Colunas

Aceita pix?

Érika Andreassy, da Secretaria Nacional de Mulheres

9 de abril de 2026
star5 (1) visibility 0
Prédio do Supremo Tribunal Federal Foto Valter Campanato/Agência Brasil

Imagine a cena. Eu, chegando no gabinete de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Sem crachá de empresária, sem convite VIP, sem sobrenome importante. Só eu mesma — e, vá lá, representando milhões de trabalhadoras que acordam às 5 da manhã, pegam ônibus lotado e sustentam esse país nas costas.

Chego educadamente e digo: “Ministro, será que a gente pode conversar? Tem umas coisas importantes sobre direitos trabalhistas, sobre violência contra as mulheres, sobre o desmonte dos serviços públicos…”

Aí eu paro. Porque talvez eu esteja começando errado.

Nos últimos dias, mais uma denúncia veio à tona, o ministro Gilmar Mendes teria viajado em um jatinho ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, em carona associada a um empresário do MBRF. Nada muito diferente do que já vem aparecendo — relações próximas, encontros seletos, uma certa intimidade entre quem julga e quem tem muito dinheiro em jogo nos julgamentos.

Mas não para por aí, já são vários ministros envolvidos em situações semelhantes. E, como se não bastasse, surgem também denúncias sobre escritórios de advocacia ligados a familiares de ministros e políticos que recebem valores muito acima do praticado no mercado — inclusive em causas bilionárias.

Coincidência? Talvez. Ou talvez eu esteja sendo maldosa. Talvez seja só o destino caprichoso reunindo, sempre nos mesmos lugares, nas mesmas mesas, nos mesmos aviões… empresários poderosos e aqueles que decidem sobre seus interesses.

Volto para a minha cena imaginária. Eu ainda estou no gabinete. O ministro me olha, educado, técnico, imparcial — como manda o figurino institucional. Explico: “É que tem gente sendo demitida sem direito, tem reforma trabalhista precarizando tudo, tem mulheres sendo assassinadas… a gente precisa de decisões que protejam quem trabalha.”

Ele faz uma anotação. Talvez diga algo sobre a Constituição. Talvez mencione a “segurança jurídica”. Talvez diga que “as instituições estão funcionando”.

Ah, sim. Elas estão mesmo. Funcionando tão bem que há quem resolva suas pendências a 10 mil metros de altura. Enquanto isso, quem depende da Justiça enfrenta anos de espera, decisões contraditórias, mudanças de entendimento que sempre — curiosamente — parecem pesar mais para um lado do que para o outro.

Ops! Deve ser impressão. Porque veja, esses mesmos ministros são os que decidem sobre terceirização irrestrita, sobre limites de direitos trabalhistas, sobre conflitos entre grandes empresas e seus empregados. Esses mesmos políticos ligados a esse circuito são os que votam reformas, congelam gastos sociais, reorganizam o orçamento — sempre com uma sensibilidade impressionante para as “necessidades do mercado” e uma notável incapacidade de demonstrar a mesma “sensibilidade” quando se trata da vida concreta de quem trabalha.

Volto mais uma vez à minha cena imaginária. Talvez eu tente outro caminho: “Ministro, e se a gente marcasse uma conversa mais informal? Um café, quem sabe…” Aí eu lembro que talvez não seja café. Melhor um jantar. Ou um evento patrocinado. Ou — sendo mais eficiente — um voo.

Vixi. Mas aí fica difícil competir…

Na minha cena imaginaria eu ainda estou ali, parada, talvez nem tenha entrado ainda no gabinete, mas acho que já entendi. A questão não é sobre como falar com um ministro, mas quem, de fato, consegue falar — e em que condições. Eu arrisco uma última tentativa: sem jatinho, sem lobby, sem escritório milionário. Só com ironia mesmo.

“Ministro… Aceita pix?”

Mais textos de Érika Andreassy
WordPress Appliance - Powered by TurnKey Linux - Hosted & Maintained by PopSolutions Digtial Coop