A fuga de Flávio e as demissões e perseguições de trabalhadores

Luiz Carlos Prates (Mancha), de São José dos Campos (SP)
A fuga de Flávio e as demissões e perseguições de trabalhadores
O ex-candidato e atual fugitivo, Flávio Bolsonaro, e o presidente dos EUA, Donald Trump Foto X

A semana que se iniciou após a reviravolta eleitoral brasileira, marcada pela intensa mobilização popular e pela vitória de Lula, também foi marcada por outros dois acontecimentos: a fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA, alegando viver em uma “ditadura” e acusações sem provas de que as eleições foram fraudadas; e uma onda de demissões e perseguições a trabalhadores que votaram no 13, promovida por diversas empresas e impulsionada por uma campanha nas redes bolsonaristas.

A queda das bolsas e a alta do dólar também marcaram o período, mas não serão objeto deste artigo. Queremos destacar os dois primeiros acontecimentos, aparentemente distintos, mas que revelam duas faces da mesma moeda: a questão de classe.

Flávio Bolsonaro alega viver em uma suposta ditadura. No entanto, acabou de disputar uma eleição presidencial com mais de dez candidatos, chegou ao 2º turno e recebeu centenas de milhões de reais dos cofres públicos para fazer sua campanha. Viajou pelo Brasil, usufruiu de centenas de horas de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão e contou com segurança paga pelo Estado. Apesar do suposto favoritismo, perdeu a eleição. Fica difícil acreditar nessa narrativa de perseguição política diante de todas as garantias de que dispôs durante a disputa.

Se há organizações políticas com motivos para denunciar o caráter antidemocrático e desigual das eleições, são organizações de esquerda como o PSTU, UP, PCB, PCO que não tiveram condições minimamente iguais de participação. Seus candidatos não contaram com tempo de propaganda na televisão, tiveram participação rara em entrevistas, foram excluídos dos debates e não dispuseram de recursos eleitorais vultosos.

Ainda assim, mesmo reconhecendo o caráter burguês e distorcido das eleições e denunciar as desigualdades do sistema eleitoral, isso não se confunde com a tentativa de deslegitimar o resultado das urnas. Não somos nós que deixamos de reconhecer a vontade expressa na votação, mas sim Flávio Bolsonaro, que disputou a eleição com todas as garantias institucionais e eleitorais dessa democracia burguesa, e mesmo assim aposta em uma nova aventura golpista.

Tampouco fazem sentido suas alegações de perseguição política como justificativa para a operação dos governos de Donald Trump e Javier Milei para retirá-lo do país. Essa iniciativa, assim como a ingerência política do governo norte-americano no processo eleitoral, reforça a pretensão imperialista dos EUA de tratar o Brasil como se fosse seu quintal.

As acusações que pesam contra Flávio não dizem respeito ao processo eleitoral, nem à defesa dos direitos democráticos, mas às graves suspeitas de corrupção investigadas pela Polícia Federal.

Por outro lado, enquanto Flávio Bolsonaro denuncia uma suposta ditadura e conta com recursos e proteção para deixar o país, a realidade dos trabalhadores expõe outra face da democracia brasileira.

As demissões de pessoas que supostamente votaram no 13 ou “fizeram o L”, que vem sendo denunciadas amplamente nas redes sociais e já monitoras pelo Ministério Público do Trabalho, demonstram que as liberdades democráticas não chegam plenamente ao interior das fábricas, das lojas e dos bancos, nem durante, nem depois das eleições.

Para quem vive do próprio trabalho, a participação política pode custar o emprego. Um trabalhador não pode demonstrar abertamente suas preferências políticas sem correr o risco de sofrer represálias, especialmente quando sua atuação está vinculada a uma organização revolucionária, como o PSTU.

Dezenas de inquéritos e reclamações trabalhistas evidenciam essa realidade. Nas empresas, o poder de demitir permanece nas mãos dos patrões e dos monopólios, que podem usar essa prerrogativa para intimidar e restringir a liberdade política dos trabalhadores.

E mesmo aquele que, equivocadamente, apoiou e votou em Flávio Bolsonaro não está livre dessa realidade. Afinal, a ameaça de demissão e a exploração patronal não escolhem o voto de quem depende do salário para sobreviver.

Essa negação de direitos não se limita aos locais de trabalho. Nas periferias, mulheres, jovens negros e pessoas LGBTQIA+ também enfrentam cotidianamente a violência policial e a falta de garantias para exercer seus direitos.

A democracia formal não impede que a desigualdade social e o poder econômico determinem quem pode exercer suas liberdades e quem está sujeito à repressão. Se alguém pode denunciar uma ditadura de classe, são os trabalhadores.

Os dois acontecimentos se cruzam e escancaram a luta de classes. Enquanto trabalhadores são demitidos por suas opções políticas e perdem inesperadamente sua fonte de sustento, Flávio Bolsonaro deixa o país em um jatinho, acompanhado pela família e sob proteção estrangeira.

Os direitos democráticos não podem ser considerados plenos enquanto os patrões mantiverem o poder de punir trabalhadores por suas posições políticas e enquanto a violência policial continuar atingindo as populações mais vulneráveis.

A defesa das liberdades democráticas exige enfrentar essas desigualdades e garantir que os trabalhadores possam se organizar, se expressar e lutar sem medo de perder o emprego ou sofrer repressão.

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