De Porto Rico ao Super Bowl, Bad Bunny desafia Trump
Não se fala em outra coisa, Bad Bunny incendiou o Super Bowl com um show carregado de referências, provocações e latinidade, uma apresentação que bateu recordes de audiência e atravessou fronteiras.
Mas o impacto desse show vai muito além da música e da estética. Em um momento em que Donald Trump impulsiona uma agenda cada vez mais anti-imigração, baseada na xenofobia, no racismo e na criminalização de imigrantes, o show ultrapassou o próprio espetáculo musical. Não à toa, Trump sentiu o golpe.
Celebrar a cultura latina no palco mais assistido do planeta
A performance durou cerca de 13 minutos e foi realizada quase inteiramente em espanhol. Construída como uma narrativa, apresentou cenas do cotidiano latino, estética caribenha, coreografias populares, referências à crise energética em Porto Rico, à migração e à vida nas periferias. Foram ao Super Bowl imagens que raramente ocupam esse espaço e que Trump insiste em ridicularizar e menosprezar, vendedores de rua, casas simples, festas comunitárias.
No encerramento, cercado por bandeiras de diversos países do continente, Bad Bunny definiu de forma explícita o sentido de “América”. A mensagem “Somos todos América”, gravada na bola exibida para a câmera, reforçou a ideia de um território continental, formado por múltiplos povos, histórias e nações. Foi uma resposta direta à visão nacionalista promovida por Donald Trump, que busca reeditar a lógica da Doutrina Monroe, tratando a América Latina como quintal dos Estados Unidos.
Ao incluir visualmente toda a América Latina naquele palco, Bad Bunny afirmou um pertencimento coletivo: os povos latino-americanos não são presenças acidentais dentro dos Estados Unidos, mas parte constitutiva de sua formação histórica, de sua economia e de sua vida social e, também, vítimas diretas do imperialismo estadunidense. Isso fica evidente na própria condição colonial de Porto Rico, um território sob domínio dos Estados Unidos, cujos habitantes não votam para presidente, mas sofrem diretamente as consequências das decisões tomadas em Washington. Não por acaso, o show trouxe referências explícitas à luta pela independência porto-riquenha, como o uso da bandeira independentista com azul-claro, um símbolo histórico de resistência à dominação colonial.
Ao show também cabe uma crítica à presença de Lady Gaga, não por cantar em inglês, o que foi uma inversão de papéis na representatividade, mas pelo histórico da artista de apoio ao Estado de Israel. O contraste ficou ainda mais evidente diante do fato de que as músicas de Bad Bunny vêm sendo amplamente apropriadas por jovens em Gaza, onde a música DtMF (“Eu deveria ter tirado mais fotos”) passou a acompanhar vídeos nas redes sociais que mostram locais hoje reduzidos a escombros, fruto do genocídio perpetrado pelo Estado de Israel.
Da experiência colonial à politização
Os conteúdos políticos de Bad Bunny, nome artístico de Benito Martínez Ocasio, não começaram no Super Bowl. Há anos, o artista vem usando sua visibilidade global para denunciar o colonialismo em Porto Rico, a gentrificação, a deterioração da vida do povo e a violência institucional contra imigrantes.
A politização de Benito também nasce das contradições da sua própria realidade. Pouco depois do Furacão Maria, que devastou Porto Rico em 2017 e deixou a ilha meses sem energia elétrica, água potável e serviços básicos, veio a visita amplamente criticada de Donald Trump, marcada pelo episódio em que lançou rolos de papel-toalha à população atingida. Foi nesse contexto que Bad Bunny apareceu em um show beneficente vestindo uma camiseta com a frase “¿Tú eres tuitero o eres presidente?” (“Você é um twiteiro ou presidente?”).
Dois anos depois, Porto Rico viveu os maiores protestos de sua história recente, com centenas de milhares de pessoas nas ruas exigindo a renúncia do governador Ricardo Rosselló após a divulgação de mensagens misóginas, homofóbicas e corruptas. As manifestações duraram semanas, enfrentaram repressão policial e só recuaram depois que o governador foi obrigado a deixar o cargo. Naquele momento, vários artistas tiveram papel ativo nas ruas, entre eles Ricky Martin, Benicio del Toro, Residente do Calle 13 e Bad Bunny.
Esse episódio ajuda a entender por que suas músicas e performances dialogam tão diretamente com a realidade do povo porto-riquenho. A crítica à corrupção, ao abandono estatal e à privatização dos serviços públicos não vem de fora, nasce da experiência coletiva marcada pela condição colonial imposta pelos Estados Unidos.
Música com lado
Em 2022, Bad Bunny lançou El Apagón, faixa do álbum Un Verano Sin Ti. A música denuncia o abandono de Porto Rico após o furacão Maria, da privatização do sistema público de energia, responsável por apagões constantes, e do avanço da especulação imobiliária que expulsa moradores para abrir espaço ao turismo de luxo e a investidores estrangeiros. O lançamento da faixa veio acompanhado de um curta-documentário intitulado El apagón – Aquí vive gente.
