Por trás dos números, a vida do povo não está melhorando
O governo diz que tudo vai bem, o Brasil está tecnicamente no pleno emprego, a renda média é recorde e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil vai aliviar parte do peso dos impostos sobre a classe trabalhadora. Isso pelo menos é o que dá a entender a divulgação dos últimos números oficiais. Mas é isso que você vê nas ruas ou sente quando vai ao supermercado?
Alguém poderia dizer que não podemos analisar a realidade a partir da nossa percepção, certo? Vamos então às últimas pesquisas. Levantamento Meio/Ideia mostra que a maioria das pessoas, 51%, nutre um desejo por mudança. Ao mesmo tempo, mesmo nesse cenário, a avaliação negativa do governo Lula supera em quase cinco pontos a positiva. Se estivesse tudo bem, por que o governo não é bem avaliado e as pessoas desejam mudar?
País da desigualdade
Se olharmos para os números com mais cuidado, podemos entender a razão. O que é anunciado como a “renda média recorde” são R$ 3.613. Mas esse número é uma pegadinha, pois, além de já ser um valor rebaixado, não é todo mundo que recebe isso. Na verdade, segundo o último Censo, mais de 70% dos trabalhadores recebem o equivalente a dois salários mínimos, que hoje está em R$ 1.621. Essa média é puxada para cima por conta da enorme desigualdade que não só não vem se reduzindo, como se aprofunda cada vez mais.
O salário médio de admissão hoje no país, por exemplo, é de R$ 2.304 segundo dados do Ministério do Trabalho. Nos hipermercados, setor que mais emprega hoje no Brasil, é de R$ 1.932. Esses valores estão bem abaixo do salário mínimo calculado pelo Dieese (valor necessário para cumprir sua função constitucional de garantir saúde, lazer etc.), de R$ 7,1 mil.
Isso acontece num momento em que o grande empresariado reclama de falta de mão de obra e afirma que as pessoas “não estão contentes com o salário”. Na verdade, não é só o empresariado que vê a atual condição do mercado de trabalho como um problema. O Banco Central, em sua última reunião, decidiu manter as taxas de juros em 15%, uma das maiores do mundo. Qual foi uma das justificativas? A pressão do mercado de trabalho. Ou seja, uma tímida melhora no desemprego, mesmo com as pessoas recebendo salários mais do que rebaixados, é vista como um problema (ou “desafio”) pelo banco responsável pela política econômica do governo.
Veja a loucura da situação: o Banco Central, comandado por indicados do governo Lula, impõe uma política para, de forma deliberada, manter certo nível de desemprego e salários baixos com a desculpa de combater a inflação. E o que provoca os juros altos? De um lado, enchem os bolsos dos grandes banqueiros que investem na dívida pública, eleva a dívida, o que, na outra ponta, faz com que Haddad, em conluio com Lula, imponha uma política de arcabouço fiscal, um teto de gastos que, na prática, tira dinheiro da saúde, da educação e do próprio salário mínimo para arcar com o pagamento dos juros da dívida.
É essa situação que permite também, por exemplo, que o Itaú bata o recorde de lucro de um banco no Brasil em toda a história: R$ 46,8 bilhões em 2025. Isso dá inimagináveis R$ 128 milhões por dia.
Recentemente, o professor da PUC-SP Ladislau Dowbor calculou que um bilionário, com essa taxa de juros, ganha R$ 400 mil por dia sem fazer absolutamente nada. Um valor que um trabalhador que tenha a sorte hoje de receber a tal renda média de R$ 3.613 demoraria quase oito anos para juntar com a mesma taxa de juros e poupando todo o seu salário sem gastar com mais nada. Perceba a diferença: um dia para oito anos.
Não é difícil, portanto, entender a razão de tanto descontentamento. Os salários baixos empurram os trabalhadores para a informalidade e para trabalhos por aplicativos, o que também ajuda a mascarar o índice real do desemprego. Por outro lado, o governo mantém uma política econômica que aprofunda a desigualdade e ataca direitos sociais e serviços públicos para continuar enriquecendo banqueiros. A percepção é que se trabalha muito, ganha-se muito pouco, e a vida não melhora.
Discurso e prática
O governo Lula, munido de pesquisas internas qualitativas, vem traçando sua estratégia para a reeleição: um discurso antissistema, contra os bilionários e em defesa dos mais pobres. Mas é justamente o contrário do que vem fazendo. Está comprometido com o cumprimento do arcabouço fiscal e das metas de déficit zero para agradar o mercado. Para isso, tenta contar com a cumplicidade do Centrão no Congresso Nacional em troca de emendas bilionárias.
