Declarações

PSTU: Foi-se nosso camarada Jan Talpe, mas jamais o esqueceremos! Jan Talpe presente, até o socialismo, sempre!

Direção Nacional do PSTU

23 de abril de 2026
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Neste dia 23 de abril se foi Jan Talpe, aos 92 anos de idade, militante da LIT-QI, membro da Comissão de Moral Internacional, sábio, corajoso, camarada e ativo até o final.

Nosso camarada belga, da LCT (Liga Comunista dos Trabalhadores), se foi, mas o exemplo de coragem, combatividade, formação marxista, de entrega a um projeto revolucionário e socialista internacional, e, sobretudo, de enorme fraternidade e camaradagem ficou e ficará para sempre.

Quem teve o privilégio de conhecer Jan Talpe pôde aprender que sabedoria, formação marxista, lucidez, cultura, firmeza de princípios, coragem e exemplo de luta e de moral revolucionária, podem conviver com uma enorme generosidade, camaradagem e humildade. Um grande camarada e um grande ser humano, que contribuiu para a formação de muitos quadros revolucionários.

Nosso camarada belga, Jan Talpe, teve uma importante relação com o Brasil, antes mesmo de conhecer e decidir militar na nossa corrente morenista.

Jan chegou ao Brasil em janeiro de 1965. Na época, sacerdote e doutor em física pela Universidade Católica de Lovaina, não encontrou nenhuma dificuldade para entrar no país. Para o setor de migração brasileira, o padre era mão de obra qualificada estrangeira, contratada pelo arcebispo de São Paulo, Don Agnelo Rossi, para ser professar de ensino religioso.

Em meados de 1965, Jan Honoré Talpe conseguiu uma bolsa da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), na área de ressonância paramagnética, o que possibilitou o contato com a Escola Politécnica da USP. Em seguida, foi contratado como docente da Universidade.

Morando no CRUSP (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo), Talpe começou a conhecer as demandas estudantis e a apoiar e atuar nas lutas no interior da universidade. No mesmo prédio e andar do belga morava Paulo Krischke. Ambos, por meio do contato com os estudantes, passaram a integrar clandestinamente a Ação Popular (AP).

Em julho de 1967, tentando impedir a realização do congresso da UNE (União Brasileira dos Estudantes), a Polícia Militar invadiu o Bloco F do CRUSP e expulsou violentamente os estudantes. Embora não tenham subido ao quarto piso, onde se alojavam os docentes, Talpe e Paulo desceram para tentar impedir a truculência. Acabaram detidos e, logo após, liberados.

Em 1968, após o CRUSP ser cercado pela Polícia Militar, Jan e alguns amigos foram morar em uma casa próxima à USP. Pouco tempo depois, convencido da necessidade de atuar no movimento operário, Jan foi morar em um bairro operário, em Osasco, junto com o Padre Antônio Soligo, passando a participar da vida e das lutas do lugar.

No entanto, em razão de seu envolvimento com o movimento operário, foi preso logo no início de 1969.

Jan, junto com outros militantes, foi preso por seis meses no DOPS/SP, justo sob os anos de chumbo de Costa e Silva e, depois de uma grande campanha internacional, foi deportado, expulso do Brasil por se envolver na luta contra o regime autoritário. Na época, era padre e professor da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo).

No cárcere, Jan Talpe conheceu diversos militantes e as lutas que estavam em curso contra o regime e pela libertação dos presos políticos. Depois de seis meses na prisão, perdeu seu emprego de professor na USP e, depois de ampla campanha internacional, foi deportado, expulso do país, em 8 de agosto de 1969.

Fora do Brasil, continuou sua atividade política contra as ditaduras latino-americanas. Junto com outros companheiros, formou a FBI (Frente Brasileira de Informações), que possuía seções em vários países; organizou a assistência para exilados brasileiros e chilenos; participou da organização do movimento de boicote ao Brasilian Export de 1973, na Bélgica; ministrava palestras para a juventude e estava à frente de diversos atos pela democracia.

Entre eles, merece menção os ocorridos no teatro de Piccolo, em Milão, e no la Mutualité, em Paris. Este, realizado em 15 de janeiro de 1970, reuniu representantes de partidos políticos, sindicatos e personalidades da esquerda mundial. George Casalis, professor da Faculdade de Teologia de Paris, presidiu a cerimônia, da qual participaram da mesa Miguel Arraes, Jean-Paul Sartre, o advogado Jean-Jacques de Félice, Michel de Certau – padre jesuíta redator da revista Notre Combat–, Pierre Jalée – presidente do Comitê de Defesa da revista Tricontinental –, Lengi Maccario – Secretário-geral da Federação Italiana de Metalúrgicos – e Jan Talpe.

Retornou à América Latina, morou na Argentina e, no marco da guerra das Malvinas, se envolveu com a LIT e o MAS.

Com os eventos do Leste, junto com sua companheira Loli e filhos, se dispôs a ir viver na Alemanha Oriental. Falava vários idiomas e ajudou imensamente a equipe da LIT no Leste Europeu. Escreveu um livro importantíssimo, que devemos ao público brasileiro uma edição em português pela editora Sundermann, sobre os Estados Operários Burocráticos do Leste Europeu ,“Los Estados Obreros del Glacis”.

Já na LIT, convivemos muito com Jan Talpe, que retornou ao Brasil várias vezes. Muitos de nós, pudemos também conviver com ele em várias reuniões virtuais, ou mesmo nos hospedarmos na sua casa na Bélgica, se em alguma atividade internacional.

Os advogados do Coletivo dos Presos e Perseguidos Políticos da ex-Convegência Socialista entraram com um pedido de anistia para Jean Talpe. Em 2014, porém, ainda sob o governo Dilma, Jean Talpe foi retido no aeroporto de Guarulhos, impedido de entrar no Brasil, por uma lei de 1969, o que exigiu uma liminar e uma mobilização para derrubar o absurdo de uma lei dos anos de chumbo impedir Jan de entrar no Brasil em 2014.

Em 2016 ele teve seu processo de anistia julgado favorável, mas teve sua portaria negada, sendo o recurso a essa negação julgado apenas em 2025.

Apenas recentemente, em janeiro de 2026, o Estado brasileiro outorgou a anistia a Jan Talpe.

Como podem ver na nota da LIT, a partida de Jan Talpe foi consciente e nos deixa uma mensagem de luta, de camaradagem e se despede de nós com um sorriso.

Nós choramos a sua perda, mas nos inspiramos na sua vida, que honra a nossa história.

Em nome de toda militância do PSTU do Brasil enviamos um grande abraço a todos e todas camaradas da seção Belga e aos filhos de Jan Talpe, e também a todos e todas nossas camaradas da LIT-QI em todo o mundo.

Camarada Jan Talpe, presente! Não te esqueceremos. Até o socialismo, sempre!

Comitê Executivo do PSTU-Brasil

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