Painel debate um programa da classe trabalhadora para enfrentar a crise capitalista
A manhã deste terceiro dia do 6º Congresso Nacional da CSP-Conlutas, neste dia 20, foi dedicada ao debate sobre saídas da classe trabalhadora frente aos inúmeros desafios colocados pela crise capitalista. Tarefas que vão da luta contra a ofensiva imperialista contra os povos de todo o planeta, à crise climática provocada pelos grandes monopólios capitalistas, ao recrudescimento da exploração da classe com o ataque sistemático aos direitos e à ascensão da extrema direita.
Compuseram a mesa do painel “Um programa dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros frente à crise do capitalismo” representantes das principais correntes que constroem a CSP-Conlutas, além do convidado especial Plínio de Arruda de Sampaio Filho, professor aposentado da Unicamp e editor do Portal Contrapoder. Um debate que não escondeu a diversidade de forças políticas que compõem a central, mas que, ao contrário, garantiu a expressão dessas diferenças e, ao mesmo tempo, a reafirmação do caráter de independência de classe da CSP-Conlutas, o apoio às lutas da classe no país e no mundo, e uma estratégia socialista como horizonte.
“Capitalismo da catástrofe e da barbárie”

Plinio de Arruda Sampaio Jr Foto Maisa Mendes
Partindo da caracterização de um capitalismo em crise, cuja barbárie e o colapso ambiental são cada vez mais concretos, Plínio Sampaio Jr. reafirmou “a necessidade de colocar na ordem do dia a necessidade do comunismo”. Neste contexto, um programa dos trabalhadores “tem que dar resposta de longo, médio e curto prazo”.
Para Plínio, “nosso programa deve fundir três questões: a luta contra o imperialismo, a defesa dos trabalhadores frente aos ataques e a defesa ambiental”. Para isso, a classe trabalhadora deve enfrentar “o capital internacional, e seu parceiro interno que é a burguesia brasileira, que vive de destruir o meio ambiente, explorar os trabalhadores e vender o país”.
Nessa perspectiva de levar adiante um programa contra o capitalismo, Plínio defendeu a necessidade de se unificar a esquerda “contra a ordem”, e reunir forças políticas para disputar a consciência da classe trabalhadora para uma saída que supere o sistema. “Não há solução para os trabalhadores dentro da ordem, agora o que colocar no lugar do velho programa democrático-popular do PT? Um programa que questione o sistema como um todo, e isso significa colocar a ‘minhoca’ do comunismo na cabeça da classe trabalhadora brasileira”, afirmou.
Um programa de classe e uma alternativa revolucionária
“Atravessamos o Mar Vermelho quando todas as organizações da classe trabalhadora se bandearam para o outro lado e se atrelaram aos governos e aos patrões”. Foi com essa metáfora que Hertz Dias, do PSTU e que compõem o Bloco Operário Popular e Classista resumiu o último período enfrentado pela CSP-Conlutas. “Avisem ao padre para adiar a missa de sétimo dia, porque essa central está mais viva do que nunca”, provocou.
Hertz localizou a atual crise capitalista no marco da encarniçada disputa interimperialista pelas riquezas produzidas pelos trabalhadores em todo o mundo, e a tentativa de se retomar a taxa de lucro e rebaixar, cada vez mais, as condições de vida dos trabalhadores. Nessa nova ordem mundial, o Brasil sofre cada vez um processo de “decadência, desindustrialização, e um genocídio cada vez maior da juventude negra, dos quilombolas, o feminicídio e o transfeminicídio”.
Um processo que, se por um lado é imposto pelo imperialismo de fora, internamente é conduzido por “uma burguesia submissa lapidada por 400 anos de escravidão”. Ou seja, ao mesmo tempo em que impõe o projeto imperialista aqui, também impõe, à classe trabalhadora, a mais dura repressão e violência. Isso significa, para concretizar o papel do Brasil como exportadora prioritária de commodities colocada pelo imperialismo, bilhões para o agronegócio, e “ataques aos povos originários e quilombolas”.
Hertz Dias reafirmou que o projeto de frente ampla defendida pelo PT não pode reverter essa situação, mas o oposto, a aprofunda cada vez mais. “O PT fez algo muito perverso, que foi deseducar a classe trabalhadora, convenceram a classe a não confiar mais em suas próprias forças”, explicou. Essa política, junto à decadência do país, foi o “chorume que fortaleceu a extrema direita”.
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E o que fazer frente a essa situação? Para Hertz, “os indígenas do Tapajós deram a resposta: derrotaram a Cargill, a empresa mais poderosa do agronegócio, derrotaram o governo Lula, e também a direita e a extrema direita, que apoiam e defendem esse mesmo projeto”. Ou seja, a luta independente e a mobilização da classe trabalhadora para derrotar o projeto que o imperialismo e a burguesia querem impor ao país. Isso passa ainda por um programa que defenda a expropriação das 200 maiores empresas que controla a economia do país, possibilitando as reivindicações da classe trabalhadora, como o fim da Escala 6×1 com a redução da jornada sem redução dos salários, reforma agrária radical, demarcação das terras indígenas e quilombolas, entre outras demandas da classe trabalhadora e do povo oprimido.
Fazendo um convite à construção de uma alternativa revolucionária e socialista proposta por sua pré-candidatura, Hertz concluiu que os governos e projetos de colaboração de classes não pode ser o objetivo. “A nossa referência é Palmares, é a Cabanagem, é a Balaiada, são os operários do ABC paulista que enfrentaram e derrotaram com greve a ditadura militar”, defendeu.
Debates
O debate em torno das tarefas da classe trabalhadora hoje perpassou todo o painel, expressando nuances e diferenças entre as forças políticas. Michel de Oliveira, da CST, destacou as lutas que explodem em várias partes do mundo, como a luta contra Trump nos EUA, a resistência palestina e a Flotilha de apoio à Gaza “que a nossa central compõe”. Debatendo com posições como a do MRT (Nossa Classe), Michel reivindicou o apoio à luta do povo ucraniano contra a invasão e ocupação por parte da Rússia de Putin. No Brasil, criticou o que vê como a dispersão de forças em torno a três pré-candidaturas à esquerda do governo Lula.
Já Sílvia Letícia, da corrente Revolução Socialista (Unidos Pra Lutar), definiu o atual momento como uma “encruzilhada histórica”, que está sendo enfrentada por levantes dos trabalhadores em todo o mundo. “O reformismo não pode enfrentar essa demanda, é preciso unificar os revolucionários, os anticapitalistas, uma experiência nova para oferecer uma alternativa política”, defendeu.
Flávia Vale, do MRT, colocou a necessidade de se superar a polarização entre o governo Lula e a extrema direita. “Eles dizem que a única saída é apostar no mal menor, mas o problema é que de mal menor a mal menor, vai se construindo o mal maior”, afirmou. Como saída, apresentou a política de uma assembleia constituinte “livre e soberana”, eleita por sufrágio universal.
Congresso termina nesta terça, 21
Após intensos debates, realizados em paineis, grupos de trabalho e setoriais, garantindo a mais ampla democracia operária, o congresso passa à aprovação das resoluções. Nesta terça-feira, último dia do evento, deve ser eleita a nova Secretaria Executiva Nacional responsável por coordenar a central até o próximo congresso.