Terceirizados da Conquista na Uerj enfrentam atraso nos salários e recebem apoio de técnicos-administrativos
Trabalhadores denunciam calotes, assédio e precarização, enquanto assembleia da categoria técnico-administrativa, em solidariedade, aprova apoio integral aos terceirizados; reitoria afirma ter repassado pagamento à empresa apenas agora, em meio à crise
A situação dos trabalhadores terceirizados contratados pela empresa Conquista para atuar na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) expõe mais um capítulo da precarização do trabalho no serviço público. Com salários atrasados por quase um mês pelo segundo mês consecutivo, sem explicações convincentes e sob relatos de assédio moral para manutenção das atividades, os terceirizados vêm enfrentando condições cada vez mais duras dentro de uma instituição pública que depende diretamente de sua força de trabalho cotidiana.
Assembleia dos técnicos aprova apoio integral aos terceirizados
Em assembleia realizada no dia 28 de janeiro, os servidores técnico-administrativos da Uerj aprovaram apoio total à luta dos trabalhadores terceirizados, reconhecendo que essa categoria é parte essencial do funcionamento diário da universidade, embora permaneça submetida à instabilidade, insegurança e negação de direitos básicos.
O atual estado de greve dos técnicos-administrativos, também aprovado em assembleia, inclui, dentre suas pautas, a defesa dos terceirizados. A decisão política expressa solidariedade diante da violência representada pelo atraso salarial e denuncia uma precarização que se arrasta há décadas, agravada pela ausência de medidas estruturais por parte das sucessivas administrações universitárias.
Mais de mil trabalhadores atingidos por atrasos e assédio
O problema atinge mais de mil trabalhadores contratados por meio da Conquista, que enfrentam sucessivos atrasos salariais sem justificativa apresentada pela empresa. Além da falta de pagamento, há denúncias de pressões e constrangimentos para que continuem trabalhando normalmente, mesmo sem receber.
Para os servidores que aprovaram a moção de apoio, trata-se de uma situação inaceitável dentro de uma universidade pública comprometida, ao menos formalmente, com a produção de conhecimento, a justiça social e os direitos humanos.
Reitoria afirma ter pago empresa apenas agora
Em atualização ocorrida nesta sexta-feira (6), a reitoria, comandada por Gulnar Azevedo e Bruno Deusdará, informou que realizou o repasse de recursos à empresa Conquista. A declaração, porém, contradiz posicionamentos anteriores divulgados ainda em dezembro e ocorre somente após semanas de atraso salarial e mobilização dos trabalhadores.
Até então, a própria empresa havia divulgado informações desencontradas sobre prazos de pagamento, chegando a anunciar uma data que depois classificou como “fake news”, sem apresentar solução concreta para os funcionários prejudicados.
Histórico de violações trabalhistas e processos judiciais
A Conquista já acumula processos trabalhistas, denúncias de violações de direitos e suspeitas de irregularidades, além de alegar bloqueios de contas decorrentes de condenações judiciais. Trabalhadores relatam práticas de pressão para pedidos de demissão e reiterados descumprimentos de obrigações legais.
Diante desse cenário, cresce a cobrança de responsabilização do poder público contratante. Pela Lei 14.133/2021, a administração pode responder subsidiariamente pelos encargos trabalhistas quando há falha de fiscalização do contrato.
Invisibilidade institucional e críticas ao PDI da universidade
Os técnicos-administrativos também denunciaram que o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) da Uerj, que definirá diretrizes para os próximos anos, não menciona os trabalhadores terceirizados. A ausência é vista como sinal de institucionalização da invisibilidade e da precarização desse segmento fundamental para os serviços da universidade.
Terceirização como projeto de precarização
A crise vivida na Uerj não é isolada. O avanço da terceirização no setor público integra um processo mais amplo em que o Estado direciona recursos ao capital privado enquanto reduz investimentos diretos em serviços e trabalhadores.
Nesse modelo, a substituição de concursos por contratos terceirizados aprofunda a instabilidade, a perda de direitos e a fragmentação das categorias, configurando uma forma de privatização indireta do serviço público.
Luta por salários, direitos e universidade pública
A mobilização em solidariedade aos terceirizados retoma experiências anteriores de atraso salarial vividas por outras categorias e reforça a defesa do pagamento imediato dos salários, do respeito aos direitos trabalhistas e de condições dignas de trabalho.
Para os trabalhadores organizados, a luta contra os calotes da Conquista ultrapassa um conflito pontual e se conecta à defesa de uma universidade verdadeiramente pública, democrática e comprometida com quem a mantém funcionando diariamente.