários países da América Latina, Lula adota a posição de buscar negociação, conciliação e capitulação diante do imperialismo. Era preciso que o governo brasileiro tivesse tomado uma medida em oposição à ação dos EUA contra a Venezuela. Romper relações seria o mínimo, mas devia ter atacado as multinacionais dos EUA instaladas aqui. Mas Lula segue na onda de que rolou uma química com Trump e promete visitar o país para seguir entregando as terras raras e outras riquezas nacionais.

Lula comemora ainda um acordo com o imperialismo europeu que vai privilegiar a indústria europeia, fortalecendo assim a dominação dos europeus sobre a economia do Brasil. Assim como segue apoiando a expansão do capital imperialista chinês, já entregando parte do parque elétrico e dando benesses para a BYD.

Em vez de enfrentar o imperialismo e apoiar ativamente as lutas dos povos oprimidos, busca acomodação, acordos diplomáticos e estabilidade para os negócios. Essa política não protege a soberania nacional, muito menos os interesses dos trabalhadores. Apenas desarma o país para conflitos inevitáveis e leva o país a aprofundar ainda mais sua subordinação aos diferentes imperialismos que buscam recolonizar ainda mais a América Latina.

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