Mulheres

Da Red Pill ao Congresso Nacional: as novas formas do machismo no Brasil

PSTU Floripa,

22 de abril de 2026
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Manifestação contra o machismo e o feminícidio realizado no 6º Congresso Nacional da CSP-Conlutas | Foto: Phill Natal

O machismo ganha novas formas com o decorrer da História, mas seu conteúdo é sempre o mesmo. Os salários defasados para mulheres nas fábricas logo no engatinhar do capitalismo, dupla jornada de trabalho e a alta quantidade de suicídios entre mulheres – até mesmo da classe burguesa, como exposto no artigo Sobre o Suicídio, de Marx – persistem até hoje, mas as ferramentas para justificar essas opressões e o discurso ideológico que as “fundamenta” estão em constante mudança de forma.

O machismo e a misoginia já existiam muito antes do capitalismo, no entanto, jamais foram instrumentalizados de forma tão profunda para a manutenção de um sistema econômico como agora. Os novos métodos para garantir essa manutenção – a moda das “trad wifes” na internet e especialmente a ideologia Red Pill – assinalam cada dia mais o quão apodrecido está esse sistema e de como a superação da opressão das mulheres pode ocorrer somente pela superação no modo de produção e organização social capitalista.

A revolução socialista visa não apenas a tomada do poder pelo proletariado, mas também e acima de tudo à dissolução das classes, das opressões e do Estado como tal. Como bem disse Lenin em Estado e Revolução, o Estado nada mais é que um aparato com o propósito de exercer a opressão de uma classe sobre outra. Desvincular a questão da exploração da classe trabalhadora com a das opressões é impossível e inadmissível, pois é evidente que, por mais que as mulheres burguesas também sofram machismo, é de um modo diferente das trabalhadoras que se encontram em condições infinitamente mais precárias de vida, pois o fator da exploração se soma ao da opressão.

Tendo tudo isso em mente, o engavetamento da Lei da Misoginia e a comemoração dos deputados de direita, como o execrável Nikolas Ferreira (PL), por exemplo, é um acontecimento extremamente nefasto e absurdo para nosso país e para a situação das mulheres da classe trabalhadora. Contudo, não se pode ignorar o silêncio e descaso do governo Lula, dito “à esquerda” perante a esse retrocesso. Mais uma vez, o governo federal se mostra conivente com o machismo.

O que é a Lei da Misoginia

No dia 27 de março deste ano, o Senado aprovou o projeto de lei PL 896/2023, que equipara o crime de aversão às mulheres ao crime de racismo, onde prevê penas de dois a cinco anos de reclusão, além de multa.

A proposta se insere no conjunto de políticas de combate ao feminicídio, buscando proteger a dignidade e a vida das mulheres. Misoginia é definida, pela própria Agência do Senado, como “o ódio, aversão, desprezo ou preconceito enraizado contra mulheres e meninas, frequentemente manifestado através de violência, discriminação, objetificação sexual e hostilidade. Baseia-se na ideia de inferioridade feminina e reforça o machismo, podendo resultar em agressões físicas, psicológicas, morais e até feminicídio.”

O feminicídio é o estágio final dessa doença que se inicia com o ódio às mulheres. A Lei da Misoginia é uma conquista parcial que combate a opressão da mulher. O projeto de lei foi aceito com base no aumento crescente da violência doméstica e no assassinato de mulheres.

O engavetamento do projeto deixa explícita a conduta de deputados como Nikolas Ferreira de desprezo às mulheres, por mais que tente esconder isso com o discurso de que “qualquer coisa virará assédio” ou “vão contratar menos mulheres devido a isso”.

O projeto de lei foi retirado de pauta e enterrado dia 8 de abril no senado. Foi adiado para depois das eleições. O deputado Hugo Motta alega que essa é uma pauta que causa discórdia na casa. Bolsonaristas comemoram, mas enquanto isso, 4 mulheres estão sendo enterradas todos os dias e 13 escapam de tentativa de feminicídio por dia. Tudo isso em prol do discurso distorcido da direita a favor da “liberdade de expressão”, ignorando as mulheres vítimas dessa violência absurda e cotidiana.

