Lutas

Greve na Avibras arranca vitória histórica

Luta dos trabalhadores é responsável por retomada de empresa bélica estratégica para o país

PSTU São José dos Campos

26 de março de 2026
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Operários da Avibras em greve ocuparam a fábrica e cobraram do presidente Lula a estatização da empresa | Foto: Roosevelt Cássio/Sindmetal SJC

Ana Paula Santana, pesquisadora do ILAESE, e Weller Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região

Após mais de três anos de paralisação e uma das mobilizações mais estratégicas da história recente da indústria brasileira, começam a surgir os primeiros passos para a retomada das atividades da Avibras. É fundamental afirmar: a volta da empresa não foi fruto da boa vontade dos proprietários nem da iniciativa do governo, mas da mobilização permanente organizada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região e seus apoiadores.

Desde março de 2022, operários e operárias sustentaram uma greve histórica contra salários atrasados, o abandono da empresa e o risco real de fechamento da fábrica. Foram 1.280 dias de resistência em condições extremamente difíceis que, ainda assim, impediram a liquidação da empresa e sua entrega silenciosa ao capital estrangeiro.

Nos últimos meses, as negociações avançaram. Em julgamento realizado no dia 10 de março, o Tribunal de Justiça de São Paulo rejeitou o pedido de credores ligados ao mercado financeiro que buscavam anular o plano alternativo de recuperação judicial da empresa. Caso fosse aceito, o plano de retomada da Avibras ficaria comprometido, abrindo caminho para sua entrega ao capital estrangeiro e prolongando as incertezas vividas pelos trabalhadores. Ao barrar essa investida, a decisão judicial preservou a possibilidade de reorganização da unidade.

Campanha

A decisão também se relaciona com a forte campanha pública e política impulsionada pelo sindicato, que reúne apoio de pesquisadores, militares e organizações sindicais e políticas. Ao denunciar a entrega da Avibras e defender sua estatização, a mobilização levou o tema ao centro do debate nacional. Reuniões com o Ministério da Defesa, com o vice-presidente Geraldo Alckmin, com o BNDES e outras instituições pressionaram por um posicionamento diante do risco de desnacionalização da principal indústria bélica do país. Apesar do discurso em defesa da soberania, o governo Lula, por sua vez, não se moveu em defesa dos trabalhadores ou pela manutenção dessa empresa estratégica.

Paralelamente à decisão da Justiça, foi aprovado, em uma calorosa assembleia no dia 11 de março, o acordo para negociação da dívida trabalhista. A deliberação foi resultado de semanas de debates e discussões coletivas, em um processo organizado de informação que garantiu à categoria plena compreensão dos termos negociados. Cada trabalhador pôde consultar, junto ao departamento jurídico do sindicato, os valores a receber e avaliar as condições do acordo. Somente após isso a proposta foi submetida à votação e aprovada, expressando uma decisão consciente e construída pela própria categoria.

Não foi só negociação, foi luta! A greve impôs uma saída e demonstrou que a mobilização e a estratégia política é capaz de enfrentar a destruição da indústria nacional.

CAMINHO PARA A VITÓRIA

Direção classista e estratégia socialista

A greve foi marcada por um princípio que conduz a atuação do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região: a democracia operária. Esse princípio orienta que as decisões que dizem respeito à vida dos trabalhadores são tomadas por eles próprios e não por dirigentes isolados em salas de reunião.

Trata-se de um método de organização no qual os trabalhadores têm acesso às informações, participam do debate e decidem, por meio de assembleias, os rumos da luta. No caso da Avibras, esse princípio foi aplicado na prática desde o início da crise, quando o sindicato não apenas conduziu as negociações, mas garantiu que cada passo fosse explicado, debatido e submetido à decisão coletiva.

Essa forma de condução da greve não é casual. A direção do Sindmetal-SJC é marcada historicamente pela presença de militantes vinculados ao PSTU, forjados na tradição classista, comprometidos com a independência de classe e a luta contra os interesses do capital. Isso se expressa em princípios concretos: nenhuma confiança em promessas de governos ou empresários, nenhuma carta branca para negociações feitas por cima e a centralidade da ação direta dos trabalhadores como motor das conquistas. Desde o início da crise da Avibras, essa orientação se traduziu na confiança da força da greve, na ampliação da mobilização e politização da luta.

Ao mesmo tempo, a defesa da estatização da empresa sob controle dos trabalhadores deu à greve um horizonte estratégico, elevando o conflito para além da pauta imediata e colocando em debate o futuro da indústria nacional. Foi essa combinação – independência de classe, democracia operária e estratégia política – que permitiu que a luta da Avibras ultrapassasse os limites de uma negociação econômica e se afirmasse como um enfrentamento direto à desindustrialização e à entrega do país ao capital estrangeiro.

