Perus resiste contra o incinerador: território, memória e luta em defesa da vida
A mobilização dos moradores de Perus, na Zona Noroeste de São Paulo, contra a instalação da chamada URE (Unidade de Recuperação de Energia) Bandeirantes — na prática, um incinerador de lixo — expressa um conflito que ultrapassa os limites de uma obra específica.
O que está em disputa é o próprio modelo de cidade, a forma como se organiza a vida coletiva e quem paga o preço das decisões tomadas em nome do “desenvolvimento”.Em São Paulo, sob a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), o projeto se apresenta como solução moderna para a crise dos resíduos, mas revela, na prática, a continuidade de políticas que concentram impactos sobre territórios periféricos.
Em um contexto de crise climática e colapso ambiental, insistir em soluções baseadas na queima de resíduos revela não apenas um atraso tecnológico, mas a permanência de uma lógica que subordina a vida às exigências do lucro.
Um projeto que reproduz e aprofunda a degradação
O incinerador está previsto para o terreno do antigo Aterro Bandeirantes, desativado em 2007. No entanto, áreas desse tipo permanecem por décadas emitindo gases, produzindo chorume e contaminando o ambiente ao seu redor.
Não se trata de um problema superado, mas de um passivo ambiental contínuo.
Instalar um incinerador nesse território significa intensificar uma dinâmica já marcada pela degradação. A presença de biogás metano amplia os riscos de acidentes, enquanto a queima de resíduos libera substâncias tóxicas que atingem diretamente a saúde da população.
Esse tipo de solução não enfrenta a raiz do problema. Ao contrário, reorganiza a crise para que ela continue existindo — desde que siga sendo lucrativa para alguns.
Territórios sacrificados em nome do lucro
O projeto ameaça diretamente a Terra Indígena Jaraguá e o Parque Anhanguera, colocando em risco tanto ecossistemas quanto modos de vida.
A ausência de consulta prévia às comunidades afetadas não é um erro pontual, mas parte de um padrão.
Decisões estratégicas seguem sendo tomadas sem a participação de quem vive nos territórios, revelando uma lógica em que a natureza e determinadas populações são tratadas como obstáculos a serem administrados — ou descartados.
Audiência pública: disputar o presente e o futuro
A audiência pública sobre o Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) será realizada no dia 31 de março de 2026, às 17h, no CEU EMEF Perus, na Rua Bernardo José de Lorena, s/n, Vila Fanton.
Mais do que um procedimento formal, trata-se de um espaço de enfrentamento.
É nesse tipo de espaço que se confrontam dois projetos: de um lado, a continuidade de um modelo que concentra riqueza e distribui impactos; de outro, a defesa da vida, do território e do direito de decidir coletivamente os rumos da cidade.
De Perus ao Xingu: um mesmo modelo de destruição
O conflito em Perus se conecta a uma dinâmica mais ampla.
Na cidade de Altamira, o Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu se mobilizam contra o avanço da mineradora Belo Sun, que pretende instalar a maior mina de ouro a céu aberto do país, em uma região já profundamente impactada pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte. O projeto segue avançando sob responsabilidade do governo Lula e da gestão municipal de Loredan Mello, evidenciando que, em diferentes escalas, o Estado mantém a viabilização de grandes empreendimentos mesmo diante dos impactos sociais e ambientais.
Em contextos distintos, o padrão se repete: grandes empreendimentos são impostos sobre territórios vulnerabilizados, aprofundando desigualdades e promovendo destruição ambiental em larga escala.
Não se trata de casos isolados, mas de uma engrenagem que depende da exploração intensiva da natureza e da marginalização de populações inteiras para se manter em funcionamento.
Memória de luta e continuidade histórica
Perus carrega uma trajetória marcada pela resistência. A região abriga a memória da Vala de Perus, descoberta em 1990 no Cemitério Dom Bosco com mais de mil ossadas, incluindo desaparecidos políticos. Símbolo da violência de Estado e do apagamento de corpos e memórias, a vala revela a permanência da impunidade e conecta passado e presente na denúncia de quais vidas são tratadas como descartáveis em territórios periféricos.
