Debates

Os desafios da esquerda brasileira diante do governo Lula e da extrema direita

Joana Salay, de São Paulo

17 de abril de 2026
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Sob o impacto da crise do capitalismo, do desgaste do petismo, da decadência do regime de 1988, da recomposição da extrema direita e das mudanças na própria classe trabalhadora, a esquerda brasileira entra numa etapa de reorganização. Às vésperas das últimas eleições de Lula, cresce a disputa sobre quem herdará seu legado, como mostra a crise do PSOL em torno da federação com o PT. Mas a questão central não é quem ficará com o espólio do lulismo, e sim se a esquerda será capaz de superá-lo.

O projeto do PT baseado em conciliação de classes, adaptação ao regime e subordinação da organização dos trabalhadores à gestão do capitalismo é o que sustenta seu desgaste. Sem romper com isso, qualquer renovação tende a repetir os mesmos limites. É nesse terreno que se coloca o debate sobre os rumos da esquerda e o papel do PSTU.

O PT e a reorganização da classe trabalhadora

O PT tornou-se hegemônico porque, nos anos 1980, expressou a reorganização da classe trabalhadora. Surgiu ligado às greves do ABC, à crise da ditadura, ao novo sindicalismo, às Comunidades Eclesiais de Base e aos movimentos populares, canalizando esse processo. A CUT também foi expressão desse sindicalismo combativo e de massas, enfrentando o peleguismo e impulsionando a luta direta.

Na sua primeira década, o PT cumpriu um papel progressivo, impulsionado pelas lutas operárias e contra a ditadura, mais do que por uma orientação consciente de sua direção. Após a derrota de Lula em 1989, a corrente Articulação consolidou outro rumo: a conciliação com a burguesia e os patrões, definindo o caminho que o partido seguiria.

Da conciliação à crise do projeto petista

A Carta ao Povo Brasileiro (2002) marcou a virada: o PT garantiu ao mercado o respeito aos contratos, à dívida e à política econômica vigente, consolidando-se como gestor do capitalismo dependente. Seus governos combinaram políticas compensatórias com a preservação dos lucros dos bancos, do agronegócio e das multinacionais, sem romper com o imperialismo, sem fazer reforma agrária e sem enfrentar a estrutura desigual do país. Apoiado no ciclo de commodities, governou com a burguesia.

Ao mesmo tempo, a CUT e os sindicatos foram incorporados ao governo de forma progressiva, passando a conter mobilizações e reforçar a lógica de mudanças “por cima”. Quando vieram a crise econômica, o ajuste e os ataques, esse modelo mostrou seu limite. As jornadas de junho de 2013 expressaram esse esgotamento, com milhões nas ruas e uma crise de representação que o PT não soube responder.

A reconfiguração da classe trabalhadora, com precarização, informalidade e fragmentação, aprofundou essa crise, enquanto a extrema direita cresceu, apoiada na frustração social. Esse avanço não pode ser separado do papel do próprio petismo: ao administrar a crise sem romper com suas causas, manteve as condições que alimentam essa dinâmica. Por isso, enfrentar a extrema direita exige também enfrentar o projeto de conciliação de classes do PT.

O PSOL e a adaptação ao lulismo

 Guilherme Boulos, e presidente Lula. Foto Divulgação

O PSOL surgiu como uma ruptura à esquerda com o PT, impulsionado pela rejeição às reformas neoliberais do primeiro governo Lula. Por um período, ocupou um espaço como alternativa para setores que buscavam independência de classe. No entanto, seu desenvolvimento foi marcado pela concepção de partido amplo, no qual cabem revolucionários e reformistas, levando à adaptação à lógica eleitoral, à institucionalidade burguesa e à estratégia de conciliação.

Nos últimos anos, o PSOL passou a integrar a base de apoio do governo Lula, apoiando sua governabilidade e adaptando seu programa. Mesmo quando recua formalmente em iniciativas como a federação com o PT, mantém na prática a mesma orientação política: apoio ao governo e adaptação à frente ampla. A trajetória de Guilherme Boulos expressa esse processo. Projetado como renovação da esquerda, sua política se orienta para ocupar um espaço dentro do próprio lulismo.

Dentro do PSOL, correntes como o MES cumprem o papel de crítica parcial, mas sem romper com essa orientação. Mesmo quando apontam problemas, sustentam a política de frente ampla e alianças com setores burgueses, como no caso do Rio Grande do Sul, defendendo apoio a candidaturas ligadas ao PDT e justificando essas alianças pela correlação de forças. Na prática, isso significa aceitar acordos com partidos burgueses que aplicam privatizações e ataques aos trabalhadores, subordinando a independência de classe à estratégia eleitoral.