SOBERANIA

Resistência contra a desindustrialização

A retomada das atividades da Avibras tem um significado que vai muito além da preservação de empregos. Trata-se da defesa de um dos principais pilares da indústria de defesa do país. Fundada em 1961 por engenheiros do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a empresa construiu, ao longo de décadas, uma base tecnológica avançada no desenvolvimento de foguetes, sistemas de artilharia e mísseis, tornando-se referência internacional e sendo peça estratégica para a soberania nacional.

Em um país marcado por um profundo processo de desindustrialização, impedir o desaparecimento de uma empresa com esse nível de tecnologia e capacidade produtiva é um feito de enorme importância. Nas últimas décadas, o Brasil assistiu ao fechamento ou à desnacionalização de empresas estratégicas, como a Engesa, levada à falência, a Embraer, hoje subordinada em grande medida ao capital estrangeiro, e a Helibras, controlada por uma multinacional.

Nesse cenário, a luta dos trabalhadores da Avibras demonstrou que é possível resistir. Ao impedir a liquidação da empresa e sua entrega ao capital estrangeiro, a greve conquistou uma vitória que ultrapassa os limites da fábrica e se coloca como defesa concreta da indústria.

CAPITAL ESTRANGEIRO

Derrubando os abutres

Desde o ano de 2022, grupos internacionais – da Austrália, da China, do Oriente Médio e fundos globais – disputam a aquisição do parque industrial, da tecnologia estratégica e do conhecimento acumulado por décadas para interesses estrangeiros.

João Brasil – herdeiro do projeto fundado por engenheiros do ITA e responsável por mais de 95% das ações –, que durante décadas esteve à frente da empresa, já não detém o controle da Avibras. Com o processo de recuperação judicial, a gestão passou para o interventor, o advogado e empresário Fábio Guimarães Leite, que assumiu a condução da empresa após a aquisição das ações por meio da Vita Gestão e Investimentos. Ainda que formalmente brasileiro, o novo controlador está vinculado à lógica dos fundos de investimento, o que mantém aberta a disputa sobre o futuro da empresa e o risco permanente de sua entrega ao capital.

Sanguessugas

Essa ameaça não se restringe à Avibras. Toda a indústria brasileira vem sendo pressionada pelo avanço do capital estrangeiro, que atua como abutres sobre uma base industrial fragilizada, aguardando, e muitas vezes impulsionando, o fechamento de fábricas para ampliar seu controle sobre setores estratégicos. Esses grupos já demonstraram que seu objetivo não é desenvolver a produção nacional, mas aprofundar a dependência tecnológica, transformando o país em mero consumidor de produtos de alto valor agregado.

É nesse cenário que a luta dos trabalhadores da Avibras ganha ainda mais relevância. Ao enfrentar esses interesses e impedir a entrega imediata da empresa, a greve colocou um freio nesse processo e reafirmou uma saída oposta: a defesa da estatização sob controle dos trabalhadores. Não se trata apenas de uma reivindicação, mas de uma estratégia para impedir a destruição da indústria nacional e garantir que o conhecimento e a capacidade produtiva acumulados permaneçam a serviço do país.

Sindicato defende a estatização da Avibras | Foto: Roosevelt Cássio/Sindmetal SJC

ESTATIZAÇÃO SOB CONTROLE OPERÁRIO

O Estado sustenta, o capital controla

A trajetória da Avibras revela uma contradição central do capitalismo brasileiro: a dependência direta do Estado para viabilizar setores estratégicos. Ao longo de décadas, a empresa foi sustentada por projetos militares, financiamentos do BNDES e da Finep, incentivos fiscais e contratos com as Forças Armadas. Foi o dinheiro público que financiou pesquisa, inovação e maquinários e garantiu demanda, o que deve ocorrer, desde que esteja a serviço da soberania nacional.

No entanto, estudos do Ilaese mostram que, mesmo com esse apoio, a lógica do setor favorece a exportação da produção estratégica, enquanto o Brasil segue importando armamentos e aprofundando sua dependência. No presente, não é diferente: a retomada da Avibras depende diretamente de contratos públicos, em especial das encomendas do Exército.

Ou seja, o Estado financia, sustenta e garante mercado, mas o controle permanece em mãos privadas. Socializam-se os custos, enquanto decisões e lucros seguem subordinados ao capital. A crise da Avibras escancara que uma empresa estratégica não pode ficar refém de proprietários ou investidores. Se o Estado financia, o controle deve ser público.

A conquista arrancada pelos trabalhadores – o pagamento dos salários e a possibilidade concreta de retomada da produção – não encerra a luta, mas abre uma nova etapa. Demonstra, na prática, que a mobilização é capaz de alterar os rumos da empresa e impedir sua destruição. É a partir dessa vitória que se fortalece a perspectiva estratégica: a estatização da Avibras, sem indenização aos acionistas e sob controle dos trabalhadores.

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