Mais recentemente, com Lo Que Le Pasó a Hawaii, Bad Bunny traça um paralelo entre a transformação do Havaí em colônia turística dos Estados Unidos e o processo em curso em Porto Rico. A música faz referência direta à expansão de investimentos imobiliários estrangeiros, ao aumento acelerado do custo de vida e à transformação de bairros populares em zonas voltadas ao turismo e à especulação, fenômenos que têm provocado o deslocamento de moradores históricos da ilha. Como aparece no trecho “Quieren quitarme el río y también la playa. Quieren al barrio mío y que abuelita se vaya” (“Querem tirar de mim o rio e também a praia. Querem meu bairro e que a vovó vá embora.”
O mais recente posicionamento político foi ao receber no Grammy Awards de 2026 o prêmio de Melhor Álbum de Música Urbana por DeBÍ TiRAR MáS FOToS. Em meio ao acirramento da perseguição aos imigrantes e de fortes conflitos em Minneapolis, Bad Bunny, usou o momento para criticar publicamente a atuação da agência de imigração dos Estados Unidos, o ICE. Durante seu discurso, declarou “ICE out” (“fora, ICE”), e afirmou que migrantes “não somos selvagens, não somos animais, somos seres humanos”.
Fica evidente que Bad Bunny fez uma escolha consciente pelo posicionamento público, em contraste com o silêncio conivente de grande parte dos artistas midiáticos diante do avanço de políticas racistas e anti-imigração. Isso não o transforma, nem pretende transformá-lo, em dirigente político. Trata-se, antes, de alguém que decide usar a visibilidade que conquistou para amplificar pautas concretas e urgentes: a defesa dos imigrantes e a denúncia do imperialismo estadunidense.
Bad Bunny é, evidentemente, produto da indústria cultural, lucra, e muito, com esse lugar, assim como a NFL se beneficia ao ampliar seu alcance para além do público tradicional. É justamente a partir dessa posição contraditória, e enraizado em sua própria experiência, que ele opta por afirmar sua latinidade e se posicionar politicamente. A mensagem foi transmitida com nitidez, alcançou milhões e tocou em um nervo sensível do projeto político de Donald Trump, algo evidenciado pela reação imediata e furiosa que se seguiu.
Trump sentiu
A reação de Donald Trump foi imediata e contundente. Logo após a apresentação, como bom twiteiro, publicou em suas redes sociais que o show foi “absolutamente terrível” e “insulto à grandeza da América”, afirmando que “ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo” e que a performance “não representa nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência”. Chegou a sugerir que a escolha do artista foi “ridícula” e criticou a NFL e a imprensa que elogiavam o show, insistindo que o espetáculo “vai receber críticas excelentes dos meios falsos” enquanto ele, em sua visão, feria os valores culturais estadunidenses.
Trump não apenas rejeitou o conteúdo e a forma do show, mas também boicotou pessoalmente o evento, optando por não comparecer ao jogo no Levi’s Stadium, uma quebra de tradição que muitos interpretaram como sinal de seu descontentamento com a escolha de Bad Bunny como atração principal.
Além disso, a reação conservadora se estendeu para além de Trump. Grupos ligados à extrema direita organizaram um “All-American Halftime Show” (Show de intervalo 100% Americano), apresentando artistas de perfil mais tradicional, em tentativa de contrapor ao espetáculo principal e reafirmar uma narrativa de identidade nacional distinta da celebrada por Bad Bunny.
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Música, luta de classes e o recado ao trumpismo
É inegável, o show de Bad Bunny no Super Bowl foi mais do que um acontecimento cultural, foi também um fato político. Além de ampliar os limites da representatividade em um dos eventos mais assistidos do planeta, a apresentação mandou um recado direto à agenda anti-imigração e imperialista de Donald Trump e de seus aliados. O show também aprofunda contradições internas. A reação agressiva de Trump, marcada pelo desprezo às contribuições da comunidade latina, se choca diretamente com milhões de imigrantes e descendentes de imigrantes.
A ofensiva trumpista não se limita à xenofobia. Tem como objetivo ampliar os lucros dos grandes monopólios e para isso atacar direitos, dividir a classe trabalhadora e intensificar a exploração da força de trabalho. Deportações em massa, criminalização da imigração e ataques a programas de proteção social não são medidas isoladas, fazem parte de um projeto que atinge simultaneamente trabalhadores nativos e migrantes.
Nesse cenário, a apresentação de Bad Bunny ajuda a desmontar a narrativa que tenta colocar uns contra os outros. Ao afirmar a presença latina, ele lembra algo elementar, imigrantes não são um “problema”, mas parte estrutural da economia e da vida social dos Estados Unidos. A representatividade não é apenas simbólica, ela se conecta à luta por reconhecimento, dignidade e direitos, num momento em que o Estado trata imigrantes como criminosos.
Com certeza, contra a política de Trump e contra o ódio que ele incentiva contra os imigrantes, música ou só amor não será suficiente, apesar do que afirma Benito de que “a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”. Por isso, nada disso substitui organização nem mobilização. Um show não derruba governos, mas pode abrir fissuras na consciência, romper silêncios e expor contradições. E foi exatamente isso que aconteceu, a reação furiosa de Trump, o boicote ao evento e a mobilização da extrema direita em resposta ao espetáculo mostram que a mensagem atingiu em cheio o trumpismo.
Em tempos de muros, deportações e repressão, um artista latino dizendo “seguimos aqui” para centenas de milhões de pessoas tem peso. É um gesto contraditório, inserido na lógica do mercado, mas real, e produto das próprias contradições que o imperialismo gera. Cabe agora transformar em força social concreta, conectando com a luta organizada contra o racismo, o imperialismo e a exploração capitalista.