Salvador, 477 anos: a cidade da beleza que convive com a desigualdade social
Diretório Municipal do PSTU – Salvador
Neste domingo (29), Salvador completa 477 anos. Cartão-postal do Brasil, é frequentemente apresentada como símbolo de cultura, alegria e diversidade. No entanto, por trás dessa imagem, existe uma realidade marcada por desigualdade profunda, violência e exclusão social. Expressão concreta das contradições do capitalismo em uma das principais metrópoles do país.
A começar pelo mercado de trabalho. Apesar da recente queda nos índices de desemprego, a situação segue crítica, conforme dos dados da PNAD Contínua do IBGE. Em 2025, Salvador registrou taxa de desocupação em torno de 8,5%, uma das mais altas entre as capitais brasileiras. Na Região Metropolitana, esse número se aproxima de 10%, permanecendo entre os piores do país.
Essa aparente melhora estatística esconde um problema estrutural: a informalidade. Na Bahia, mais de 50% da população ocupada está em trabalhos informais, sem direitos trabalhistas, estabilidade ou renda garantida apontam os dados da PNAD Contínua do IBGE 2025. Ou seja, milhares deixaram as estatísticas do desemprego, mas seguem vivendo na precarização.
A desigualdade social é outro traço central da cidade. Salvador está entre as capitais mais desiguais do Brasil, com um índice de Gini acima de 0,60, um dos mais elevados do país. Isso revela uma concentração extrema de renda, onde poucos acumulam riqueza enquanto a maioria enfrenta dificuldades básicas para sobreviver.
Essa desigualdade se expressa no território. Estima-se que cerca de 30% a 40% da população viva em assentamentos precários ou áreas de risco, como encostas e regiões sujeitas a alagamentos e deslizamentos, segundo o IBGE – Censo 2022. A ausência de políticas habitacionais empurra a população mais pobre para territórios vulneráveis, onde o direito à moradia segura simplesmente não existe.
Os indicadores educacionais também revelam exclusão histórica. A taxa de analfabetismo na Bahia gira em torno de 11% entre pessoas com 15 anos ou mais, quase o dobro da média nacional (dados da PNAD Contínua – Educação 2024 – IBGE). Em Salvador, embora menor, ainda permanece significativa, atingindo principalmente a população negra, idosa e periférica.
Os problemas urbanos se agravam com a ausência de saneamento básico. Segundo dados recentes do Instituto Trata Brasil, cerca de 10% a 15% da população de Salvador ainda não tem acesso regular à água tratada, enquanto aproximadamente 40% não conta com coleta de esgoto adequada.
Na prática, isso significa que centenas de milhares de pessoas vivem expostas a esgoto a céu aberto, contaminação da água e doenças evitáveis. O saneamento precário não é apenas um problema ambiental, mas uma expressão direta da desigualdade social: atinge principalmente as periferias, local onde Estado chega de forma incompleta ou simplesmente não chega.
A violência de gênero é outro retrato dessa realidade. A Bahia registra uma taxa de feminicídio próxima de 5 casos por 100 mil mulheres, colocando o estado entre os mais violentos do país (dados do Atlas da Violência). Em Salvador, os casos seguem essa tendência, atingindo majoritariamente mulheres negras e periféricas, evidenciando o cruzamento entre machismo, racismo e desigualdade social.
A população LGBTQIA+ também enfrenta níveis alarmantes de violência. Segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), o Brasil registrou 257 mortes violentas de pessoas LGBT+ em 2025, o equivalente a uma morte a cada 34 horas. No ano anterior, foram 291 casos, mantendo o país entre os que mais matam pessoas LGBTQIA+ no mundo.
As pessoas trans são as principais vítimas: somente em 2023, foram 145 assassinatos, sendo mais de 90% das vítimas mulheres trans negras e pobres. Na Bahia, embora não existam dados oficiais consolidados por cidade, o estado aparece recorrentemente entre os que concentram maior número de casos, evidenciando um cenário de violência estrutural, marcado por subnotificação e ausência de políticas públicas eficazes.
A violência urbana completa esse quadro. Salvador segue entre as capitais com maiores taxas de homicídio do país, com índices que giram entre 50 e 60 mortes por 100 mil habitantes. As vítimas têm perfil bem definido: jovens, negros e moradores das periferias. Isso expressa uma violência seletiva que acompanha as linhas da desigualdade social.

Cerca de 30% a 40% da população soteropolitana vive em áreas de risco | Foto: Foto: Divulgação/GovBA
Duas cidades
Salvador expressa uma contradição profunda: é ao mesmo tempo uma das cidades mais ricas culturalmente do país e uma das mais desiguais socialmente. Essa desigualdade não é abstrata. Ela tem endereço, classe e cor.
De um lado, uma elite concentradora de renda. No Brasil, o 1% mais rico concentra cerca de 24% a 27% de toda a renda nacional, segundo estudos baseados em dados da Receita Federal e análises recentes sobre desigualdade. Uma pequena elite vive cercada de infraestrutura, serviços e privilégios, enquanto a maioria enfrenta a precarização cotidiana.