Assim, longe de representar uma superação do petismo, o PSOL tende a operar como parte da sua continuidade.

O neostalinismo e seus limites

O crescimento de correntes que se reivindicam comunistas, mas se colocam no campo da continuidade do stalinismo, como faz abertamente a UP e de modo indireto o PCBR, expressa a crise do petismo e a busca por uma alternativa mais radical. No entanto, essa radicalização é limitada por uma estratégia que não rompe com a conciliação de classes e a adaptação à institucionalidade.

A UP combina discurso combativo com uma política que evita uma oposição consequente ao governo Lula, diluindo a independência de classe em nome do combate à extrema direita e se aproximando da lógica de frente popular.

A crise recente do PCBR, com a ruptura do Jones Manoel, expressa a contradição de uma política que se reivindica revolucionária, mas acaba por hierarquizar tudo em troca de sua viabilidade eleitoral e institucional.

O real problema

O problema central: superar o projeto do PT

Grande parte da esquerda brasileira hoje não está buscando superar o petismo. Quer herdar sua base, seu eleitorado, sua influência e parte de seu espaço político. Uns de forma mais aberta, outros de forma mais crítica. Só que o problema do PT não se resolve trocando os administradores da conciliação. Não se resolve com uma versão mais jovem, mais ativista, mais radical no discurso ou mais comunista na estética. O que precisa ser superado é a estratégia da conciliação de classes, da adaptação ao regime e da substituição da auto-organização da classe pela confiança em governos, parlamentos e mediações institucionais.

Disputar o espólio do lulismo significa permanecer preso aos seus limites. Superar o lulismo significa reconstruir, em novas condições, um projeto de independência de classe e da revolução socialista.

O PSTU e a construção de uma alternativa revolucionária

O PSTU surgiu, em 1994, como expressão da necessidade de manter uma estratégia independente da burguesia e do reformismo diante da adaptação do PT e da crise de direção aberta no movimento dos trabalhadores. Sua construção buscou preservar um fio de continuidade com o classismo, o internacionalismo e a revolução socialista, em oposição à conciliação de classes e aos desvios burocráticos do stalinismo.

Ao longo de três décadas, o partido atravessou conjunturas distintas, dos governos FHC aos governos Lula e Dilma, passando por Temer e Bolsonaro, sem capitular nem ao neoliberalismo, nem aos governos de colaboração de classes, nem à frente ampla.

Esse percurso teve acertos importantes. O PSTU manteve a defesa da independência de classe quando grande parte da esquerda se integrou ao petismo; sustentou o internacionalismo proletário e a necessidade de um partido revolucionário enraizado na classe trabalhadora, na juventude e nos setores oprimidos. Foi vanguarda de processos importantes, como a construção da CSP-Conlutas, de lutas operárias, do movimento popular e estudantil.

Ao mesmo tempo, seria um erro fazer um balanço autoproclamatório. As rupturas recentes do nosso partido expressam respostas distintas: uma adaptação oportunista, como no caso do que hoje é a Resistência, do PSOL, e outra de caráter mais sectário, na ruptura recente, quanto às mudanças e aos solavancos da realidade no Brasil e no mundo. Mas também revelam limites nossos: dificuldade em compreender essas transformações da realidade e em traduzi-las numa orientação capaz de dialogar com a experiência concreta da classe.

Nesse processo, buscamos aprofundar o estudo do marxismo e da realidade, esforço que se expressa no Congresso Programático do PSTU neste ano de 2026. Esse congresso não encerra nossas elaborações, mas procura sistematizar orientações e tarefas para a construção da revolução socialista no Brasil hoje.

Um partido leninista

O caminho que o PSTU deve seguir não é o da disputa pelo espólio do lulismo. É o da construção paciente e combativa de uma alternativa revolucionária enraizada na classe trabalhadora. Isso exige reafirmar a independência de classe, integrar de forma estrutural a luta contra as opressões, manter a democracia operária e defender um internacionalismo consequente, sem capitular a nenhum imperialismo.

Por isso, a reconstrução de uma alternativa socialista exige partido. Não um agrupamento eleitoral, mas um partido revolucionário nos moldes leninistas: centralizado, com programa marxista, elaboração comum, disciplina consciente e intervenção organizada na luta de classes. Essa centralização, porém, só faz sentido se estiver profundamente ligada à vida concreta dos trabalhadores, às lutas sindicais, populares, estudantis e contra as opressões, articulando formação, propaganda e organização militante. Em outras palavras: um partido centralizado, mas vivo; firme na estratégia, mas inserido na experiência real da classe.

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