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A encruzilhada da classe trabalhadora e a federação REDE/PSOL em Recife

Caio Marx, do Rebeldia

7 de março de 2024
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27.05.2021 (Instagram/Reprodução)

Nos últimos dias o partido Rede-Sustentabilidade da Ministra do Meio Ambiente Marina Silva, lançou o atual deputado federal Túlio Gadêlha como o pré-candidato do partido à prefeitura do Recife. Desta forma, a atual federação Rede/PSOL possui dois pré-candidatos à prefeitura do Recife: Dani Portela, atual deputada estadual pelo PSOL em Pernambuco e o Túlio da REDE.

Antes de explanar um pouco sobre as duas pré-candidaturas é importante compreendermos o sistema de federação partidária que é muito pouco abordado e conhecido pelos trabalhadores.

Federação partidária, que danado é isso?

A federação partidária foi instituída a partir da LEI Nº 14.208, DE 28 DE SETEMBRO DE 2021 e aprofunda ainda mais o atrelamento dos partidos políticos à institucionalidade burguesa pois a federação é uma união entre os partidos por durante quatro anos estes devem disputar as eleições de forma conjunta e também de forma conjunta construir o programa político, neste caso, a federação é composta geralmente por partidos que possuem afinidades político-ideológica e é uma ferramenta para partidos menores e ameaçados de perder o fundo partidário garanti-lo unindo-se a legendas “maiores” eleitoralmente. A federação partidária portanto é produto da dependência dos partidos políticos à institucionalidade burguesa para manter-se financeiramente garantindo o fundo partidário e eleger bancadas parlamentares maiores no congresso nacional e com isso ter outros privilégios como mais tempo de televisão.

Nesse sentido, a federação simpatiza tanto setores da “esquerda” como da direita. Com isso, a federação do PSOL e da REDE no ano de 2022 expressa a agudização do processo de institucionalização do PSOL há institucionalidade burguesa e defensor da democracia dos ricos, distanciando-se do projeto socialista e revolucionário

Federação Rede/Psol: na teia dos interesses burgueses

O PSOL, que surgiu da ruptura em 2006 do PT, devido à reforma da previdência do governo Lula que atacou os servidores públicos, vem traçando uma política de alinhamento político ao PT e ao Lula. E para fortalecer sua bancada no congresso nacional e obter maiores recursos do fundo partidário construiu uma federação com a Rede-sustentabilidade, partido alinhado diretamente à burguesia e financiado por empresários como Guilherme Leal, dono da Natura e Maria Alice Setubal herdeira do banco Itaú que são amigos próximos da atual ministra Marina Silva, inclusive o empresário Guilherme Leal foi candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva em 2014. A rede-sustentabilidade é um partido burguês-empresarial que ideologicamente defende o capitalismo verde e vende a ilusão de que é possível desenvolvimento sustentável dentro da sociedade capitalista, dessa forma, a Rede defende que é possível, por exemplo, defender os povos indígenas sem enfrentar os bilionários capitalistas que exploram os minérios do nosso país jorrando mercúrio nos rios e infectando os povos indígenas como recentemente demonstrou os pesquisadores da FIOCRUZ que verificaram que existe uma grande quantidade de mercúrio, substância altamente perigosa e mortífera, nos corpos do povo Munduruku, além disso, acham também ser possível resolver a crise no território Yanomami e a devastação da floresta Amazônica somente fortalecendo a legislação ambiental e a exploração de forma “sustentável” dos recursos naturais. Ora, sendo assim, como que o Psol que surgiu como um partido reformista de oposição e se colocava como a “esquerda” do PT e sempre se posicionou como a ala crítica do reformismo formou uma federação com um partido da ordem burguesa como a Rede-sustentabilidade?

