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A rede Epstein e a podridão estrutural do capitalismo imperialista

Érika Andreassy, da Secretaria Nacional de Mulheres

13 de fevereiro de 2026
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Os arquivos que voltam a circular sobre Jeffrey Epstein não revelam nada de essencialmente novo. Mas arrancam, mais uma vez, o verniz civilizatório de uma classe dominante que se sustenta na violência — econômica, política e também sexual.

O que vem à tona não é apenas a trajetória de um bilionário envolvido em tráfico sexual de menores. É o retrato de um sistema no qual o poder econômico compra silêncio, influência, blindagem judicial e impunidade.

Epstein não era um predador solitário que conseguiu enganar o sistema. Ele era o sistema em funcionamento. Um operador a serviço de bilionários, políticos, banqueiros, magnatas da mídia e altos funcionários de Estado. Seu caso só pode ser compreendido a partir dessa inserção estrutural.

Impunidade de classe, proteção de Estado

Em 2008, Epstein firmou um acordo judicial escandaloso que lhe garantiu uma pena simbólica e proteção ampla contra futuras acusações federais. Esse acordo, costurado nos bastidores, impediu que cúmplices fossem formalmente investigados.

Quantos trabalhadores, jovens negros das periferias ou mulheres pobres têm acesso a acordos dessa natureza? Nenhum. A seletividade penal demonstra o óbvio: a justiça burguesa não é neutra — ela é um instrumento de classe.

Sua prisão, em 2019, não resultou de uma súbita indignação moral do Estado, mas da pressão pública e do desgaste político. E mesmo assim, sua morte sob custódia federal permanece cercada de contradições e mistério. Isso não é falha do sistema. É autopreservação.

Democratas, republicanos e a fraternidade da elite

O que choca não é apenas a brutalidade dos crimes, mas a normalidade com que essa barbárie circula no topo da sociedade. Republicanos e democratas, liberais “progressistas” e conservadores reacionários, financistas de Wall Street e políticos profissionais aparecem orbitando o mesmo universo social.

Interessante notar que não houve “racha moral” quando as denúncias vieram à tona. Houve cautela. Silêncio. Negociações jurídicas. Isso desmonta a farsa de que o problema seria “conduta individual”. O que estava em jogo não era apenas a reputação de um ou de alguns indivíduos, mas a estabilidade de relações de poder.

A “sororidade” de classe da burguesia é inequívoca. Eles até divergem sobre métodos de gestão da crise, mas se unem quando seus privilégios estruturais são ameaçados.

A retórica de “direitos humanos” de um lado e de “valores da família” ou “combate à decadência moral”, não passam de discurso de fachada que, por sua vez atuam de forma complementar. Ambos legitimam a ordem capitalista que transforma tudo em mercadoria — inclusive corpos. Por trás deles, opera um regime que naturaliza violência e exploração – inclusive sexual – de meninas e mulheres.

Liberalismo: gestão elegante da hipocrisia

Diante do escândalo, setores liberais responderam com indignação protocolar. Defenderam reformas institucionais, aperfeiçoamento de mecanismos judiciais, ajustes processuais. Mas não questionaram o essencial: a concentração obscena de riqueza e poder que permite esse tipo de rede existir.

O liberalismo denuncia os “excessos”, mas preserva a estrutura. Defende diversidade em conselhos administrativos enquanto mantém intacto o sistema que mercantiliza corpos. Fala em igualdade de oportunidades dentro do topo da pirâmide, mas ignora a base que sustenta a pirâmide.

A crítica liberal à violência é moral, não estrutural.

Trump: moralismo reacionário e barbárie institucional

Donald Trump encarna outra face da mesma ordem. Sua retórica de “defesa da família” e da moral cristã não é antídoto contra a decadência capitalista. É instrumento de controle social.

Apresenta-se como defensor da moral enquanto mobiliza misoginia para atacar direitos reprodutivos e alimentar ressentimento contra mulheres e pessoas que rompem padrões tradicionais. Estimula cultura política autoritária e políticas anti-imigração violentas. Mas não rompe com o pacto masculino da elite. Ao contrário, fala a linguagem crua do privilégio.

Seu moralismo não é contradição com o mundo que produziu Epstein, mas complemento. O trumpismo não combate a degeneração do capitalismo. Ele a radicaliza. Oferece ordem autoritária para preservar o poder de uma minoria bilionária em um momento de instabilidade econômica e política.

Seu moralismo serve para disciplinar os de baixo, enquanto os de cima seguem intocados. Se o liberalismo administra a hipocrisia com verniz civilizado, o trumpismo a assume sem pudor. Mas ambos tem algo em comum: preservam propriedade, hierarquia e impunidade.

Violência machista como engrenagem do capitalismo

Os dados globais são contundentes. Segundo a ONU, uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual. Em contextos de crise econômica, guerras e regimes autoritários, esses índices aumentam.

Não se trata de desvio moral isolado. A violência contra mulheres cumpre funções sociais claras: disciplina da força de trabalho, reforço da família patriarcal como unidade de reprodução social, manutenção de hierarquias que fragmentam a classe trabalhadora.

No topo da pirâmide social, essa violência se expressa em redes de exploração protegidas por dinheiro e influência. Na base, aparece como feminicídio, assédio no trabalho, dupla jornada, salários inferiores e precarização extrema.

O caso Epstein não é um ponto fora da curva. É a própria curva. A demonstração concentrada da lógica de mercantilização total.

Imperialismo e cultura da impunidade

Não é coincidência que esse escândalo esteja enraizado no coração do imperialismo norte-americano. O mesmo Estado que intervém militarmente pelo mundo sob pretexto de “civilização” e “defesa dos direitos humanos” abriga, dentro de suas elites, redes de abuso protegidas por acordos judiciais e conexões políticas.

A exportação da violência imperialista para fora das fronteiras sempre foi acompanhada de violência interna contra mulheres, trabalhadores e minorias oprimidas. A hipocrisia é parte constitutiva da ideologia imperial. As novas revelações, apenas expressam de forma concentrada da decadência imperialista.

Nenhuma conciliação possível

É ilusório acreditar que reformas pontuais ou investigações limitadas resolverão o problema. Enquanto o Estado for controlado pela classe que lucra com a exploração, a punição será seletiva e funcional.

A libertação das mulheres não será produto de cruzadas morais lideradas por bilionários ou por setores liberais do próprio establishment. Ela depende da ruptura com as bases materiais que sustentam a opressão.

Ou se enfrenta o capitalismo imperialista até as suas raízes, ou a barbárie continuará se reproduzindo — com novos operadores, novas redes e a mesma impunidade estrutural.

É tarefa dos socialistas revolucionários denunciar essa podridão sem vacilar, ligar a luta contra a violência machista à luta de classes e afirmar com todas as letras: não há saída moral dentro de um sistema estruturalmente imoral.

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