A produtividade do trabalho no Brasil permite o fim da jornada 6×1?
Com o avanço da luta pelo fim da jornada de trabalho 6×1, federações patronais, megaempresários e políticos como Nikolas Ferreira (PL-MG), em tom vacilante e hipócrita, dizem: não dá para reduzir a jornada. O motivo? A produtividade do trabalho no Brasil, dizem, é baixa. Se a jornada cair, a consequência será mais desemprego e inflação. É inevitável, garantem. Seria a única forma de as empresas compensarem a elevação dos custos.
E o trabalhador entra onde? Entra como sempre entrou. Deve entender a situação. Deve ser responsabilizado por essa produtividade dita baixa e agir com responsabilidade em relação ao futuro. Deve produzir mais. Trabalhar mais. Quem sabe assim, um dia, a produtividade finalmente melhore – e aí, talvez, se possa pensar em trabalhar menos.
Devemos dizer sem voltas: todo esse discurso sobre a produtividade no Brasil é mentiroso do começo ao fim. O que os economistas e federações patronais de plantão chamam de produtividade e políticos, como Nikolas Ferreira, repetem como papagaios não é produtividade, mas complexidade média do trabalho no país.
O que é produtividade do trabalho?
O que a patronal e seus representantes chamam de produtividade é, na verdade, o PIB por hora trabalhada. A ideia é simples. Pegamos o PIB do país em um dado ano e dividimos pelo total de horas trabalhadas, ou seja, o total de trabalhadores multiplicado pela jornada de trabalho. Qual o problema dessa forma de calcular a produtividade? Tudo.
Se um mesmo grupo de trabalhadores, suponhamos na indústria de calçados, passou a produzir com uma nova máquina o dobro de mercadorias no mesmo tempo, sua produtividade dobrou, correto? Correto, mas como fica o PIB por hora trabalhada? Ele também dobrou? Não necessariamente.
O problema é que, quando temos um salto de produtividade, ele tende a ser generalizado pelas demais empresas que concorrem no mesmo mercado. O resultado desse processo é a redução do preço das mercadorias. Nesse exemplo, se o sapato custava R$ 200, ele passa a custar, com esse salto de produtividade, R$ 100. A produtividade dobrou, mas o PIB por hora trabalhada continua exatamente o mesmo.
Muitos podem achar que o exemplo que demos acima é fantasioso, porque não vemos na realidade os preços baixarem a todo o tempo. Apesar disso, esse aumento de produtividade acontece sim, e há muito tempo. Só não aparece como queda brusca de preços porque se dá aos poucos, ao longo de décadas. Basta olhar em perspectiva.

Linha de produção em um frigorífico da MBRF | Foto: Divulgação
Telefone fixo já foi artigo de luxo no Brasil; hoje, um celular, muito mais sofisticado que os telefones antigos, chegam a praticamente toda a população. O automóvel, antes privilégio de ricos, virou produto acessível, ainda que com sacrifício, a uma parte significativa da classe trabalhadora. O mesmo vale para geladeira, máquina de lavar, passagens de avião e televisão. Nada disso ficou barato de repente; foi um processo longo de aumento de produtividade e difusão tecnológica.
Tomemos o caso do setor automobilístico. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), em 1990 tínhamos uma média de 6,6 veículos por trabalhador no setor. Ao fim de 2024, essa média foi de 24,3 veículos por trabalhador: um crescimento maior que 270% e de cerca de 4% ao ano. O crescimento real, na verdade, é muito superior a esse, pois um veículo hoje é muito mais complexo e possui muito mais valor agregado. Um carro médio de 1990 era muito mais simples – pouca eletrônica, padrões de segurança básicos e menor eficiência – enquanto hoje, mesmo modelos ditos populares, de empresas como Volkswagen e Fiat, incorporam múltiplos sistemas eletrônicos, sensores, softwares, airbags, ABS.
Os ganhos de produtividade são tão grandes que qualquer trabalhador percebe isso no dia a dia. Na indústria, linhas automatizadas permitem que poucos operários produzam o que antes exigia centenas. No comércio, um único funcionário com um sistema de caixa e estoque informatizado controla milhares de produtos em tempo real. No setor bancário, operações que antes exigiam filas, formulários e vários postos de trabalho agora são feitas por aplicativos de bancos em segundos, por milhões de clientes ao mesmo tempo.
Com computadores, automação e inteligência artificial, um único trabalhador supervisiona processos que realizam milhões de operações. A produtividade é sempre algo concreto: o que e quanto se produz em um período de trabalho. Não é nunca o dinheiro produzido em um dado tempo.
