Opinião

Assédio moral e resistência: do estigma à revolução

Felipe Huertas, de São Paulo (SP)

3 de fevereiro de 2026
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Não é novidade para quem milita nas fileiras da esquerda, ainda que seja reformista e, portanto, capitalista, o fato de que há uma profunda confusão em adeptos da ultradireita entre progressismo e comunismo. Visando uma maior coesão grupal e a superação da heterogeneidade, cria-se um inimigo comum, a “ameaça comunista”, como ponto de unificação de setores liberais, conservadores e reacionários da direita e da extrema direita.

Na América Latina, o anticomunismo surge desde a recepção do processo da Revolução Russa de 1917, aprofundando-se ao longo da Guerra Fria em função dos meios de propaganda, de comunicação de massa e de financiamento dos EUA. Já no Brasil, tendo por alicerces originais instituições como a Igreja Católica e o Exército, após a ditadura militar os evangélicos assumem um papel central na propagação do anticomunismo, sendo que este adquire um caráter religioso de cruzada do bem contra o mal, personificado em estereótipos como o ateísmo e a imoralidade sexual.

Em anos recentes, no cenário nacional, há a associação insólita entre antipetismo e anticomunismo, ainda que os governos petistas tenham se mostrado intrinsecamente aderidos ao status quo, governando com e para a burguesia e, para além da retórica, contribuam para acentuar políticas neoliberais que são diametralmente opostas aos interesses da classe trabalhadora e que, deste modo, não podem ser atribuídas a uma perspectiva de Estado socialista, muito menos ao comunismo.

Embora sejam geralmente associados ao comunismo, os partidos reformistas e seus defensores nada têm a ver com uma proposta real de transformação da sociedade a partir da luta de classes. Por mais que procurem se apresentar como progressistas, governos como o de Lula, no Brasil, atuam no sentido de desmobilizar a luta dos trabalhadores, dado que o único campo progressivo real possível para os trabalhadores é o fortalecimento da classe trabalhadora internacional.

Ao insuflar um discurso de “nós contra eles”, de defesa da democracia burguesa contra a ameaça fascista, na prática, governos reformistas exageram essa ameaça para justificar concessões e a implementação de políticas neoliberais, como privatizações, arcabouço fiscal e austeridade, sem que avance nenhuma reforma estrutural da sociedade, negociando com a burguesia os direitos da classe trabalhadora. Não se combate a extrema direita protofascista com neoliberalismo, mas, sim, organizando a classe trabalhadora contra o capitalismo.

Sendo assim, tendo em vista a superestrutura que dissemina a ideologia dominante, a saber, burguesa, e que está voltada, há mais de 100 anos, a demonizar o comunismo, receber o rótulo de “comunista” – ainda que as ideias que se defenda sejam reformistas ou, apenas, progressistas – impõe um pesado estigma sobre os sujeitos, podendo levar ao adoecimento psicossocial decorrente de processos coletivos de assédio moral e de lógicas de opressão, manipulação, coerção, exclusão social, e tentativas de silenciamento e supressão da subjetividade que buscam deformar a pessoa até o ponto em que ela se conforme.

A Luta contra o estigma

O estigma está relacionado a uma marca social negativa atribuída aos sujeitos e a certos grupos, que passam a sofrer um processo de desvalorização e de discriminação por parte dos indivíduos de um determinado contexto social e cultural. As consequências do estigma são inúmeras e passam pela já mencionada deterioração do bem-estar físico e emocional, podendo levar à exclusão e ao isolamento e impor barreiras sobretudo no acesso ao trabalho, condição incontornável para que pessoas da classe trabalhadora tenham uma vida com maior autonomia relativa.

Um dos aspectos mais trágicos e perversos relacionados aos estigmas ocorre quando o sujeito os internaliza, assumindo aqueles rótulos como definidores de sua identidade, algo que condiciona seus afetos, emoções, sentimentos, pensamentos e comportamentos, que atuam no sentido de reforçar o estereótipo associado ao grupo contra o qual se dirige a pressão social e cultural que visa exigir conformidade dos sujeitos não adequados às normas hegemônicas.

Os estereótipos consistem em representações mentais que são ativadas de modo inconsciente quando alguém identifica um sujeito em particular como pertencente a certo grupo social. Sendo assim, estereótipos interferem profundamente na formação de impressões e na percepção dos indivíduos, levando o(a) percebedor(a) a realizar inferências sobre quem deve ser e como provavelmente se comporta determinada pessoa em decorrência do grupo social ao qual está associada. Aplicados ao caso dos estigmas que se referem ao comunismo, os estereótipos a ele associados levam a uma negação da validade da argumentação e a ataques ad hominem, geralmente referindo-se, no caso de mulheres, à sua aparência física (“feia”, “gorda”), e, no caso dos homens, à sua higiene pessoal e disposição para o trabalho (“sujo”, “vagabundo”).