A juventude

Em um estudo recente da King’s College London, é apontado que os homens da geração Z, que são os que nasceram em 1997 até 2012, concordam 2 vezes mais com falas machistas do que baby boomers, que são homens de 1946 até 1964, mostrando o aumento do machismo e o retrocesso da nossa sociedade. Esse aumento entre os homens das gerações atuais se dá pelo conteúdo Red Pill.

As novas formas de opressão contra as mulheres geram reflexos por toda a sociedade capitalista, na estrutura (classes sociais, Estado, economia, política) e na superestrutura (instituições, organizações, movimentos e partidos). Desse modo, isto se reflete até mesmo dentro da própria esquerda, dentro de nossas próprias fileiras. As formas atualizadas de disseminar o machismo e a misoginia se tornam cada vez mais camufladas, se escondendo no discurso de “pela família tradicional e os bons costumes” ou de que as mulheres seriam “privilegiadas” pela sociedade e pelas leis, por exemplo. É como um parasita que se apossa pouco a pouco de seu hospedeiro, influenciando seu comportamento ou o prejudicando em médio a longo prazo, deixando-o doente etc. Principalmente os mais jovens. A ideologia Red Pill, como exemplo, foi se alimentando pela Internet e expandindo seus tentáculos até chegar à vida real. Como resultado, a mais alta onda de feminicídios já registrada no Brasil está aí.

A lei sobre gênero em Santa Catarina

Para além disso tudo, como pegadinha de 1° de abril, em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello (PL) sancionou a Lei nº 19.776, que permite que pais proíbam seus filhos de participarem de atividades escolares sobre gênero.

Isso não é “liberdade”. Isso é censura. Essa lei abre caminho para perseguir professores, silenciar debates e impedir que temas fundamentais como machismo, LGBTfobia e desigualdade sejam discutidos nas escolas. Na prática, é um ataque direto à educação crítica e à liberdade pedagógica, semelhante ao PL Anti-cotas.

A negligência e política excludente de governos “progressistas” como os do PT e de Lula para com as questões LGBT+ e de gênero apenas dão mais espaço e reforçam a extrema direita com sua política discriminatória. Assim surgem estas leis eleitoreiras para a base política do PL.

Essa lei ataca:

– Estudantes LGBTI, que já sofrem violência e agora terão ainda menos espaço de acolhimento;
– Mulheres, ao impedir o debate sobre desigualdade de gênero;
– Professores, ameaçados com punições e perseguições;
– Toda a juventude, privada de uma formação crítica.

A lei impede, por exemplo, que professoras e professores tratem sobre educação sexual, para reduzir a gravidez na adolescência, denunciar a violência e o assédio sexual doméstico, etc.

Dividir para governar

O capitalismo se sustenta explorando e também dividindo a classe trabalhadora. Ao impedir o debate sobre opressões, essa lei reforça preconceitos e enfraquece a unidade entre trabalhadores e entre estudantes.

Sem enfrentar o machismo e a LGBTfobia, não há unidade real da classe!

Nem a família, nem o Estado devem censurar

Dar às famílias o poder de veto não protege os jovens. Muitas vezes, é dentro de casa que estão a repressão e a violência. Essa lei abandona justamente quem mais precisa de apoio.

Precisamos reagir:

– Defender a liberdade de ensinar e aprender!
– Defender o debate sobre gênero e opressões nas escolas, sobre machismo, questões LGBT+ e muito mais!
– Organizar estudantes, professores e trabalhadores contra essa lei nefasta!

O que fazer?

Nós do PSTU assinalamos que só a aliança entre trabalhadores e estudantes, assim como a unidade de toda a classe trabalhadora, pode barrar esses ataques!

Fazemos um chamado às entidades dos movimentos estudantis, sindicais, organizações e partidos políticos para, em unidade de ação, combater nas ruas, e não só nas eleições, a extrema direita e sua política, assim como para fazer oposição de esquerda ao governo Lula!

– Pela votação e sanção da Lei da Misoginia, já!
– Abaixo a ideologia Red Pill, o machismo e todas as formas de opressão!
– Jorginho Mello é inimigo dos professores e estudantes! Abaixo a lei sobre gênero em Santa Catarina!

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