Guilherme Boulos contra Nego Bispo
“Um homem nu que tenta nadar num rio gelado é um louco.
Mas se esse rio estiver infestado de crocodilos, então o homem
nu é um herói. Na Rússia, o homem nu nas ruas é um problema
político, porque o frio e a polícia o tornam um problema.
É impossível abstrair-se das condições materiais e políticas.”
(Leon Trotsky, ‘A Revolução Permanente’)
Qualquer racialista de plantão, se não for da base de apoio do governo Lula, estaria afirmando que Guilherme Boulos (PSOL), ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, mentiu para os povos indígenas do Tapajós porque ele é um branco, citadino e, portanto, um colonialista estrutural. Mas, é Boulos, né? Fica mais fácil passar o pano e silenciar.
Por isso mesmo, citei no texto anterior sobre Nego Bispo (leia aqui) que essa romantização dos territórios afro-indígenas é também uma forma de silenciamento. O pau tá torando no Pará, enquanto os teclados dos computadores tão ativos na polêmica sobre o Nego Bispo resolveram descansar em berço esplêndido.
Boulos mentiu para os povos do Tapajós não pelo fato de ser branco, citadino e colonialista. Militei por vários anos na Frente de Movimentos Populares com Guilherme Boulos. Ele pelo MTST e eu pelo Movimento Hip Hop Quilombo Urbano. Chegamos a fazer várias ações, como ocupar o Ministério das Cidades e organizamos a campanha contra os Despejos Forçados durante governo Dilma (PT) em razão das obras da Copa do Mundo de Futebol e da Olimpíadas, além de tantas outras lutas.
Esse Boulos não é o mesmo de antes, ainda que aquele nunca tenha sido um defensor ferrenho da revolução brasileira, mas era um dirigente respeitado. Ou seja, Boulos mentiu porque se adaptou ao Estado burguês e decadente do capitalismo brasileiro e não em razão de sua origem.
Boulos mentiu durante a COP 30 respaldado por Sônia Guajajara (também do PSOL e ministra dos Povos Originários) e Marina Silva (ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima), duas mulheres não-brancas com militâncias históricas entre os chamados povos da floresta. E suas raízes não as impediram de mudar de lado. O ponto de convergência entre os três, um homem branco citadino, um mulher negra e outra indígena, ambas da floresta, foi a defesa do programa burguês que o governo Lula defende e implementa com toda força. Ou melhor, esse é também o ponto de convergência entre a esquerda capitalista e a extrema direita, todos contra os povos do Tapajós.
Daí, entende-se, sem rodeios, porque o marxismo precisa ser tão atacado moralmente. Trata-se de uma ferramenta teórica e política que ajuda a explicar a posição desses três ministros que vieram das lutas populares, ajuda a explicar o caráter burguês do governo Lula, o conteúdo de classe do ataque aos povos do Tapajós e o silêncio ensurdecedor dos intelectuais que se abrigam no guarda chuva desse governo.
Retire o Estado, a exploração e os interesses de classe das análises sobre os ataques do governo Lula aos povos do Tapajós que a explicação ficará tão despida quanto o homem citado por Trotsky. Se para esses intelectuais esses conceitos perderam sentido, para os povos do Tapajós, não, assim como o frio e a policia não deixaram de existir para o homem nu que tirou ambos da sua subjetividade. Por trás de todo debate teórico, por mais abstrato que possa parecer, existe uma estratégia política.
Em defesa do marxismo
Repito: nenhum intelectual é obrigado a ser marxista e nem muito menos o marxismo tem que ser colocado numa redoma de vidro vigiado por militantes infalíveis. Pelo contrário, os marxistas revolucionários são os mais propensos a errarem, justamente porque analisam e agem sobre a realidade, e ela está permanentemente em mudanças. Ajustar a alça da mira em direção a um alvo sempre sujeito a mudanças não é tarefa fácil.
Já para quem idealiza a realidade ou parte dela como imutável, descartando os elementos históricos, suas contradições, em fim, seu elementos centrais, a análise fica muito mais cômoda e confortável.
A tentativa de reduzir o marxismo a uma caricatura economicista e eurocêntrica, como vimos ao longo da polêmica sobre Nego Bispo, para contrapor radicalmente essa teoria ao modo de vida dos povos originários e quilombolas, se esfarela em casos como o da grande mentira aos povos tapajós.
