A adesão do PSOL-RS à frente ampla liderada por Juliana Brizola (PDT)
Socialismo não rima com estratégias eleitoralistas
O diretório estadual do PSOL formalizou a entrada do partido na frente eleitoral que terá como candidata à governadora do Rio Grande do Sul Juliana Brizola (PDT).
O argumento utilizado é que se deve “superar as diferenças em nome do combate à extrema direita”. Mas o elemento central, evidenciado nos debates que justificaram a mudança da política da direção majoritária do PSOL-RS, são os cálculos eleitorais. Estar na frente com Juliana ampliaria a possibilidade de eleição de Manuela d’Ávila para o Senado e da bancada de deputados do partido.
Desta forma, dirigentes do PSOL-RS que ainda afirmam defender uma estratégia revolucionária, cada vez mais se moldam à lógica da disputa institucional, contrária aos ensinamentos de Lênin e Trotsky. O mesmo argumento de combate à extrema direita é usado para justificar a participação em frentes eleitorais com a burguesia, como a liderada por Lula, que, além de manter Alckmin como vice, foi ampliada com setores do agronegócio, como a empresária e pecuarista Kátia Abreu.
Os deputados estaduais do PSB, que também integram a frente ampla aqui do Rio Grande do Sul, votaram a favor do fim do plebiscito para privatização de estatais, da reforma da Previdência que retirou direitos dos servidores do estado e da privatização da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), da Sulgás e da Companhia Riograndense de Mineração (CRM).
A contradição no caso da aliança com Juliana Brizola é enorme, pois, além das evidentes ligações de seu partido com os agro bilionários, o PDT, que já havia participado do governo de José Ivo Sartori, integrou o governo de Eduardo Leite nos dois mandatos, saindo dos cargos que ocupavam no início do mês de abril deste ano, não por diferenças políticas mas por conta dos acordos eleitorais. Significa que foram cogestores da implementação do projeto neoliberal em nosso estado.
O argumento de compor frentes amplas para combater a extrema direita não se sustenta. Para isso basta olharmos o que aconteceu após três anos do governo Lula III ( fruto desta política de conciliação de classes). A gestão sócio-liberal de seu governo não muda as condições precárias de vida da grande maioria. O elevado endividamento das famílias não se dá por conta exclusivamente das bet’s, mas pelos juros absurdos dos bancos e pela inflação dos alimentos. Isto porque o governo, apesar dos discursos, não adota nenhuma medida prática de enfrentamento com os lucros dos monopólios capitalistas e do sistema financeiro. Este quadro favorece a extrema direita que se alimenta do descontentamento da população
Vivemos um capitalismo em crise e decadente. Os revolucionários, ou seja, os que têm a convicção que não há como consertar nem humanizar o capitalismo, e tampouco se chegará ao socialismo com mudanças graduais, não negam a importância da conquista de mandatos parlamentares. Porém, os mandatos são apenas um dos meios cujo objetivo final é despertar a consciência da maioria da população, explorada e oprimida. Ou seja, os mandatos só cumprirão seu fim se servirem para explicar e demonstrar, através da experiência prática, que as mudanças não virão por dentro das instituições, que é necessário se organizar e lutar contra o sistema capitalista e contra estas mesmas instituições.
Um mandato revolucionário hoje seria importantíssimo. O escândalo do Banco Master, que escancara as relações promíscuas de todas as instituições, inclusive dos governos e do Supremo Tribunal Federal (STF), poderia ser utilizado como um exemplo para fazer a denúncia de modus operandi destas instituições. De como, no Estado burguês, todos são marionetes dos interesses do grande empresariado e do sistema financeiro.
A resolução do PSOL, definindo como tarefa central para o ano de 2026 reeleger Lula e ampliar as bancadas de parlamentares do partido para “virar o jogo em favor do andar de baixo” , aumenta as ilusões de combate por dentro das instituições. O que pode colocar a grande burguesia na defensiva e conter o avanço da extrema direita é a luta organizada do conjunto da população como aconteceu contra a PEC da bandidagem e a favor do fim da Escala 6×1
Ao justificar abrir mão da apresentação de um programa e do princípio da independência de classe para garantir a eleição de parlamentares e a reeleição de um governo neoliberal como o de Lula, submete-se todo o restante à estratégia eleitoral. E como consequência desta postura adotada pela grande maioria da esquerda, a classe trabalhadora e a juventude continuam retrocedendo tanto na sua consciência quanto na sua organização.
Afinal, qual é o programa de Juliana Brizola e Pretto?
O deputado estadual Matheus Gomes, da corrente Resistência-PSOL e grande defensor do apoio à Juliana Brizola bem antes da intervenção da direção nacional do PT, afirmou em suas redes sociais que a frente ampla é estratégica e que a adesão do PSOL à candidatura de Juliana Brizola se dá com base em dois critérios: profundidade programática e necessidade política. Com base em alguns vídeos de pré-campanha publicados nas redes sociais podemos ver a “profundidade programática” de Juliana Brizola: “Governar não é ficar preocupado com ideologia”; “É necessário equilibrar capital e trabalho”; “Não sou contra a concessão dos pedágios. Mas a tarifa tem que ser justa”; “Não vai faltar incentivo, por parte do governo, para quem produz e gera emprego”; “O estado não pode ser um entrave do desenvolvimento”; “É fundamental investir nas estradas para garantir o escoamento da nossa produção”. Como podemos ver, são posições que mantêm incentivos ao grande empresariado, em particular ao agronegócio, não se opõe às concessões da rodovia e não combatem as ideias da extrema direita.
