A história de um trabalhador por trás dos 1280 dias de greve na Avibras
Após 41 anos dedicados ao desenvolvimento e homologação de produtos que colocaram o Brasil no mapa da tecnologia de defesa mundial, o metalúrgico Hélio Augusto Souza Lino viu sua vida virar pelo avesso. O que antes era uma rotina de trabalho diário na Avibras, em Jacareí (SP), transformou-se, a partir de março de 2022, em uma luta diária pela sobrevivência básica.
O relato de Hélio é um retrato emocionante do impacto social da crise em uma das principais industrias bélicas do país. Foram 1.280 dias de greve, encerrada no último dia 11 de março, em assembleia que aprovou o pagamento parcelado da dívida trabalhista e um plano de retomada das atividades da empresa.
Durante esse período, com o início do processo de recuperação judicial da empresa e sem receber salários, Hélio e sua família enfrentaram o desafio de sobreviver e honrar contas que não paravam de chegar, recorrendo a “bicos” e até à venda de bens pessoais para garantir o alimento na mesa.
“Cortamos a internet a TV a cabo”, relembrou o trabalhador, ressaltando que a dignidade foi mantida, em grande parte, pela solidariedade do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e região e de colegas de outras empresas, como a GM, que doaram dinheiro para comprar cestas básicas quando o convênio médico e o acesso a compra de remédios já não existiam mais. Além do prejuízo financeiro, a crise deixou cicatrizes emocionais profundas. Hélio narra a perda de noites de sono e o falecimento de amigos.
Contudo, o acordo de pagamento da dívida trabalhista e a transferência da empresa para um interventor, o advogado e empresário Fábio Guimarães Leite, que assumiu a condução da empresa após a aquisição das ações por meio da Vita Gestão e Investimentos, desenhou um novo horizonte.
Um dos mais antigos trabalhadores da Avibras, Hélio será um dos que serão recontratados na retomada das atividades da empresa. Para ele, a esperança é de que a Avibras volte a ser uma potência da indústria de defesa nacional e internacional e os tempos melhorem para os trabalhadores.

Em salão lotado, trabalhadores da Avibras aprovam proposta – Foto: Roosevelt Cássio
Entrevista
“Foram anos de sacrifício e luta, mas a vida volta a sorrir para nós”
Opinião Socialista: Hélio, você completou quatro décadas na Avibras. Como foi receber a notícia da demissão após tanto tempo de dedicação?
Hélio Augusto: Foi muito difícil. Depois de 41 anos de casa, de receber tantos “parabéns” e agradecimentos por conquistas da empresa no Brasil e dos trabalhos realizados lá fora, recebi uma cartinha através dos Correios, dizendo que estava demitido e que não precisava mais comparecer, exceto para o exame médico. Felizmente, o sindicato conseguiu reverter as 420 demissões que eram ilegais, mas o retorno não foi fácil.
Como o senhor e sua família conseguiram se manter durante esses anos sem salário?
Ficar sem salário é algo terrível. As contas chegam, tem escola, comida, remédio, impostos como IPVA, IPTU. Foi um período muito triste em que tive que fazer bicos para manter o básico. Começamos a vender tudo o que dava dinheiro em casa: do carro a brinquedos e o teclado da minha filha. A minha esposa vendeu roupas em brechós. A internet e a TV foram cortadas. Foi na base do sacrifício e também da solidariedade. O que nos ajudou muito e evitou de enfrentar a fome foram as campanhas lideradas pelo sindicato e a ajuda de outros trabalhadores, como os metalúrgicos da GM, que doaram dinheiro para comprar cestas básicas.
Qual foi o impacto mais difícil de lidar além da questão financeira?
O impacto emocional e na saúde. Ficamos sem convênio médico e, às vezes, sem remédios que não conseguíamos pelo SUS. Vi amigos partirem, casamentos acabarem e crianças ficando sem festas de aniversário ou de final de ano. Isso abala muito o psicológico. Hoje peço sabedoria para reconstruir o que perdi.
Você mencionou que a mobilização foi essencial. Como vê o papel do sindicato nesse processo?
Não é fácil mobilizar as pessoas. Mas o sindicato foi o nosso guia, não deixou sequer um dia de manter viva nossa esperança, de buscar nossos salários atrasados e também fazer com que a Avibras voltasse a funcionar. Durante esse tempo éramos em torno de 100 trabalhadores mais na linha de frente da mobilização. As assembleias, as idas para São Paulo, na ALESP, para Brasília, na Câmara dos Deputados e no governo, para cobrar ajuda, e as passeatas, foram fundamentais para chegarmos à vitória atual. Foram 1.280 dias de greve, mas também de vigília na porta da fábrica, visando a proteção do maquinário, equipamentos e material tecnológico e a garantia dos nossos direitos. Sem essa luta, não teríamos alcançado essa proposta de agora.
Hélio, você também decidiu se filiar ao PSTU. Por que tomou essa decisão?
Eu me filiei ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado porque, nos momentos mais difíceis, foi quem esteve ao nosso lado sem medir esforços. Enquanto outros partidos nos deixaram sem resposta quando mais precisávamos, o PSTU esteve presente, apoiando de verdade, na prática. Isso me fez enxergar quem de fato veste a camisa dos trabalhadores da Avibras, nos apoiando e defendendo. Minha filiação vem do reconhecimento e da confiança em quem não abandonou a luta.
Qual a sua expectativa para o futuro da Avibras e da indústria de defesa brasileira?
A proposta aprovada, embora menor do que o esperado, funciona como uma indenização social parcelada, o que vai me permitir planejar a vida e pagar a escola da minha filha. Eu acredito também que a Avibras voltará a ser gigante. Temos tecnologias que poucos países têm, como o Sistema Astros, podemos fabricar o propulsor do motor S50 desenvolvido para o programa espacial brasileiro, com objetivo de colocar pequenos satélites em órbita com parcerias. Temos laboratórios de testes de vibração únicos na América Sul.
O Brasil precisa valorizar sua soberania e seus equipamentos de defesa para não depender de países estrangeiros. Os governos não ajudaram neste retorno da Avibras, mas espero agora que os governantes realmente injetem recursos para que a empresa continue a rodar a pleno vapor. Nós, trabalhadores, estamos prontos para fazer isso acontecer. Depois de tanto tempo, sinto que a vida vai voltar a sorrir para nós.