Tendo em vista o contexto histórico e ainda atual da brutalidade do discurso e das práticas anticomunistas e, mais recentemente, a disseminação da ideologia totalitária neoliberal e o crescimento global da ultradireita, com sua defesa de um Estado mínimo que atenda, exclusivamente, aos interesses da burguesia, bem como o estímulo a uma noção atomizada, individualizada, da responsabilidade (“culpa”) por situações cuja solução só pode se dar no coletivo, tornam-se banais e naturalizados processos socias autoritários de assédio moral, de opressão, portanto, e de manipulações que buscam confundir e desviar os sujeitos de uma prática política emancipadora, invalidando suas vozes como representantes de uma perspectiva de transformação da sociedade.

Nesse sentido, deve ser uma preocupação constante e premente de um partido socialista e revolucionário alcançar as pessoas antes que estas sejam subjetivamente destroçadas pelo sistema opressor e explorador, fornecendo as bases de uma defesa crítica que permita aos sujeitos resistirem aos processos de injúria, difamação e calúnia (potencializados através das redes sociais e da disseminação de fake news e deepfakes), armando a militância e os simpatizantes com elementos-chave de interpretação dialética da realidade, o que pode levar a uma caracterização mais correta desta e, sendo assim, a intervenções mais significativas nas tarefas de disputa ideológica, na propaganda e agitação políticas.

Dissonância Cognitiva, Anticomunismo e Dialética

A Teoria da Dissonância Cognitiva, desenvolvida inicialmente por Leon Festinger em fins da década de 1950, propõe que os seres humanos buscam reduzir ao mínimo o desconforto mental que podem sentir quando possuem duas crenças, ideias ou valores contraditórios, ou quando seus comportamentos entram em conflito com suas crenças, muitas vezes havendo uma negação e uma recusa em reconhecer que, em algumas situações, os elementos cognitivos não correspondem à realidade. A resistência à supressão da dissonância é muito forte sobretudo quando, para tanto, é necessário ocorrer uma mudança de comportamento, algo que sabidamente é muito difícil.

Objetivando eliminar o desconforto decorrente da dissonância, a psique humana realiza um dos seguintes ajustes: 1) muda-se o comportamento (o mais raro), isto é, a pessoa deixa de agir de forma contraditória; 2) muda-se a crença (bastante comum): a pessoa racionaliza e distorce a realidade para fazer sua crença se encaixar no seu comportamento; e, 3) adiciona-se novas justificativas (o clássico), sendo que a pessoa inventa novas informações para “explicar” a contradição. Geralmente a dissonância cognitiva tem por origem a necessidade do sujeito de preservar uma autoimagem saudável e positiva. Portanto, o mais comum é que as pessoas se tornem cegas e surdas a informações que não corroborem suas convicções iniciais – fenômeno bastante nítido na formação e manutenção de “bolhas” em aplicativos de mensagens e redes sociais digitais.

Como a dissonância cognitiva se relaciona, contudo, ao anticomunismo e aos estigmas decorrentes da associação, ainda que equivocada, de um sujeito ao comunismo? Observa-se que, a fim de se preservar uma autoimagem saudável e positiva – como dito anteriormente – as pessoas que reproduzem a ideologia dominante (anticomunista), em sua faceta capitalista neoliberal, precisam convencer a si mesmas de que estão “do lado certo da história” e de que apenas os valores hegemônicos que disseminam são corretos, o que as leva, geralmente, a justificarem sua atitude sádico-perversa de assédio moral em relação a quem defende ideias dissonantes do totalitarismo neoliberal através de uma manobra que busca a validação coletiva dos comportamentos com base na atribuição caluniosa e difamatória de características socialmente execráveis aos sujeitos não aderidos à normatividade, associando-os, por exemplo, a questões como pedofilia ou estupro, se se tratar de homens.

A dissonância cognitiva, nesse sentido, não é tão somente um conflito de ideias que se dá em um nível subjetivo, isto é, uma questão cognitiva individual, mas, sim, uma expressão das contradições materiais objetivas vividas sob o capital. Às promessas vazias do capitalismo, tais como mérito, liberdade, igualdade e progresso, opõe-se de modo brutal a experiência concreta da exploração, da precarização, da violência e da alienação. Essas contradições são administradas pela ideologia dominante através da estigmatização de sujeitos e grupos que representam a possibilidade de sua explicitação. Sendo assim, o anticomunismo cumpre a função histórica de gerir a dissonância coletiva, desviando o sofrimento social, o ódio, o ressentimento, o medo, de suas causas estruturais e convertendo-os em violência simbólica e política contra alternativas emancipatórias.