Pode-se abstrair o Estado, os interesses de classes, a exploração, a opressão, como conceitos para analisar esse escândalo, que os mesmos não sairão de lá. Eles simplesmente existem!
Boulos mentiu representando o Estado brasileiro, ferramenta política a serviço da sua burguesia. Boulos mentiu em nome do agronegócio e os empresários da agroindústria brasileira têm pertencimento de classe, a burguesia.
Boulos mentiu para que esse setor da burguesia explore e destrua o Tapajós, mesmo sem licença ambiental. Nesse caso, a religião, a tradição, a cultura e tudo mais que Nego Bispo valorizava nesses povos entraram em ação para fazer o governo Lula recuar, ainda que parcialmente.
E o marxismo nunca se opôs ou menosprezou esses elementos. Não à toa, Engels considerou os cristãos primitivos como os primeiros socialistas, algo reforçado por Rosa Luxemburgo em texto ‘O Socialismo e as Igrejas’. Marx demonstrava toda simpatia ao movimento religioso revolucionário dirigido pelo alemão Thomas Muntzer. Os marxistas brasileiros estão entre os primeiros a identificar o papel revolucionário que as religiões de matriz africana cumpriram durante a escravidão e mesmo depois da abolição. O que os marxistas nunca fizeram foi absolutizar a cultura em detrimento da luta de classes.
Menosprezar temas como Estado, revolução, classes sociais, partidos dentro da esquerda e da tradição marxista tem a ver com a ascensão do estalinismo e migração dessa tradição do interior do movimento operário para o interior das academias. À época, não se tratava apenas de uma opção metodológica, mas de preservação da vida. Hoje, trata-se de preservar a cara do governo.
Um grande mérito de Marx, e tão brilhantemente desenvolvido por Clóvis Moura em sua obra ‘As injustiças de Clio’, foi arrancar os intelectuais do seu confortável mundo da imparcialidade política. E, talvez, esteja aí um dos grandes méritos dos intelectuais da extrema direita brasileira, o de não se esconderem atrás das cátedras e do currículo lattes, pelo menos a grande maioria deles.
Na esquerda e até mesmo no “marxismo” isso se tornou mais comum, principalmente quando se trata de intelectuais que apoiam ou fazem parte de partidos que estão no governo Lula, como é o caso do PT, PSOL e do PCdoB, porém não dizem de que lugar politico falam. As cátedras não têm o poder de blindar nenhum intelectual de suas localizações politicas orgânicas.
A maioria dos intelectuais que surfaram na polêmica sobre Nego Bispo para dizer que o marxismo é reducionista estão na base de apoio da Frente Ampla, alguns militam diretamente nesses partidos que deixaram de ser marxistas já faz bastante tempo.
Construir um projeto de classe e socialista
Infelizmente, o capitalismo não oferecerá alternativas para nossa classe no próximo período, a não ser juntar geral para superá-lo. O bambu vai gemer, independente das nossas vontades. Para a maioria da nossa classe já tá gemendo faz tempo. Esqueçam todas as demais tragédias e foquem apenas na ambiental e depois perguntem às baratas se desta vez elas sobreviverão?
Se meter a administrar o Estado burguês e tentar curar algumas das feridas abertas por esse capitalismo decadente é uma mentira mais graúda e mais grave do que as ditas por Boulos aos povos do Tapajós, chega a ser uma utopia reacionária. Se a esquerda não tem projeto para a classe trabalhadora, a não ser administrar o capitalismo, como se tivesse administrando um cadáver ambulante, a ultradireita pretende acelerar esse processo em direção ao penhasco. A classe trabalhadora e os povos oprimidos não podem ficar espremidos entre esses dois campos burgueses, mesmo que o da extrema direita seja o mais miseravão.
Precisamos debater, urgentemente, um projeto político vivo, revolucionário, calcado na realidade, que congregue o ódio dos trabalhadores de aplicativos, passando pela resistência dos povos do campo, pela persistência dos oprimidos (negros, mulheres, LGBT) e pela posição estratégica que a classe operária ocupa no coração do capitalismo, para dizer, não, daqui vocês não passarão!
E neste sentido, o marxismo é mais do que necessário, no que pese a grande indigência teórica dos marxistas brasileiros que também precisa ser superada.