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PSOL rejeita federação com o PT, mas segue apoiando Lula

Julio Anselmo

11 de março de 2026
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Presidente Lula conversa com Guilherme Boulos durante a cerimônia de posse do deputado como ministro da Secretaria-Geral da Presidência — Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A direção nacional do PSOL rejeitou a proposta encabeçada por Guilherme Boulos e a sua corrente Revolução Solidária de compor uma federação com o PT. Caso tivesse sido aprovado seria um grande passo no atrelamento ainda maior do PSOL ao PT. Neste sentido, foi uma derrota da ala mais à direita do PSOL, o que alimenta expectativa em um setor do ativismo. No entanto, o problema fundamental dos rumos do PSOL segue.

Na mesma reunião que rejeitou a federação, foi reafirmado o apoio eleitoral a Lula no primeiro turno. E a maioria que se formou contra a federação não possibilita, por exemplo, aprovar a retirada do PSOL do governo, ou mesmo a saída da base aliada no Congresso Nacional. Ou seja, apesar de ter rejeitado a federação, a localização do PSOL diante do governo segue intacta. E isto é grave, pois significa compor o governo atual responsável pela aplicação da cartilha neoliberal com ataques contra os trabalhadores.

Sendo contra ou a favor da federação, todas estas principais correntes do PSOL afirmam ser necessário apoiar o governo Lula, se coligar desde o primeiro turno, pois tudo estaria hierarquizado pela necessidade de derrotar a extrema direita. Mas a vitória eleitoral de Lula em 2022 não significou a derrota final da extrema direita, que segue forte em 2026. Assim, mesmo que Lula vença em 2026, em 2030 será o mesmo debate, porque a extrema direita é um fenômeno político que veio para ficar. O PT e o PSOL sonham com a volta de um mundo e um Brasil que não existem mais.

Fora da federação, mas dentro do governo

O único caminho para derrotar a extrema direita de uma vez por todas, e inclusive evitar que ela tome o poder novamente, seja em 2026, 2030 ou em qualquer ano, é avançar na consciência e organização dos trabalhadores, fortalecendo uma alternativa socialista e revolucionária para o Brasil. Diante do nível de decadência e degradação social do capitalismo atual no Brasil e no mundo, as forças reacionárias continuarão se desenvolvendo enquanto não forem paradas pela força da classe trabalhadores mobilizada e organizada com um programa que destrua o capitalismo. A extrema direita se alimenta inclusive do fato de que a maior parte da esquerda, ao administrar o capitalismo atual, se torna também agente da decadência do sistema capitalista.

Achamos importante ter unidade de ação contra qualquer tipo de ataque, tentativa de golpe ou agressão militar da extrema direita ou do imperialismo, mas mantendo-se independente politicamente do governo e do PT que busca manter os trabalhadores atrelados à burguesia.

A própria argumentação de Boulos é ilustrativa de como os limites programáticos e estratégicos do PSOL levam o partido a ficar cada vez mais parecido com o PT. A Revolução Solidária acusou a maioria do PSOL de não entender a importância da unidade com o PT para derrotar a extrema direita. A maioria do PSOL formada contra a federação, por sua vez, composta por MES, Resistência e Primavera Socialista, concorda com toda esta argumentação. Ou seja, apoiaram a proposta de aliança com o PT, mas mantendo algum nível de independência.

Mas como se derrota a extrema direita de verdade? E de que independência é necessária para um partido de esquerda?

Qual independência?

Revolução Solidária e Boulos defendem um PSOL completamente atrelado e sem fazer sequer críticas ao governo. MES, Resistência e Primavera Socialista defendem apoiar o PT, tecendo algumas críticas em diferentes níveis.

Existem vários níveis de independência de um partido. A federação seria a redução drástica da independência até mesmo para escolher qual candidato apoiar, seria se comprometer quase absolutamente ao que faz o PT. Mas se dizer independente estando na base aliada, apoiando Lula no primeiro turno e estando dentro do governo, também é muito menos independente do que se o PSOL fosse oposição de esquerda.

O PSOL estar fora da federação, mas apoiando Lula e se mantendo no governo, é um nível de independência insuficiente, porque não garante independência de classe, pois este é um governo capitalista de conciliação de classes. Qualquer partido que se reivindique de esquerda de verdade, socialista e revolucionário, deve ter uma política que se oriente pela busca da independência política dos trabalhadores em relação aos partidos e governos da burguesia.

O governo do PT é um governo que aplica ataques aos trabalhadores, com privatizações, como no caso das hidrovias, como o arcabouço fiscal, e que vende o país para o imperialismo dos EUA, Europa e China, assim como garante todos os interesses dos monopólios capitalistas. Mesmo as medidas que parecem progressivas são insuficientes e se inserem num projeto que busca reforçar o funcionamento normal capitalista do sistema. Ou seja, é um governo capitalista, ainda que diferente da extrema direita. O fato de ser um governo diferente da extrema direita, por sua vez, não pode levar com que aqueles que lutam pelo socialismo e a revolução esqueçam seu caráter de classe e a serviço de que projeto ele está.

Que o PSOL faça críticas a este ou aquele projeto do governo não muda o caráter do mesmo. Tampouco disputam o governo para a esquerda, pois isto é impossível sem o governo romper com a burguesia. Acaba que, na verdade, é o governo e o PT quem puxa o PSOL, só que para a direita.

Apoiar o governo atual, integrar seus ministérios, ser sua base aliada, significa aprofundar o atrelamento dos trabalhadores a um dos blocos políticos burgueses do país e alimenta a confusão, desmoralização e desorganização dos trabalhadores.

Apoiar ou governo ou ser oposição de esquerda?

Não está definido ainda qual caminho o grupo de Boulos seguirá. Existe a hipótese de ruptura e migração para o PT. Ou pode seguir no PSOL acumular mais força, adaptando-o ainda mais ao PT para, a seguir, consumar ali na frente a federação. Mas o certo é que o caminho trilhado pelo PSOL até agora leva a ser cada vez mais absorvido pelo petismo e pelo projeto de conciliação de classes.

Um antídoto para isso seria o PSOL romper com o governo Lula e construir uma oposição de esquerda. Mas, ao que parece, não há nenhum setor da direção de suas principais correntes interessado em fazer isso. Tanto é que todos aprovam ingressar na campanha de Lula e não houve nenhum questionamento à participação no governo.

O PSOL ficou diante do espelho com esta polêmica sobre a federação. Porque é seu próprio projeto de partido amplo anticapitalista, respeitando os limites do regime, nos marcos do capitalismo, sem defender um programa de fato revolucionário e socialista, permitindo a convivência de reformistas e revolucionários, que os torna presa fácil para ser capturado pela institucionalidade capitalista.

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