Internacional

O caso Epstein e o submundo da elite capitalista mundial

Diego Cruz

13 de fevereiro de 2026
star5 (5) visibility 17

O escândalo envolvendo o financista e criminoso sexual Jeffrey Epstein revela o que talvez seja o maior caso de tráfico humano, exploração de mulheres e pedofilia da história. A forma como o governo Trump e a mídia tratam o caso, porém, mais que ajudar a entender a relação entre Epstein e o topo da pirâmide financeira global, joga confusão e, mais que isso, reafirma a impunidade de um conjunto seleto de bilionários e aristocratas que se colocam acima da lei ou de qualquer noção de justiça ou moral. Dos Estados Unidos ou de qualquer outro país ou sociedade.

A mais recente leva de documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA é composta por milhões de arquivos, entre e-mails, vídeos, fotos e documentos. O primeiro problema é que não há distinção nenhuma entre o que é válido ou pertinente ao caso e o que são arquivos sem nenhuma importância. Assim, milhares de horas de vídeos das inúmeras câmeras de segurança das propriedades de Epstein foram disponibilizadas junto com trocas de e-mail realmente comprometedoras. Justamente para dificultar ao máximo qualquer apuração séria.

Como se isso não bastasse, fotos das vítimas foram expostas, enquanto inúmeros nomes e imagens foram seletivamente censuradas. Outro estratagema do governo estadunidense foi divulgar e, junto a setores da imprensa e influencers de extrema direita, destacar conteúdos que se ligam a velhas teorias da conspiração, como supostos rituais satânicos com o sacrifício de bebês. Outro foi juntar nomes mencionados de forma aleatória em trocas de e-mail com outros realmente envolvidos nessa rede criminosa. O objetivo é evidente: desmoralizar o que seriam de fato provas e reduzir a repercussão do caso numa série interminável de fofocas.

Para entender como chegamos até aqui, é preciso saber quem foi Jeffrey Epstein, como se tornou um dos homens mais ricos e influentes do mundo e sua relação com Trump e a elite financeira, e até intelectual, do mundo.

Epstein: Uma peça da engrenagem do sistema

Epstein construiu sua fortuna no mercado financeiro, onde passou a atuar ainda nos anos 1970 e, com sua própria empresa a partir de 1982, construiu e consolidou uma poderosa rede de contatos. Esta se estendia tanto entre investidores e grandes bancos e empresários, como o próprio Trump, quanto entre celebridades de fora do mundo do capital financeiro. Junto com sua então companheira, Ghislaine Maxwell, arquitetou uma rede de aliciamento de mulheres e adolescentes para exploração sexual.

As investigações que levaram o então financista à prisão dão conta de que a rede atuou principalmente entre 2002 e 2005. As mulheres, adolescentes e até crianças, serviam a festas em suas mansões em Nova York, na Flórida, no Novo México e principalmente em sua ilha particular, conhecida como Little Saint James, localizada nas Ilhas Virgens americanas, no Caribe. As festas que funcionavam como um networking entre bilionários, em que a troca de favores aumentava cada vez mais o poder de Epstein. A profusão de câmeras em suas propriedades e a obsessão por registrar cada detalhe do que ocorria ali sugere também que o financista mantinha um poderoso arsenal de chantagens, com informações que serviriam como valiosa moeda de troca em seu favor.

O império erguido por Epstein começou a ruir quando, ainda em 2005, enfrentou uma denúncia de abuso sexual contra uma garota de 14 anos. O caso abriu o caminho para outras dezenas de denúncias e a revelação do esquema de aliciamento e tráfico humano gerido por Maxwell. Condenado em 2008 por exploração sexual e facilitação à exploração de menores, Epstein fechou um acordo com a Justiça em troca de apenas treze meses de prisão. Mas em 2019 esse acordo foi considerado inválido, e o financista foi obrigado a cumprir pena numa prisão em Nova York.

Um mês depois, Epstein foi encontrado morto em sua cela no que a justiça dos EUA divulgou prontamente como suicídio. No entanto, as circunstâncias abrem margem para especulações de que Epstein teria sido “desvivido”: um mês antes foi registrada uma tentativa de suicídio do magnata, mas ele negou e afirmou ter sido vítima de tentativa de homicídio por seu então colega de cela, um ex-policial. Em consulta a um psicólogo no dia seguinte à suposta tentativa de suicídio, declarou que não tinha interesse em tirar a própria vida e que isso “seria uma maluquice”. Segundo relatório do próprio FBI, o colega de cela de Epstein foi liberado um dia após a sua morte, e, no dia do ocorrido, as rondas de verificação que os carcereiros deveriam efetuar a cada meia hora não foram realizadas entre as 3h e 5h.

A morte suspeita de Epstein, uma série de coações a vítimas e testemunhas e o sigilo das investigações alimentaram uma onda de teorias conspiratórias, ironicamente associadas a movimentos de extrema direita, como o QAnon. Esse movimento denuncia a existência de uma elite globalista, envolvida em tráfico humano e pedofilia, que estaria por trás dos governos, da mídia e dos próprios bancos.

Grupos supremacistas e de extrema direita sempre apoiaram Trump, denunciando os Democratas ou a esquerda em geral como adeptos dos tais globalistas. Aliás, o tema da pedofilia sempre foi explorado de forma hipócrita e eleitoreira pela extrema direita, não só nos EUA. O filme Som da Liberdade, por exemplo, foi produzido e financiado por grupos conservadores para retratar a história de um justiceiro estadunidense em sua heroica perseguição a líderes de uma rede de tráfico de crianças. Na realidade, porém, os verdadeiros vilões não são latino-americanos, mas bilionários e até aristocratas de países imperialistas.

