Lula, Boulos e a Princesa Isabel, ou de quem são as vitórias do povo
As lutas do povo trabalhador no Brasil, majoritamente negro e indígena, são relativamente desconhecidas por nós mesmos, classe trabalhadora.
Sempre aprendemos algo na escola, mas em geral sem relação alguma com o presente. Repleta de revoltas e revoluções contadas pelos nossos inimigos, da elite colonial à burguesia “nacional”, as tentativas de mudar o país a nosso favor foram apresentadas como insanidade e resultante da origem racial “incivilizada”.
Em todo caso, como algo a ser combatido e exterminado. “Ordem e progresso”: vivam explorados, oprimidos e agradeçam por essa sorte.
Mas há um outro modo de neutralizar politicamente os de baixo: moldando nossa memória. Apresentar o resultado da luta, não raramente com suor e sangue derramados, como concessão das elites. É exatamente isso que os e as propagandistas do Governo Federal fazem.
Às vezes o descaramento tem limite: reconhecem o papel dos cerca de 14 povos originários que ocuparam a norte-americana Cargill. Mas somente para em seguida encher a boca com ar satisfeito e aliviado (as eleições estão na porta, afinal…): ainda bem que Lula é um bom pai do povo e ouviu as reclamações!
O poder deseducativo desse discurso é enorme e de longo prazo.
Que o diga o fato de até hoje prevalecer a versão da história brasileira que atribui o fim da escravidão à Princesa Isabel e à Lei Áurea. Além de, naquela altura de 1888, muitos escravizados já estarem libertos, há um fato incontornável: a persistente resistência ao cativeiro que, somada a outros fatores, contribuiu para inviabilizar aquelas relações de trabalho.
Não precisamos agradecer a quem somente na derrota reconhece que o que é nosso… é nosso. Precisamos guardar na memória coletiva que qualquer vitória só vem na marra, com organização e contra o capital e seus representantes. Inclusive os que nos sorriem.
Para saber mais
Nazareno Godeiro (org.). Revoltas e revoluções do povo brasileiro. São Paulo: Sundermann, 2020.
Sylvio Romero. Provocações e debates. Porto: Livraria Chardron, de Lello e Irmão, 1910.