Matheus Gomes afirmou também que “as idéias radicais da esquerda serão representadas pelo Edegar Pretto, como vice de Juliana”. Quais são as idéias radicais de Edegar Pretto? Em todas as entrevistas e debates, ainda como pré-candidato do PT, Pretto afirmava que quer implementar aqui no Rio Grande do Sul o projeto que Lula implementa no país. Esse projeto pode ser sintetizado nas próprias palavras de Lula proferidas em Barcelona recentemente: “Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade”.
Apesar de falar em transição energética, Lula autorizou a prorrogação da Usina de Carvão de Candiota 3, na região da Campanha do nosso estado, até 2040, mesmo diante do colapso ambiental e da vulnerabilidade do nosso estado aos eventos climáticos. Uma medida provisória assinada pelo governo Lula que concede incentivos financeiros por meio do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), que é essencialmente um programa de desoneração fiscal para atrair mais datacenters, facilita o projeto de construção da “Cidade dos Data Centers” da empresa Scala, com altíssimo uso de volume de água e baixa geração de empregos comparada ao gasto energético.
Mesmo tendo se comprometido a retirar o Trensurb da lista de privatizações durante a campanha e início de seu mandato, o governo Lula segue com os estudos de modelagem para a privatização da empresa, conduzidos pelo BNDES, tendo o Sindicato dos Metroviários denunciado que o ministro Boulos segue ignorando os pedidos de uma audiência com os trabalhadores.
O Projeto de instalação de uma unidade da Companhia Manufatureira de Papeis e Celulose (CMPC) em Barra do Ribeiro, que além de expandir a monocultura de eucalipto, envolve uso intensivo de água, geração de resíduos químicos e riscos associados a compostos tóxicos do processo industrial não recebeu nenhuma oposição de juliana Brizola ou Edegar Pretto.
Portanto, se Lula colabora e defende esses projetos da burguesia: Candiota, CMPC, Cidade dos Data-centers ou Trensurb, Juliana Brizola pretende segui-los e Edegar Pretto não apresentou nenhuma “ideia radical” para se contrapor a eles.
Apoio crítico no primeiro turno?
Representantes do MES, corrente interna do PSOL, as deputadas Fernanda Melchionna, Luciana Genro e o vereador Roberto Robaina, antes categóricos em afirmar que não apoiariam Juliana Brizola e lançariam candidatura própria caso houvesse a intervenção da direção do PT, mudaram de posição com muita rapidez. Poucos dias depois da intervenção passaram a defender a entrada na frente eleitoral, apoiando criticamente Juliana para “evitar que o fascismo governe o Rio Grande do Sul”. Esta posição foi confirmada pelo diretório estadual do partido. A resolução do PSOL é bastante distinta do voto crítico, que pode ser uma tática legítima em situações específicas. Em um segundo turno para derrotar uma candidatura que represente ameaças às liberdades democráticas, por exemplo.
Zucco é o candidato que representa o que tem de pior no estado – é da tropa de choque bolsonarista, ultraliberal a lá governo Milei, e defenderá com unhas e dentes o projeto dos agrobilionários. E embora um setor da extrema direita pretenda mobilizar suas bases e, inclusive, atacar e destruir de forma violenta as organizações e lutas da classe trabalhadora (características, isto sim, de um movimento fascista), não significa que consiga, pois desejo e realidade são diferentes. Trump, o líder da extrema direita mundial, por exemplo, está muito desgastado neste momento , seja internamente nos EUA por conta das mobilizações crescentes dentro do país, seja por conta da encruzilhada na guerra contra o Irã.
E uma coisa é fazer unidade de ação – com qualquer um, inclusive setores burgueses e empresariais – contra eventuais ataques do imperialismo, como o tarifaço de Trump ou suas recorrentes ameaças de ingerência e intervenção, ou contra qualquer tentativa golpista da extrema direita como aconteceu no 8 de Janeiro.
Muito distinto da unidade de ação é compor uma frente eleitoral em que seus militantes aparecerão perante o conjunto da população defendendo um único programa, que se concretizará no voto em Juliana. E mesmo que o PSOL tenha apresentado uma carta com propostas programáticas (bem genéricas, aliás) o apoio à Juliana não está condicionado a um compromisso com estes pontos. O PSOL também afirma que não irá compor um eventual governo de Juliana. Mas lembremos que disse o mesmo durante a campanha que elegeu Lula, e hoje, além de compor sua base de sustentação, possui dois ministros no governo.
Para enfrentar a extrema direita é necessário a classe trabalhadora organizada com um programa de independência de classe e revolucionário
Por isto, nós, do PSTU, mesmo com todas as dificuldades impostas pela ausência de democracia nestas eleições, sem tempo em rádio e TV, defenderemos os interesses da classe trabalhadora e suas lutas, contra todos os governos e candidatos burgueses ou de conciliação de classes. Por isso apresentamos nossa pré-candidata a governadora Rejane de Oliveira. Pretendemos demonstrar que as ideias propagadas pela extrema direita e seu candidato Zucco servem ao sistema, aos bilionários, aos ruralistas e ao grande empresariado que mandam no estado e não aos trabalhadores. E que tampouco os demais candidatos burgueses ou de conciliação de classes como o de Lula representam qualquer saída para os trabalhadores.
Fazemos um convite aos simpatizantes e militantes do PSOL que concordam com nossas críticas a se somarem na construção do programa da pré-candidatura da Rejane. Nosso objetivo é utilizar este momento eleitoral para fortalecer e organizar nossa classe, buscando demonstrar que as saídas reais para os principais problemas e necessidades do povo pobre do nosso estado só são possíveis rompendo com as engrenagens deste sistema. Venha conosco.