BAIXO VALOR
PIB por hora trabalhada expressa decadência do Brasil
Aquilo que a pseudociência chamada economia costuma classificar de “produtividade do trabalho” – o PIB por hora trabalhada – não mede diretamente o quanto se produz em termos físicos, mas o valor incorporado ao que é produzido. Em outras palavras, reflete o grau de complexidade do trabalho característico de cada um dos setores que compõem a economia. Atividades que concentram tecnologia, conhecimento e cadeias produtivas mais densas tendem a gerar mais valor por hora. Por esse critério, o Brasil avança pouco, algo como 0,9% ao ano. Isso não é casual.
A estrutura produtiva do país vem se concentrando em setores de menor valor agregado, como commodities agrícolas e indústria de alimentos, enquanto áreas mais intensivas em tecnologia – como software, semicondutores e equipamentos avançados – permanecem dependentes do exterior. Grandes grupos empresariais preferem operar em setores de retorno rápido e risco menor, evitando a disputa em segmentos onde o investimento é alto e o resultado, incerto.
O problema é ainda pior. Não produzimos esses bens de maior valor, mas precisamos deles para produzir aqui. Eles entram nas fábricas, nos bancos, no comércio por meio de importações. Como consequência, a produtividade cresce do mesmo jeito com o uso de máquinas e softwares sofisticados. Mas os empregos adicionais para produzir essas máquinas e softwares são criados no exterior.
Diante disso, a saída proposta pelos representantes dos patrões é sempre a mesma: reduzir custos. Isso significa aumentar jornada de trabalho, apertar salários e buscar competir com países como o Vietnã em setores mais simples, como a indústria tecelã.

Militantes do PSTU na luta pelo fim da escala 6×1 em Salvador, capital da Bahia
NÃO SE DEIXE ENGANAR
Sem redução da jornada, o desemprego vira mato
Todas as novas tecnologias são conquistas das pessoas em geral, da humanidade. Elevam nossa capacidade de se apropriar dos recursos da natureza e utilizá-los a nosso serviço. Inclusive de modo a reduzir os impactos ambientais de qualquer tipo. No entanto, no capitalismo, a produtividade é utilizada como arma para vencer os concorrentes, produzindo produtos mais baratos e ocupando o mercado ou, então, quando há monopólio, realizando lucros assombrosos.
A única forma de combater esses efeitos nocivos é por meio da redução da jornada de trabalho. Essa é a única maneira de colocar a tecnologia a nosso serviço e não a serviço das fortunas bilionárias dos grandes empresários.
No Brasil, essa necessidade é ainda maior. Como indicado no Anuário Estatístico do Ilaese 2025/26, todos os grandes setores da economia, tirando os servidores públicos, a jornada 6×1 é majoritária. Ela abrange 62% da força de trabalho formal. Por isso, o fim dessa escala de trabalho apenas faz sentido se significar também a redução da jornada de trabalho. O resto é conversa para boi dormir.
Os trabalhadores não devem se deixar enganar com o discurso de trabalho pago por hora, com jornada ilimitada ou manutenção das mesmas 44 horas semanais, só que distribuída em cinco dias de trabalho. Sem redução da jornada de trabalho não há como combater a situação atual em que cerca de 80 milhões de brasileiros estão sem emprego ou na informalidade.
DISTRIBUIR O TRABALHO A TODOS
Socialismo e jornada de trabalho
A redução da jornada de trabalho está na ordem do dia e devemos nos engajar, todos, pelo fim da jornada 6×1. Mas a produtividade do trabalho, ao contrário do que dizem os economistas, continuará crescendo e voltará a produzir mais e mais desemprego. Principalmente com a generalização recente da inteligência artificial e o amplo desenvolvimento da robótica no interior da China. O problema só poderá ser resolvido quando a jornada de trabalho cair de forma automática com a elevação da produtividade, isto é, quando distribuirmos de forma planejada todos os empregos entre todas as pessoas disponíveis para trabalhar. É precisamente isso que é o socialismo.
O que dissemos acima deveria ser óbvio, mas no capitalismo não é. Essa forma de organização da sociedade está orientada pelo lucro e não pelas necessidades da população. É administrada pelo mercado, que converte cada ganho de produtividade em desemprego e barbárie social. Lutar pelo fim dessa forma de sociedade, expropriando os grandes capitalistas e gerindo a riqueza social de forma planejada por meio de conselhos de trabalhadores, é uma questão de vida ou morte para a humanidade. Dessa batalha depende o nosso presente e o nosso futuro!