O PSOL vem cada vez mais alinhando-se aos interesses da burguesia a partir de um alinhamento político com o PT, o partido conquistou grandes bancadas parlamentares no país, inclusive elegendo prefeitos como na capital Belém-PA, e vem se conformando à institucionalidade burguesa, além do alinhamento político ao PT e ao rápido crescimento na eleição de parlamentares, a cereja do bolo foi a federação do Psol com a Rede-sustentabilidade o que lhe dá apoio direto de um setor da burguesia brasileira e lhe garante ainda mais fundo partidário. A lógica do Psol gira em torno de um projeto eleitoral e para isso o apoio mais amplo possível dos partidos da ordem burguesa e com a burguesia é fundamental, por isso ele surge como um partido de oposição e se transforma logo em seguida em um partido que se integra cada vez mais à institucionalidade burguesa, não é à toa que Guilherme Boulos vem tentando se distanciar dos movimentos sociais para se tornar um candidato mais palatável à burguesia paulista para tentar se eleger prefeito de São Paulo. Então, a partir da federação com a Rede o psol forjou alianças com o setor empresarial e assim caiu na teia dos interesses burgueses, iludindo a juventude e movimentos sociais, negras e negros, LGBTI+, povos indígenas e quilombolas com um discurso de representatividade na política mas com um conteúdo empreendedor e capitalista totalmente alinhado aos interesses burgueses. Nesse sentido, o PSOL jamais poderá ser consequente na luta contra as opressões o racismo, lgbtfobia, machismo e a violência contra os povos indígenas e quilombolas pois estar do lado do governo Lula e possui ministérios no governo com Sônia Guajajara no Ministério dos Povos Originários, por isso o PSOL por exemplo não se posicionou contra a reforma tributária do governo Lula/Alckmin que manteve a maior parte da tributação sobre os mais pobres e trabalhadores e não taxou os mais ricos e bilionários. O PSOL agora é conivente com as ações do governo e costurou um importante apoio com a burguesia ao fechar a federação com a Rede-sustentabilidade. Além disso, na federação os partidos dividem o mesmo candidato majoritário nas eleições e também o mesmo programa, logo a federação com Rede conformou o programa político do partido aos interesses da burguesia por quatro anos e que pode ser prorrogado.

Túlio Gadêlha ou Dani Portela representam os trabalhadores da cidade do Recife?

Túlio Gadêlha no seu lançamento à pré-candidatura contou com a presença de deputados estaduais do PT como João Paulo, ex-prefeito do Recife, e Rosa Amorim além de Paulo Rubem (REDE), Jôenia Wapichana (REDE) presidenta da FUNAI e claro, a ministra Marina Silva. Túlio Gadêlha apoia a atual governadora Raquel Lyra (PSDB) e está na base de apoio também do atual governo Lula. Além disso, recebeu o apoio do seu antigo partido, o PDT para a disputa do pleito. Já Dani Portela foi a vereadora mais votada nas últimas eleições municipais e recebeu principalmente o apoio dos trabalhadores cansados da gestão do PSB e da juventude negra e periférica para as eleições para deputada estadual para ser oposição tanto ao PSB quanto ao bolsonarismo. No entanto, Dani Portela é líder de oposição ao governo Raquel Lyra junto com o PSB de João Campos e o Partido Republicanos de extrema direita. Dani Portela, portanto, traiu sua própria base aliada e promessa de campanha e além do mais vai compor um programa político com a Rede-sustentabilidade. É por isso afirmamos que nem Dani Portela nem Túlio Gadêlha vão defender um programa dos trabalhadores para a prefeitura do Recife que combata os projetos de privatização via PPPs, que enfrente as bilionárias construtoras e construa uma oposição popular e dos trabalhadores ao atual prefeito João Campos principal responsável por Recife ser uma das capitais mais desiguais do Brasil.

Recife precisa de uma Alternativa de oposição de esquerda, socialista e revolucionária

Por ser base de apoio do governo Lula e possuir ministérios no governo, a federação REDE/PSOL jamais vai enfrentar até as últimas consequências os ataques à classe trabalhadora vindos do governo nesse primeiro ano, no entanto, Dani Portela e Túlio Gadêlha passam a ilusão de ser uma alternativa ao PSB à prefeitura. E aí está a grande encruzilhada para a classe trabalhadora hoje do Recife pois Dani Portela e Túlio Gadêlha não representam a oposição a João Campos e o PSB em Pernambuco, justamente por ter seus partidos na base de apoio do atual governo junto com o PSB e o pior é que o pré-candidato da Rede que faz federação com o PSOL apoia o governo Raquel Lyra. É necessário construir uma oposição de esquerda ao governo Lula, ao governo Raquel Lyra e ao atual prefeito João Campos e para isso não podemos ter na base apoio representantes da burguesia e dos bilionários desse país. Precisamos ser consequentes na luta dos trabalhadores e em defesa de um programa socialista e revolucionário, para isso, não podemos conciliar com os grandes empresários nem apoiar os governos burgueses seja ele quem for. Este é o grande desafio da luta dos revolucionários e dos trabalhadores no Brasil hoje, construir um campo de oposição de esquerda e dos trabalhadores aos governos burgueses e e por apoiarem estes governos nem Dani Portela e nem Túlio Gadêlha representam, portanto, uma alternativa para a classe trabalhadora do Recife.