O projeto do governo é continuar administrando o capitalismo para os grandes monopólios e, dentro disso, fazer concessões aos trabalhadores sem atacar nenhum interesse da burguesia. A questão é que a margem para isso é quase nenhuma.
A isenção do Imposto de Renda é uma medida insuficiente. Não altera uma das estruturas tributárias mais injustas do mundo, que joga o peso dos impostos nas costas da classe trabalhadora ao tributar essencialmente o consumo. Caso a tabela fosse realmente atualizada, só pagaria imposto quem recebe mais de R$ 6,6 mil, e a alíquota máxima de 27,5% recairia sobre quem recebe mais de R$ 12.374. Ao mesmo tempo, taxar 10% dos dividendos acima de R$ 50 mil é muito pouco, e as empresas estão burlando isso de várias maneiras. E o governo não fez nada para impedir isso. É preciso sobretaxar os lucros das 250 maiores empresas e proibir a remessa de lucro pro exterior.
Entrega do país
O governo Lula continua sem enfrentar os grandes monopólios e capitalistas. Ao contrário, administra o capitalismo num cenário em que o Brasil segue num processo de desindustrialização e reprimarização; em que vai se rebaixando cada vez mais na Divisão Internacional do Trabalho. Isso significa que, em nível mundial, o país segue se rebaixando às séries C e D, ficando cada vez mais subordinado e dependente das grandes potências. O reflexo disso é a desnacionalização e o aumento do grau de exploração, com empregos cada vez mais precários.
O recente acordo que o Brasil encabeçou entre Mercosul e União Europeia expressa a completa ausência de um projeto nacional de desenvolvimento. Aponta o oposto: um projeto de longo prazo de aprofundamento da subordinação, com o Brasil sendo exportador de produtos primários de baixo valor e dependente de produtos industrializados.
Já o acordo com o governo Trump, longe de ser um movimento de enfrentamento e afirmação de nossa soberania, colocou na mesa as cobiçadas terras raras em troca da redução das tarifas para a nossa carne, soja e café.
O governo Lula, ao mesmo tempo em que defende nas palavras a soberania e a independência do Brasil, entrega o país aos imperialismos estadunidense, europeu e chinês. Quem pagar mais leva. Ou, como prefere o governo, se combinar direitinho, cada potência imperialista pode pegar um pedaço.
Ultradireita não está morta
Nesse cenário, a extrema direita, que hoje briga pelo espólio do bolsonarismo, aparece em crise, mas longe de estar morta. Isso, convenhamos, não porque são muito espertos, mas porque as próprias condições estruturais do país – econômicas, sociais e políticas – aparecem como um terreno fértil para seu discurso populista de ultradireita.
Dizem que o problema do país é a corrupção, sendo que são os mais corruptos (vide o caso do Banco Master). Afirmam que o problema é o crime organizado, sendo que estão atolados até o pescoço nos esquemas financeiros do PCC ou tantos outros, como o governo Tarcísio, em São Paulo, ou Cláudio Castro no Rio. E bradam a favor da meritocracia e do empreendedorismo, sendo que são os que mais mamam nas tetas do Estado.
Apesar de todas essas contradições, esse discurso encontra eco numa população, inclusive entre a classe trabalhadora, que se sente desesperançada, não vê a vida melhorar e sofre diariamente com o avanço da barbárie social.
É um setor que também se coloca como administrador do capitalismo, a favor dos bilionários e do imperialismo, mas de forma mais descarada, autoritária e violenta.
Por uma alternativa realmente antissistema
A maior parte da esquerda, a esquerda da ordem, usa o argumento de sempre para defender o governo Lula: não há correlação de forças para enfrentar a burguesia e a extrema direita. São trinta anos com o mesmo discurso, enquanto o país vai para o brejo. Isso apesar de o próprio presidente Lula ter agradecido ao Centrão e ao Congresso, que “aprovou tudo o que queríamos aprovar” segundo suas próprias palavras.
Enquanto não construirmos uma alternativa realmente antissistema, com uma perspectiva revolucionária e socialista, não conseguiremos romper com esse círculo vicioso, a desigualdade continuará se aprofundando, e o país, se subordinando cada vez mais aos imperialismos. A classe trabalhadora continuará refém de alternativas que se propõem a administrar o capitalismo, mas que, ao fim e ao cabo, inevitavelmente cairão na desmoralização ao não atenderem às necessidades da grande maioria do povo.