Belo Sun avança sobre o Xingu e resistência indígena ganha força com ocupação da Funai em Altamira
Há mais de uma década, o projeto da mineradora canadense Belo Sun se arrasta entre denúncias, questionamentos judiciais e a resistência firme dos povos da região. Agora, volta a ameaçar a Volta Grande do Xingu, no Pará, um território já profundamente impactado pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte e ainda marcado por graves consequências sociais e ambientais.
Diante desse novo avanço, mulheres indígenas iniciaram a ocupação da sede da Funai, em Altamira. A mobilização denuncia os riscos do projeto e exige sua suspensão definitiva, afirmando o direito dos povos originários à consulta prévia, livre e informada, um princípio frequentemente ignorado em grandes empreendimentos na Amazônia.
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Ocupação indígena fortalece resistência
O PSTU manifesta total apoio à ocupação, que ontem (24/3) completou 30 dias, e chama os movimentos sociais, organizações populares e toda a classe trabalhadora a fortalecer essa luta.
A experiência recente em Santarém aponta um caminho: a ocupação indígena na unidade da Cargill foi decisiva para barrar a privatização das hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. É esse exemplo que deve ser seguido, manter a mobilização até que o projeto da Belo Sun seja definitivamente derrotado.
Um território já devastado
A possível instalação da Belo Sun tende a aprofundar um cenário já crítico. A Usina Hidrelétrica de Belo Monte, construída durante os governos do PT, foi imposta ignorando denúncias, estudos técnicos e a voz das populações atingidas.
Prometida como símbolo de desenvolvimento, deixou um rastro de deslocamentos forçados, precarização das condições de vida e impactos ambientais ainda não reparados.
Agora, a mineradora pretende avançar com um projeto que prevê:
– Desmatamento de mais de 590 hectares de floresta;
– Uso de substâncias altamente tóxicas, como o cianeto;
– Construção de uma barragem de rejeitos maior que a de Mariana (MG), a menos de 1 km do rio Xingu. Em caso de rompimento, a destruição será irreversível;
– Geração de até 92 milhões de m³ de rejeitos;
– Formação de pilhas de estéril com até 205 metros de altura;
– A Belo Sun consumirá água suficiente para abastecer 60 mil pessoas por dia. Isso agravará ainda mais a seca na região e inviabilizará a produção agrícola dos ribeirinhos e agricultores locais.
Isso não é desenvolvimento. É destruição, aprofundamento das desigualdades e ameaça direta aos povos indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares. Mais uma vez, quem paga essa conta são a floresta, os rios e as populações.
Um modelo que se repete: da ditadura aos dias atuais
A imposição de grandes projetos na Amazônia não é novidade. Durante a ditadura militar, obras como a Transamazônica e a hidrelétrica de Tucuruí foram implementadas à força, sob o discurso de integração e progresso. Na prática, significaram expulsão de comunidades, devastação ambiental e concentração de riqueza.
Hoje, esse mesmo modelo se repete. Projetos como a Ferrogrão, o asfaltamento da BR-319, a privatização das hidrovias e a exploração de petróleo na foz do rio Amazonas avançam sob responsabilidade do atual governo federal, comandado pelo PT. Todos apresentados como desenvolvimento, mas com impactos profundos sobre territórios e populações.
A diferença é que agora esse processo é conduzido por um governo que se “diz progressista”, mas mantém a lógica de imposição, silenciamento e destruição.
O papel do governo e os limites institucionais
Nesse contexto, também é necessário questionar o papel do Ministério dos Povos Indígenas. Diante de ataques concretos aos territórios, a atuação da ministra Sônia Guajajara (PSOL) não tem correspondido, na prática, à defesa firme dos direitos dos povos originários, o que gera críticas entre setores do movimento.
Enquanto isso, grandes empreendimentos seguem avançando, evidenciando os limites das respostas institucionais frente à pressão do capital e dos interesses do agronegócio e da mineração.
Fortalecer a luta e barrar a destruição
A luta contra a Belo Sun não é isolada. Ela se conecta a um enfrentamento mais amplo contra a destruição ambiental e a exploração dos territórios. A ocupação da Funai em Altamira é, hoje, uma trincheira central dessa resistência.
É preciso ampliá-la, fortalecer a mobilização e seguir o exemplo de Santarém: só sair após garantir a derrota do projeto. Os povos indígenas mostram, mais uma vez, o caminho. Sua luta não é apenas por seus territórios, mas pela preservação da Amazônia e pelo futuro de toda a sociedade.
Diante da lógica predatória do capitalismo, que transforma natureza em mercadoria e vida em lucro, torna-se urgente construir uma alternativa que coloque no centro a preservação ambiental, os direitos dos povos e uma outra forma de organizar a sociedade. A resistência no Xingu é, portanto, parte de uma luta maior contra um modelo que promete progresso, mas entrega devastação.