“Me sujeitei a retornar ao território, mesmo sabendo que é uma das coisas mais perigosas”
A violência no campo tem se intensificado nos últimos anos. De acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) referentes a 2024, o estado do Pará ocupou o segundo lugar no ranking nacional de conflitos no campo, registrando um aumento de 75% no número de assassinatos relacionados a conflitos rurais em comparação com o ano anterior.
É neste contexto que vive atualmente Erasmo Teófilo, liderança camponesa que tem protagonizado diversas lutas contra o latifúndio e em defesa da reforma agrária sob controle dos trabalhadores. E que concedeu uma entrevista ao Opinião Socialista.
OS: Erasmo, o que levou você a se engajar no movimento contra o latifúndio? Conte foi sua trajetória de luta.
Minha trajetória de luta no movimento social começou aos 16 anos, quando fundei, junto com companheiros e companheiras, a Associação de Pessoas com Deficiência (APDT), no município de Altamira. Desde então, assumi o compromisso de organizar o povo e enfrentar as injustiças sociais. Fui educado na luta pelo meu pai, que era uma grande liderança camponesa na região da Transamazônica. Depois teve que se transferir para o local onde vivemos atualmente por conta das perseguições que meu pai sofreu. Apesar de ter mudado de município, seguimos lutando, também para fortalecer a resistência dos trabalhadores em Anapu, no Pará, município de muitos conflitos e onde foram assassinadas Dorothy Stang e outras lideranças. Em meados de 2008, chegamos à região e construímos uma forte mobilização coletiva, conquistando a tão sonhada terra para os agricultores e agricultoras, entre eles meus pais, que vivem no Travessão Flamengo Sul. Assim entendemos que com organização se conquista vitórias, então seguimos lutando.
A resistência e a luta têm conquistas e também traz consequências. Você hoje corre risco de morte por conta do agronegócio e mineração? Como você vê isso?
Minha vida atualmente se resume a sobreviver para poder viver. É estranho, mas é isso: primeiro sobrevivo para depois viver, devido a todas as situações de segurança e de tentativas de tirar a minha vida através da luta camponesa e tudo que a gente representa enquanto ideia de lutar contra a exploração do capitalismo e os grandes projetos agropecuários, commodities na nossa região, tão atacada pela grilagem de terra para exploração agropecuária e de commodities.
Aqui não estou salvo. Me tornei um símbolo de uma luta por igualdade. Mas sigo ameaçado, sofri vários atentados contra minha vida. Mas sei que fiz a luta ser vitoriosa. E é essa força que incomoda os grileiros, sou uma ameaça ao projeto de exploração deles.
Porém meu pai está passando por dificuldade de saúde, e eu me vejo na obrigação de prestar apoio, por isso, me sujeitei a retornar ao território, mesmo sabendo que é uma das coisas mais perigosas.
Apesar das ameaças tenho orgulho da minha trajetória, porque se ficarmos calados também perdemos nossas vidas para o latifúndio agroexportador. Por isso não fico quieto, sigo lutando e me posicionando.
Como você vê as lutas gerais que estão acontecendo na região Amazônica? E o que elas representam para a sua luta?
A região Amazônica está vivendo um saque pelas grandes empresas, e nosso povo, indígena, povos tradicionais, camponeses estão colocando essa luta em evidência. A derrota do Decreto 12.600 foi muito importante para o movimento que resiste e luta contra a exploração capitalista.
Nós aqui não lutamos somente pela conquista do assentamento, lutamos por dignidade e contra os grandes projetos, contra a exploração da Belo Sun, mineradora canadense que quer transformar nossos territórios no maior garimpo do mundo. Lutamos contra a violência produzida pelo agronegócio minerador, que criminaliza os lutadores, ameaça e nos tira do território para facilitar sua expansão.
É fundamental que o movimento tenha um projeto político independente dos governos. Os povos indígenas lutaram para derrotar o decreto que privatizava os rios Tapajós, Madeira e Tocantins assinado pelo governo Lula. Isso logo após a COP30, em que houve declarações públicas do secretário do governo, Guilherme Boulos, afirmando que haveria consulta livre, prévia e informada aos povos tradicionais conforme determina a Convenção 169 da OIT. Mas isso não ocorreu. Os povos indígenas deram a resposta da consulta ocupando a Cargill, empresa que enriquece com a exploração de nossos territórios.
Diante disso, fica evidente a necessidade de organizações independentes de governos e do grande capital, que podem garantir a defesa real dos territórios e dos direitos dos povos. Nesse sentido, o PSTU e a CSP-Conlutas são fundamentais para construir essa luta independente de governos e patrões. Não podemos deixar que pautas tão importantes e que dizem respeito a vida dos povos indígenas, das comunidades tradicionais e dos camponeses sejam negociadas por governos para atender ao grande capital.