Trump, com sua hipocrisia de costume, apoiou-se nesses grupos e teorias conspiratórias, defendendo, caso reeleito, divulgar a Lista Epstein. Uma vez reconduzido à Casa Branca, no entanto, negou a existência dessa lista. A nova postura de Trump desatou uma enorme crise no movimento MAGA (Make América Great Again) e até rachas no interior do trumpismo. A pressão forçou então a Câmara dos Representantes (o equivalente à Câmara dos Deputados nos EUA) e o Senado a aprovar uma lei obrigando a divulgação do conteúdo das investigações sobre Epstein.

Donald Trump e o financista Jeffrey Epstein

Impunidade

O que os documentos revelados agora trazem de novo? Apesar de toda a confusão deliberada, os arquivos trazem detalhes de relações com Epstein já conhecidas. Uma delas se refere justamente a Trump, que teria abusado de uma adolescente de 14 anos em Nova Jersey, numa data não especificada. Vale lembrar que o bilionário Elon Musk, quando saiu do governo Trump, lançou no X que “Trump estava na lista Epstein”. Musk, por sua vez, parece tão envolvido quanto com o financista. Numa mensagem enviada a Epstein, pergunta: “Em que dia/noite acontecem as festas mais selvagens?”.

Também era pública a proximidade de Epstein com o casal Clinton. Assim como com o ex-membro da realeza britânica, o ex-príncipe Andrew. O envolvimento do linguista e ativista Noam Chomsky mostra, por sua vez, até onde os tentáculos de Epstein alcançavam. Num e-mail de fevereiro de 2019, com Epstein a ponto de ser preso, Chomsky se solidarizou com o financista e o aconselhou sobre como se comportar diante das denúncias que enfrentava. Além disso, pagamentos de até US$ 270 mil do criminoso para Chomsky foram revelados.

Apesar do farto material mostrando como Epstein e Maxwell aliciavam mulheres pelo mundo, inclusive no Brasil, onde o magnata tentou fundar uma agência de modelos, o FBI e a Justiça estadunidense afirmam que não há elementos que provem que eles lideraram uma rede de tráfico humano e de exploração sexual infantil. O que se tem, segundo a justiça, são provas de que ambos abusaram de crianças e adolescentes. Uma maneira descarada de livrar a cara de bilionários poderosos como o próprio Trump.

Epstein não era a exceção

Diante de tudo isso, o que se tem de concreto até agora? Epstein era um homem poderoso do mercado financeiro, com uma extensa rede que incluía outros homens que concentram grande parte do PIB mundial. O escândalo e os indícios revelados até agora indicam que ele promovia festas privadas para que estes homens pudessem abusar sexualmente de crianças e adolescentes, com a certeza da mais completa impunidade.

O que é pouco, ou nada, falado na imprensa? Que Epstein, longe de ser um pedófilo pervertido que enganou a nata dos capitalistas, foi um agente funcional dos interesses desses capitalistas. Intermediava negócios, prestava serviços, inclusive para bancos e instituições do porte de um JP Morgan, e conectava banqueiros e até mesmo governos. A exploração e o abuso de mulheres e crianças eram, assim, mais do que presentes, mas uma forma de reafirmar um poder quase absoluto garantido pelo capital.

Aliás, é perversa a forma como a exploração de mulheres e crianças aparece ligada a dinheiro, poder e negociatas de maneira intrínseca. Aqui no Brasil, no primeiro governo Lula, o então ministro da Fazenda, Antônio Palocci, caiu após a revelação do escândalo da “República de Ribeirão”. Tratava-se de nada menos que uma mansão alugada numa zona nobre de Brasília, onde Palocci e representantes do governo se reuniam para fazer lobby. E para festas com garotas de programa.

Um caso ainda mais assombroso: o fundador das Casas Bahia, Samuel Klein, morreu em 2014 sem responder às acusações de décadas de abuso contra adolescentes, aliciadas pelo empresário em suas lojas. Segundo reportagem da Agência Pública, Klein se aproveitava de menores em situações vulneráveis para abusá-las em troca de dinheiro ou presentes. O caso não seria tão escondido assim, pois, segundo a reportagem, vizinhos de um dos apartamentos do empresário reclamavam da fila de meninas que se formava diante de sua porta. Seu filho, Saul Klein, respondia, na época da reportagem, a 32 casos de estupro, lesão corporal e exploração sexual.

Reflexo de um sistema doente

Dinheiro, poder e exploração sexual de mulheres e crianças são frequentemente associados no capitalismo. A opressão aqui, mais do que um crime de caráter sexual, aparece como expressão e reafirmação de status e poder. Uma transgressão que, na verdade, não se limita pelo crime em si, mas reafirma uma relação imposta e perpetrada pelo próprio capitalismo. Um sistema em que o poder é definido pelo acúmulo de capital, e a justiça, ao contrário de controlar ou estabelecer regras a todos, protege e legitima esse poder. Por um lado garantindo impunidade aos capitalistas, e por outro, reprimindo, punindo e silenciando as vítimas.

No século XVIII, um francês que ficaria conhecido como Marquês de Sade provocou escândalo com suas obras, entre elas 120 Dias de Sodoma. Na história, quatro nobres que, a fim de dar vazão a seus desejos mais pérfidos, sequestram mulheres, principalmente adolescentes, e as submetem a meses de abusos e torturas.

Sade descrevia a hipocrisia e a perversidade de uma aristocracia em um sistema decadente. O caso Epstein expõe, de forma não menos chocante, a monstruosidade de uma burguesia igualmente hipócrita num sistema doente e já podre.

WordPress Appliance - Powered by TurnKey Linux - Hosted & Maintained by PopSolutions Digtial Coop