Amazônia em chamas: fumaça sufoca Manaus e expõe a devastação da floresta

  • Queimadas avançam no Amazonas e no Pará, comprometem a qualidade do ar e ameaçam comunidades
Roberto Aguiar, da redação
Amazônia em chamas: fumaça sufoca Manaus e expõe a devastação da floresta
36 municípios do Amazonas estão em estado de emergência | Foto: Vinicius Medonça/Ibama

A fumaça das queimadas encobriu Manaus nos últimos dias, comprometeu a qualidade do ar e levou à suspensão de aulas e atividades ao ar livre. No interior do Amazonas e no Pará, os focos de incêndio seguem preocupando. Os números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) revelam a dimensão do problema e reforçam a necessidade de enfrentar não apenas as chamas, mas também as causas econômicas e sociais da devastação ambiental.

O Amazonas registrou 7.815 focos de calor entre 1º de janeiro e 12 de outubro, contra 3.611 no mesmo período de 2025. O aumento foi de aproximadamente 116%. No Pará, o cenário também é preocupante. Nos registros de monitoramento por satélite do INPE, foram contabilizados 4.397 focos de calor entre 1º e 12 de outubro, número superior aos 3.682 registrados durante todo o mês de outubro de 2025.

Manaus sufocada pela fumaça

A capital amazonense tornou-se o retrato mais visível da crise. A concentração de partículas finas na atmosfera chegou a 123,9 microgramas por metro cúbico. A situação levou à suspensão das aulas da rede municipal e à restrição de atividades ao ar livre e em locais com aglomeração até 18 de outubro.

A fumaça representa um grave problema de saúde pública. As partículas finas podem penetrar profundamente nos pulmões e agravar doenças respiratórias e cardiovasculares. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças preexistentes estão entre os grupos mais vulneráveis.

A estiagem, o calor e as mudanças climáticas contribuem para tornar a vegetação mais suscetível ao fogo. Entretanto, as condições climáticas não explicam sozinhas a dimensão da crise. É necessário investigar a origem dos incêndios e identificar os responsáveis pela destruição da vegetação.

O fogo e a exploração econômica da floresta

A devastação da Amazônia está relacionada a um modelo de ocupação territorial marcado pela expansão da pecuária, do agronegócio, da exploração madeireira, da mineração e da grilagem de terras públicas. Em diferentes regiões, o fogo é utilizado para limpar terrenos e abrir espaço para atividades econômicas.

Há uma concentração de focos nas regiões sul e sudeste do Amazonas, áreas também pressionadas pelo desmatamento. O avanço da ocupação territorial em áreas próximas à rodovia BR-319 aparece entre os fatores que exigem atenção.

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), por meio de seus estudos sobre desmatamento e uso da terra, contribui para compreender a relação entre a transformação da cobertura vegetal e a ocorrência de incêndios. Essas análises ajudam a contextualizar os registros do INPE, mas não significam que todos os focos detectados tenham a mesma origem.

Outro órgão importante é o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), responsável pelo monitoramento e pela produção de informações geoespaciais sobre a região. Seus levantamentos podem auxiliar na identificação de áreas atingidas e na orientação das operações de combate ao fogo.

A presença de focos em terras públicas e áreas protegidas reforça a necessidade de ampliar a fiscalização e investigar possíveis incêndios criminosos. É preciso identificar os responsáveis, verificar a situação fundiária das áreas atingidas e responsabilizar quem promove a destruição ambiental. A floresta não pode continuar submetida aos interesses de grandes proprietários e empresas que concentram os benefícios da exploração, enquanto os custos ambientais e sociais recaem sobre os trabalhadores e as comunidades amazônicas.

Medidas emergenciais são necessárias, mas não bastam

Diante do agravamento da situação, o governo federal anunciou o reforço das operações de combate aos incêndios, com aeronaves, brigadistas e equipes de saúde. A operação conta com o emprego de aeronaves da Força Aérea Brasileira, incluindo dois aviões KC-390, além do reforço das equipes em campo.

36 municípios do Amazonas estão em situação de emergência, com reconhecimento federal. O reconhecimento permite ampliar a resposta às necessidades locais, mas não substitui uma política permanente de prevenção, fiscalização e proteção ambiental.

O combate imediato às chamas é indispensável. Também é necessário garantir recursos para os órgãos ambientais, fortalecer as brigadas, proteger as comunidades atingidas e assegurar atendimento à população exposta à fumaça. Mas uma política ambiental não pode se limitar a reagir quando o fogo já se espalhou e a fumaça encobre as cidades. É preciso prevenir os incêndios, combater o desmatamento ilegal, impedir a grilagem e responsabilizar quem promove a destruição ambiental.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), os corpos de bombeiros e as forças de segurança têm responsabilidades complementares na fiscalização, na investigação e no combate às queimadas. Para que essas ações sejam efetivas, é necessário assegurar estrutura, orçamento e capacidade permanente de atuação.

Defender a Amazônia é enfrentar a lógica do lucro

A devastação ambiental está relacionada à expansão dos interesses econômicos que tratam a natureza como mercadoria. Essa lógica transforma a floresta, os rios e os territórios em fontes de lucro. A crise climática, a perda da biodiversidade e a destruição dos modos de vida tradicionais são consequências de um modelo que privilegia os interesses privados em detrimento das necessidades da maioria.

A defesa da Amazônia exige enfrentar esse modelo. Não basta anunciar compromissos ambientais enquanto continuam avançando atividades que destroem a floresta e ameaçam os territórios dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e demais comunidades tradicionais. A luta por reforma agrária e pela demarcação de todas as terras indígenas e quilombolas deve caminhar junto com a luta pela defesa dos territórios, dos direitos sociais e das condições de vida da população trabalhadora.

Isso significa combater a concentração fundiária, enfrentar a grilagem, garantir os direitos territoriais dos povos originários e tradicionais e impedir que grandes projetos econômicos sejam impostos às comunidades em nome do desenvolvimento. A responsabilidade pela crise não pode ser transferida para os trabalhadores e as comunidades que dependem da floresta. A preservação ambiental precisa estar associada à garantia de emprego, renda, moradia, saúde, educação e condições dignas de vida.

Por uma Amazônia a serviço dos povos

A fumaça que sufoca Manaus e os incêndios que avançam pelo Amazonas e pelo Pará são um alerta sobre o futuro da região. A resposta precisa combinar ações imediatas com medidas capazes de enfrentar as raízes da devastação.

É necessário combater os incêndios, garantir atendimento à população, fortalecer a fiscalização ambiental e responsabilizar os autores da destruição. Também é fundamental proteger os territórios indígenas e quilombolas, enfrentar a grilagem e colocar a preservação da floresta acima dos interesses dos grandes grupos econômicos.

Para o PSTU, a defesa da Amazônia exige independência política em relação aos governos e aos setores econômicos responsáveis pela devastação. Os trabalhadores e os povos que vivem na região precisam participar das decisões sobre o território e os recursos naturais.

A Amazônia não pode continuar pagando o preço do lucro de poucos. Defender a floresta é defender a vida, os territórios e o futuro dos povos amazônicos. É preciso construir uma alternativa socialista, na qual a natureza e as necessidades humanas estejam acima do lucro.

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