Contra o machismo no futebol, nos tribunais e no dia-a-dia: por um 8 de março de luta e exigências
Sábado, 21 de fevereiro de 2026, pouco depois das 20h30: o Red Bull Bragantino havia acabado de ser eliminado pelo São Paulo nas quartas de final do Campeonato Paulista de Futebol Masculino. Designado para conceder entrevista após a partida em nome do time de Bragança Paulista, o zagueiro Gustavo Marques atribuiu a derrota não ao desempenho técnico de sua equipe, mas à arbitragem. Sua crítica, contudo, não se dirigiu a aspectos técnicos da condução do jogo, e sim ao fato de a partida ter sido apitada por uma mulher — a árbitra Daiane Muniz — numa manifestação explícita de machismo.
Segundo o jogador, “não se pode colocar uma mulher num jogo desse tamanho”. A declaração reafirma o machismo como mecanismo de exclusão, revelando como, no futebol — uma indústria bilionária —, a presença feminina em posições de autoridade é tratada como uma “anomalia” que ameaça o domínio masculino. Esse tipo de agressividade funciona como válvula de escape: desloca a frustração pela derrota (o fracasso na produção do espetáculo) para a identidade de gênero do “outro”, preservando intacta a hierarquia de poder que sustenta o esporte.
A fala de Gustavo Marques não é apenas um desabafo isolado, um comentário infeliz, diante da derrota; ela expressa e reforça um padrão comportamento que atravessa o cotidiano da sociedade. Ao naturalizar a exclusão da mulher de espaços de poder e autoridade, o jogador contribui para a reprodução de uma cultura que legitima desigualdades e a violência contra a mulher, inclusive, dando sustentação à chamada “cultura do estupro”. Esse tipo de manifestação retroalimenta a ideia de que o lugar da mulher é secundário, normalizando práticas discriminatórias que, no plano social, funcionam como engrenagens de um sistema capitalista que depende da manutenção dessas hierarquias de gênero.
A função econômica do machismo no Capitalismo
Por que o capitalismo precisa que nós, homens, sejamos machistas? Não é por acaso, mas por necessidade de acumulação. A concepção materialista da história permite compreender que a superestrutura — ideologia, cultura, leis — é moldada para sustentar a base econômica. O machismo, como ideologia que é, nesse sentido, cumpre funções vitais para o capital, operando como engrenagem que garante a reprodução da exploração.
Em primeiro lugar, ele divide a classe trabalhadora. Ao naturalizar a ideia de que mulheres são menos competentes ou “incapazes” para determinadas funções, o capitalismo fomenta uma falsa consciência no trabalhador homem. Em vez de reconhecer sua companheira de classe como aliada, ele a vê como concorrente ou inferior, enfraquecendo a unidade necessária para enfrentar o verdadeiro explorador: o patrão. Essa fragmentação é funcional ao sistema, pois impede a construção de uma forte luta coletiva, numa sociedade em que mulheres são quase a metade da força de trabalho ativa.
Além disso, o machismo justifica o rebaixamento salarial. A ideologia que classifica o trabalho feminino como “complementar” ou “menos qualificado” permite ao capital pagar menos às mulheres, criando um exército de reserva e puxando para baixo a média salarial de toda a classe trabalhadora. Esse mecanismo amplia a extração de mais-valia, isto é, a extração de excedente, de lucro e reforça a desigualdade econômica entre homens e mulheres.
Por fim, por meio da misoginia, o machismo garante que o custo da reprodução da força de trabalho recaia sobre as mulheres de forma gratuita no âmbito doméstico. Limpar, cozinhar, cuidar dos filhos e do próprio trabalhador são tarefas invisibilizadas e não remuneradas, mas indispensáveis para que o operário esteja pronto para a fábrica no dia seguinte. Ao desonerar o Estado e o capital desse custo, o machismo aumenta a margem de lucro da burguesia e perpetua a exploração.
Assim, o machismo não é apenas um preconceito individual, mas um mecanismo funcional à lógica capitalista. Ele divide, rebaixa e explora, sustentando tanto a acumulação de capital quanto a manutenção das hierarquias de gênero que atravessam a sociedade.
Do Estádio ao Tribunal: O caso dos desembargadores de MG
O machismo, portanto, transborda e se manifesta em outras esferas da vida social, inclusive para o sistema de justiça. A mesma lógica que legitima a exclusão da mulher em espaços de poder, rebaixa seus salários, relega a elas as tarefas domésticas e de cuidados dos filhos, as inferioriza, incentiva o ódio contra elas, alimenta decisões judiciais que naturalizam a violência de gênero.