Bairros como Vitória, Graça, Barra, Caminho das Árvores, Itaigara e Horto Florestal concentram essa riqueza. Nessas regiões, estão os imóveis mais valorizados da cidade, com acesso pleno a saneamento, mobilidade, segurança privada e equipamentos urbanos de qualidade.
Do outro lado, bairros como Subúrbio Ferroviário, Cajazeiras, Valéria, São Cristóvão, Sussuarana, Nordeste de Amaralina e Liberdade expressam a face da desigualdade: ausência de infraestrutura adequada, transporte precário, violência e negação de direitos básicos.
Essa não é apenas uma divisão geográfica. A histórica separação entre Cidade Alta e Cidade Baixa se transformou em uma divisão de classes sociais, onde o território define quem tem acesso à cidade e quem é excluído dela.
Essa segregação é fruto de um processo histórico. Salvador foi estruturada sobre a escravidão, e essa herança segue viva. A desigualdade na cidade tem cor: a população negra, maioria, é também a mais penalizada em todos os indicadores sociais.
Negros são maioria entre os desempregados, os trabalhadores informais, os moradores de áreas de risco e as vítimas da violência. Trata-se de uma desigualdade estrutural que combina classe e raça, reproduzindo, em novas formas, a lógica de exclusão herdada da escravidão.
Por isso, não basta afirmar Salvador como “capital afro”. É preciso enfrentar suas contradições. Defender uma Salvador verdadeiramente negra exige políticas concretas de reparação histórica ao povo negro, que garantam acesso real à moradia, à educação, ao trabalho digno e à cidade.
Sem isso, o discurso se transforma em marketing, enquanto a desigualdade permanece.
Chega de governos dos ricos
Essa realidade tem responsáveis. Salvador é governada há décadas pelo mesmo grupo político ligado à velha oligarquia carlista, herdeira de Antônio Carlos Magalhães, hoje representada por ACM Neto. São sucessivas gestões que mantêm uma cidade voltada para o turismo, para os grandes negócios e para a especulação imobiliária, enquanto a maioria da população segue abandonada.
No plano estadual, a lógica não é diferente. A Bahia é governada há quatro mandatos consecutivos pelo PT, que, usa do falso discurso popular, administra o estado sem romper com os interesses do capital.
Na prática, esses dois blocos políticos se igualam em um ponto fundamental: governam para os ricos!
Isso se expressa também na relação com o sistema financeiro. Casos recentes, como o Banco Master, amplamente divulgado pela grande imprensa mostra como diferentes governos mantêm relações estreitas com bancos e grandes grupos econômicos, incluindo operações de crédito consignado com servidores públicos, garantindo lucros seguros ao setor financeiro. É assim na prefeitura de Salvador e, também, no governo do estado.
Episódios envolvendo figuras centrais como Rui Costa e Jaques Wagner, além de lideranças da direita tradicional como ACM Neto, têm sido alvo de questionamentos públicos sobre relações com grandes interesses econômicos. Ainda que em diferentes contextos, revelam um padrão comum: a proximidade entre o poder político e o grande capital.
Enquanto isso, a população segue enfrentando desemprego, violência e negação de direitos básicos. Essa falsa polarização precisa ser superada.
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Uma saída socialista para Salvador e a Bahia
Diante desse cenário, não basta denunciar. É preciso apontar uma saída. A superação dessa realidade não virá das mãos dos mesmos grupos que governam para os ricos. Não virá da falsa alternância entre a velha oligarquia carlista e o PT.
É necessário construir uma alternativa independente, enraizada na classe trabalhadora, que não tenha rabo preso com empresários, banqueiros ou grandes grupos econômicos. Uma alternativa socialista.
Uma saída que enfrente de verdade a desigualdade, que rompa com a lógica do lucro acima da vida e que coloque a riqueza produzida pela classe trabalhadora a serviço da própria população.
É isso que o PSTU defende e constrói no dia a dia, nas lutas, nos locais de trabalho, nos bairros e nas ruas.
É com essa perspectiva que o partido se prepara para as eleições de 2026, apresentando a pré-candidatura de Hertz Dias à presidência da República, além de pré-candidaturas na Bahia, que serão apresentadas em breve.
Mais do que uma disputa eleitoral, trata-se de fortalecer um projeto de transformação profunda da sociedade. Uma Salvador e uma Bahia governadas pela classe trabalhadora, para a classe trabalhadora.
Pois como escreveu Jorge Amado, no livro Bahia de Todos-os-Santos: guia de ruas e mistérios de Salvador: “Este mundo está errado e é preciso refazê-lo para melhor. Porque não é justo que tanta miséria caiba em tanta beleza”.
É nosso dever revolucionar o mundo. Só em uma sociedade socialista “a alegria, a saúde e a fartura caberão na beleza imortal da Bahia”.
Junte-se ao PSTU nessa luta!