Essa história de violência é atravessada por uma história igualmente potente de luta. Em 1995, moradores de Perus se levantaram contra o aterro e projetos de incineração, organizando bloqueios, paralisações e ações diretas para impedir que o território fosse transformado em destino permanente de descarte. Essa mobilização se enraíza em uma tradição mais profunda, que remonta à Fábrica de Cimento Perus, palco da histórica greve dos Queixadas — a greve dos 7 anos, uma das mais longas do país. Hoje, essa memória segue viva na resistência em Perus, na atuação de coletivos culturais e movimentos sociais, como o Movimento dos Queixadas, e a Comunidade Cultural Quilombaque, evidenciando a importância de formas de organização capazes de enfrentar projetos impostos por interesses inconciliáveis, que só podem ser enfrentados até o fim através da luta com independência de todos os governos.
Mais do que enfrentar um projeto específico, trata-se de disputar o significado do território. Recusar o incinerador é também afirmar que Perus não é espaço de descarte, mas de vida, cultura e organização popular.
Educação e formação crítica no território
A luta contra o incinerador também atravessa as escolas.
Educadores e estudantes vêm debatendo o tema, conectando o conteúdo escolar à realidade concreta. Esse processo amplia a compreensão sobre as relações entre sociedade, natureza e economia.
Ao questionar quem decide, quem lucra e quem sofre as consequências, a educação se transforma em ferramenta de consciência e mobilização.
Racismo ambiental e crise sistêmica
A escolha de Perus não é neutra.
Territórios periféricos, marcados pela presença de populações negras e trabalhadoras, são sistematicamente selecionados para receber empreendimentos poluentes.
Esse padrão expressa uma forma estrutural de desigualdade que distribui riscos e danos de maneira profundamente desigual.
Ao mesmo tempo, a insistência em soluções como a incineração evidencia os limites de um modelo que, diante da crise ecológica, busca apenas novas formas de manter sua própria reprodução.
Em vez de enfrentar as causas da degradação ambiental, esse modelo reorganiza seus efeitos, transferindo impactos e aprofundando injustiças.
Em defesa da vida e de outro projeto de sociedade
A luta contra o incinerador em Perus faz parte de uma disputa mais ampla.
Não se trata apenas de impedir um empreendimento, mas de afirmar que não há solução real para a crise ambiental dentro de um sistema que depende da exploração contínua da natureza e da desigualdade social.
A defesa do território, da saúde e da vida aponta para a necessidade de outro horizonte: um modelo em que as decisões sobre produção, consumo e uso da natureza estejam subordinadas às necessidades coletivas — e não à lógica do lucro.
Perus resiste, e mais uma vez, se levanta contra a tentativa de transformá-lo em zona de sacrifício.
A luta contra a URE Bandeirantes é parte de um enfrentamento maior, que conecta diferentes territórios e diferentes povos na defesa da vida.
Não como abstração, mas como prática concreta.
Perus resiste — e, ao resistir, aponta para a necessidade urgente de transformar o mundo que produz essas violências.
Para se aprofundar
FOSTER, John Bellamy. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
→ Recupera a dimensão ecológica do pensamento marxista, fundamental para entender a relação entre capitalismo e destruição ambiental.
LOWY, Michael. Ecologia e socialismo. São Paulo: Cortez, 2005.
→ Aponta a necessidade de superar a lógica do lucro como condição para enfrentar a crise ecológica de forma estrutural.
MARIÁTEGUI, José Carlos. Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
→ Referência central para pensar a questão indígena e agrária como parte da luta de classes no continente.
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
→ Denúncia profunda da destruição dos territórios indígenas e da lógica predatória da sociedade capitalista.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
→ Reflexões que questionam a separação entre humanidade e natureza e propõem outras formas de existência.
TROTSKY, Leon. A revolução traída. São Paulo: Sundermann, 2005.
→ Contribui para a crítica às burocratizações e aos limites de projetos que não rompem com a estrutura do sistema.
ACSELRAD, Henri. O que é justiça ambiental. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.
→ Fundamental para compreender como os impactos ambientais são distribuídos de forma desigual, atingindo principalmente populações vulnerabilizadas.
PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A globalização da natureza e a natureza da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
→ Analisa a relação entre globalização, território e conflitos socioambientais, evidenciando as disputas em torno do uso da natureza.