Dor, luto e descaso em Juiz de Fora
Victoria Mello, PSTU-Juiz de Fora (MG)
O PSTU manifesta sua solidariedade e compartilha a dor e o sofrimento das famílias que perderam seus entes queridos, suas casas e suas referências diante dessa tragédia.
Foi a maior chuva da história recente de Juiz de Fora. O temporal começou no final da tarde de segunda-feira e se estendeu até a madrugada de terça-feira, atingindo todas as regiões da cidade com deslizamentos, desmoronamentos e alagamentos. Na noite de quarta-feira, voltou a chover forte causando mais transtornos. Até a manhã de hoje (26/2), já são 47 mortes confirmadas, cerca de 20 pessoas desaparecidas e milhares de desalojados. Entre as vítimas, há várias crianças, o que torna a tragédia ainda mais dolorosa. Em Ubá, cidade também da Zona da Mata, são 6 mortes.
Segundo a prefeitura, ocorreram dezenas de soterramentos de imóveis, principalmente na região Sudeste, que concentrou o maior número de deslizamentos e vítimas fatais. Embora toda a cidade tenha sido atingida — inclusive a área central , é nas regiões mais vulneráveis que os impactos estão sendo mais devastadores.
Juiz de Fora possui relevo acidentado e, conforme dados do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), está entre as cidades brasileiras com maior população vivendo em áreas de risco. Aproximadamente 130 mil pessoas estão suscetíveis a deslizamentos, inundações e enxurradas — cerca de um quarto dos 540 mil habitantes do município — o que evidencia a dimensão estrutural do problema. Diante da gravidade da situação, a prefeitura decretou calamidade pública; escolas e creches estão fechadas e o transporte coletivo funciona apenas parcialmente devido a vias tomadas pela água, deslizamentos e por entulhos.
A tragédia que a cidade vive não pode ser tratada como um evento imprevisível. A maior parte das áreas de risco do país são mapeadas. Historicamente, Juiz de Fora enfrenta graves transtornos durante períodos de chuva mais intensa, mas, apesar disso, sucessivos governos deixaram de realizar os investimentos necessários em planejamento urbano, infraestrutura, drenagem e políticas habitacionais que poderiam reduzir os impactos e salvar vidas.
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Descaso dos governos federal, estadual e municipal
O descaso é tão grande que, segundo reportagem do jornal O Globo, de 25 de fevereiro, o governo Zema (Novo) reduziu em 96% as verbas destinadas à prevenção contra os impactos das chuvas. Os valores, que já eram insuficientes de R$ 123 milhões, em 2023, foram reduzidos para somente R$ 6 milhões, em 2025.
Também no mesmo período, segundo o jornal Tribuna de Minas, a prefeitura da cidade, governada pelo PT, diminuiu em 14% a verba para o Plano de Contingência Municipal para resposta aos desastres ocasionados pelas chuvas.
Ainda o jornal Folha de São Paulo, do dia 24/02/26, publicou que verba do PAC (Programa de Aceleração de Crescimento) do governo federal para contenção de encostas em Juiz de Fora está travada há quase um ano.
O déficit habitacional e a desigualdade social empurram setores mais pobres da classe trabalhadora para áreas mais suscetíveis a desastres, como encostas, morros e margens de córregos e riachos. Assim, eventos climáticos extremos, que serão cada vez mais frequentes como consequência do aquecimento global, atingem de forma desproporcional aqueles que já vivem em condições mais precárias.
É necessário afirmar que as vítimas não são resultado apenas da força da natureza, mas da falta de planejamento urbano e de políticas públicas efetivas, responsabilidade que recai sobre todos os governos na esfera federal, estadual e municipal que, ao longo dos anos, negligenciaram soluções estruturais para proteger a população
Como sempre acontece em desastres como esse, a solidariedade da população está sendo enorme o que minimiza nesse primeiro momento o sofrimento das famílias atingidas. No entanto é necessário exigir do poder público reparação dos prejuízos sofridos pelos atingidos, moradia digna e investimento em prevenção para que a cidade nunca mais vivencie tragédias como essa.