Assim, o insulto de um jogador contra uma árbitra e a absolvição de um estuprador pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) fazem parte de um mesmo mecanismo: a desumanização da mulher para preservar a propriedade e a dominação de classe que sustenta o capitalismo.
No caso de Minas Gerais, desembargadores alegaram “consentimento” ou “experiência sexual” de uma criança de 12 anos para absolver um homem de 35. Não se trata de aplicação neutra da lei, mas da operação da ideologia jurídica burguesa, que molda a superestrutura para sustentar a base econômica. Ao negar proteção plena ao corpo feminino — sobretudo ao corpo da mulher pobre, filha da classe trabalhadora — o Judiciário reafirma que esse corpo pode ser tratado como objeto, mercadoria ou território de conquista.
Essa lógica cumpre uma função política: manter o status quo. O Estado, enquanto “comitê executivo da burguesia”, utiliza o Judiciário como braço de conservação social. Decisões como essa reforçam a ideia de que o homem, na posição de provedor e dominante, detém “direitos” sobre o corpo feminino. Ao preservar a família tradicional e a hierarquia social, o capital assegura disciplina e ordem, perpetuando a exploração e a opressão de gênero como engrenagens indispensáveis à sua reprodução.
Analisada pelo método da concepção materialista da história, a decisão do TJMG mostra-se assim, não apenas como uma aberração jurídica: ela integra um mecanismo que legitima a violência contra mulheres e meninas. O que o tribunal chama de “afeto”, o próprio Código Penal chama de crime. No Brasil, como afirmado pelo MML (Movimento Mulheres em Luta) em manifestação sobre o tema, a cada seis minutos uma mulher é estuprada, e 70% das vítimas são crianças e adolescentes, muitas vezes violentadas por aqueles que deveriam protegê-las. Ao absolver um abusador de uma criança, o Judiciário não apenas desumaniza a vítima, mas também a revitimiza, reforçando a ideologia burguesa que naturaliza a exploração e se omite em oferecer políticas públicas efetivas de enfrentamento à violência.
Essa decisão, além do mais, fortalece a cultura do estupro, ao legitimar a ideia de que o corpo feminino pode ser apropriado e violado sem consequências. É outra face da mesma moeda das investidas da extrema direita contra o direito ao aborto: ambas operam para negar às mulheres autonomia sobre seus corpos e vidas, perpetuando a lógica capitalista de dominação de classe.
Leia também
Estupro não é afeto! Violência sexual contra crianças e adolescentes: um crime que o sistema protege
Mulheres e homens na luta contra o machismo: Exigir do governo medidas efetivas
Às vésperas do 8 de Março, mulheres em todo o país se organizam em reuniões preparatórias para construir essa importante jornada de luta. Certamente os temas aqui tratados devem permear as manifestações. Mas elas, não podem se limitar à denúncia do machismo no futebol ou às aberrações jurídicas do Judiciário. Esses episódios revelam a engrenagem de um sistema que legitima a violência contra as mulheres e precisa ser enfrentado com medidas concretas.
Por isso, é fundamental que o 8 de Março tenha como pauta o combate ao machismo, à misoginia e à violência de gênero, exigindo políticas efetivas dos governos — tanto o federal quanto os estaduais — como o direito ao aborto legal, a ampliação das delegacias da mulher, a criação de lavanderias e restaurantes comunitários, entre outras. A exigência ao governo federal da revogação da reforma trabalhista (que Lula prometeu revogar e não cumpriu), do fim da jornada 6×1 sem redução salarial e da proibição da pejotização fraudulenta, garantindo que esta seja julgada pela Justiça do Trabalho, é medida que deve estar no centro do 8M, , pois a precarização das condições de trabalho atinge de forma particular as mulheres trabalhadoras, reforçando desigualdades históricas e ampliando a violência econômica que sustenta o sistema capitalista.”
O 8 de Março precisa ser um dia de denúncia e de luta, mas também de afirmação de um programa que enfrente o capitalismo e suas formas de opressão. Chamamos homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, a estarem presentes nas manifestações e nas preparações do 8 de Março. Só com unidade e mobilização será possível conquistar salário igual para trabalho igual, revogar a reforma trabalhista, pôr fim ao 6×1 e barrar a pejotização fraudulenta, avançando na luta contra o machismo, a misoginia e todas as formas de exploração que pesam sobre a classe trabalhadora.