A pseudo-esquerda e o canto da sereia que fortalece o ovo da serpente
Recentemente, o Portal Vermelho (PCdoB) publicou um artigo chamado “O canto da sereia do isolacionismo esquerdista“.
O discurso base de sustentação do governo de frente ampla e conciliação de classes, representado pelo governo Lula, que arrasta amplas lideranças dos trabalhadores, é o que permite a manutenção da exploração econômica do conjunto da classe trabalhadora pela burguesia, utilizando o apelo extremo de perigo de ascensão da extrema direita ao poder e o consequente risco de perda das liberdades democráticas burguesas, como o próprio direito de voto.
É como se vivêssemos num teatro em que, no script da peça, cabe à extrema direita anunciar, com terror e personificação do “mal”, o fim do direito ao voto dos pobres, como o fez o Deputado Federal Paulo Bilynskyj (PL-SP).
Por outro lado, nesse teatro do absurdo, caberia pelo lado do “bem” às chamadas “forças progressistas” de “esquerda” ou não, o papel de garantir a manutenção na medida do possível – e não mais do que isso – das liberdades democráticas e cedendo com velocidade variável, no atacado ou no varejo, os direitos sociais e econômicos do conjunto da classe trabalhadora, conquistados ao longo de séculos de luta. A CLT e a Previdência Social são exemplos concretos do resultado dos embates sociais travados no decorrer, especialmente, do século XX.
Como no masdeísmo, fundado pelo profeta Zoroastro, que criou e difundiu o dualismo entre o bem (luz/verdade) e o mal (trevas/mentira), tanto essa pseudo-esquerda, quanto essa extrema direita, se retroalimentam desse jogo, a fim de perpetuarem-se como únicos personagens possíveis e viáveis, para a assunção do poder e direção do destino social dos trabalhadores, no plano nacional, com influência e repercussão internacional.
O rolo compressor do capitalismo tem arrastado partidos afinados com a esquerda de formação marxista, frações partidárias, correntes, coletivos inteiros, militantes e indivíduos identificados com a chamada intelectualidade, para o campo tratado como “progressista” da burguesia nacional.
Esse campo progressista da burguesia nacional é bastante amplo e contempla matizes muito diversas. Dentre as siglas partidárias registradas na Justiça Eleitoral vai desde o PSOL ao União Brasil, que compõem a base de sustentação do governo Lula.
Note que o PSD, de Gilberto Kassab, compõe a base do governo Lula e ao mesmo tempo a base do governo Tarcísio de Freitas, em São Paulo.
Os partidos que representam os interesses da burguesia participam de todas as esferas de governo, ou seja, municipal, estadual e federal.
O que motiva esses partidos a se vincularem aos interesses patronais é justamente o financiamento que a burguesia mantém àqueles se dispõem a veicular os interesses dessa classe dominante, além de apropriarem-se de parte dos recursos financeiros que Estado administra para fins sociais em benefício de sua população, mas, que em grande parte, acabam sendo desviados.
O mais curioso é que boa parte da “esquerda”, até que se reivindica como marxista, tem aderido ao discurso de terror reproduzido tanto pela extrema direita, quanto pela dita “esquerda” reformista, ligada ao PT, cuja prática se materializa também no peleguismo sindical. Prática essa que inclui: manipulação de resultados de votações de assembleias sindicais, fraudes em urnas de eleições sindicais, uso de violência física (agressões) contra militantes de base ligados às oposições sindicais, adiamento constante de assembleias de trabalhadores como forma de protelação e organização das lutas.
Na verdade, o que se busca atingir, por parte dessas direções reformistas dos trabalhadores, não é a organização responsável e bem estruturada de qualquer enfrentamento aos patrões ou à extrema direita. O que se busca é atrasar o máximo possível e frear sempre que possível a organização independente dos trabalhadores e a concretização das lutas.
No acordo de conciliação de classes, firmado entre a burguesia “progressista” e o setor reformista representado pelo PT e a Frente Ampla, cabe à burguesia assegurar o acesso desse setor reformista ao poder, e a esse setor reformista cabe manter a ordem institucional e a manutenção da cadeia de exploração econômica das riquezas e da mão-de-obra dos trabalhadores.
Enquanto os trabalhadores perdem empregos dignos, direitos sociais e garantias trabalhistas, os banqueiros seguem abocanhando 53,4% do Orçamento Federal, ou seja, R$ 1,313 trilhão através da dívida pública (Fonte: Auditoria Cidadã da Dívida, em 6 junho 2025), com pagamento garantido pelo Arcabouço Fiscal.
Importa dizer que o que fortalece a extrema direita não é política da luta de classes e de construção da independência de classe, que educa os trabalhadores na elevação da consciência de classe operária.
O que fortalece a extrema direita é justamente essa política de conciliação de classes, em que prevalecem os interesses dos patrões e em que os trabalhadores, ao final de um curto período, percebem que a exploração não acabou diante de um governo que está identificado com a “esquerda”. Essa é a grande razão para a decepção e giro de parcelas numerosas dos trabalhadores que antes apoiavam essa “esquerda” a passarem a apoiar a extrema direita com discurso de oposição, ao mesmo tempo radicalizado e contemplando essa revolta, utilizando argumentos contra a corrupção, que de fato não deixa de existir, pois o governo identificado com a “esquerda” abarca amplos setores do capital explorador – vide a influência de Jorge Paulo Lemann, do Todos Pela Educação, dentro do Ministério da Educação.
Aos revolucionários socialistas cabe a denúncia incessante desse acordo, dessa chantagem política e o trabalho constante de organização da classe trabalhadora para que confie nas suas próprias forças e vislumbre como saída a construção de uma sociedade livre da exploração. Uma sociedade socialista!