Em A Ideologia Alemã, Marx e Engels, lançando as bases do materialismo histórico e dialético, partem dos homens reais em seus processos de vida reais e historicamente determinados para derivarem daí os seus pensamentos, a sua consciência, expondo os delírios da razão e a esquizofrenia do discurso capitalista idealista que a classe burguesa, detentora dos meios de produção material e, consequentemente, dos meios de produção intelectual que asseguram a hegemonia cultural das formas de conceber a vida que legitimam sua dominação, universalizando valores que são expressões de uma classe social de modo a justificar as relações de opressão e exploração nos moldes do que se discutiu, ao longo destas linhas, como sendo o mecanismo próprio da dissonância cognitiva.

Sabe-se que uma das leis fundamentais do método dialético é a contradição, justamente o que a dissonância cognitiva procura eliminar. O motor das mudanças, da transformação da quantidade em qualidade ou de uma qualidade para outra nova é a interpenetração dos contrários como princípio de desenvolvimento. Este elemento da teoria e da práxis marxistas é fundamental no sentido do fortalecimento de uma defesa crítica e de uma resistência consciente e consequente a discursos e práticas autoritários que se colocam como imperativos categóricos e que buscam ocultar o fato de que a realidade material e subjetiva é dinâmica e que, por mais que se vivencie um processo de luto em decorrência da percepção desoladora do estado de degradação material, moral e ética a que o capitalismo submete a maioria das pessoas, pode-se promover uma transformação desse quantum de sofrimento em uma luta coletiva no sentido de derrotar o sistema opressor e explorador.

Guerra psicológica e resistência

Delírios de onipotência são crenças irreais de que se possui poderes ilimitados, divinos ou especiais, podendo controlar eventos, pessoas e destinos com o mero pensamento ou desejo. Geralmente, um delírio de onipotência ocorre em um nível individual; contudo, como uma resposta defensiva à dissonância cognitiva abordada no item anterior, as pessoas que corroboram e reproduzem a ideologia dominante podem vir a construir um delírio de onipotência coletivo, como um fenômeno social que visa reforçar e validar o poder grupal sobre sujeitos dissonantes por meio de uma crença inabalável e insensível a evidências e aspectos da realidade que refutem a convicção delirante.

Desse modo, os processos de assédio moral que são mobilizados contra sujeitos ou grupos, como os comunistas ou quem a essa alternativa seja associado(a), ocorrem no sentido de levar os indivíduos integrados ao grupo hegemônico a agirem como se a força de seu desejo coletivo de aniquilar simbolicamente fosse um decreto contra o qual não se pode opor qualquer defesa ou reação, de modo completamente avesso à dialética, que contradiz suas crenças, na medida em que, em muitos casos, os sujeitos que sofrem com o assédio seguem resistindo, criando, elaborando criticamente e, de preferência, construindo coletivamente a luta contra as tentativas de silenciamento, isolamento e exclusão.

O objetivo é justamente fazer com que os alvos acreditem no delírio deles, levando à internalização da suposta onipotência destrutiva e a uma rendição. Trata-se de uma guerra psicológica em que a principal arma é fazer o sujeito dissonante acreditar que já perdeu, que “já era”. A percepção lúcida de que a normatividade pode ser e, neste caso, é patológica, é outro elemento de defesa crítica aguçada que precisa ser considerado nessa batalha ideológica e psicológica, visando preservar a sanidade das vítimas dos processos de assédio moral coletivos que visam excluir violentamente qualquer pessoa que desafie a ordem dominante.

Rosa Luxemburgo foi capturada por milícias paramilitares de direita e assassinada a mando de líderes do partido Social-Democrata alemão, em 15 de janeiro de 1919. Rosa Parks, após seu corajoso ato em um ônibus na cidade de Montgomery, Alabama, EUA, em 1955, passou anos sem conseguir um novo emprego. Rosa Sundermann, devido à sua militância sindical e política contra latifundiários e em defesa dos trabalhadores cortadores de cana, foi assassinada em 1994, em São Carlos (SP), em um crime político de execução impune até hoje. Esses três exemplos, e inúmeros outros, ilustram a que ponto podem chegar os poderosos quando seus interesses são colocados sob ameaça.

Os(as) jovens revolucionários(as) precisam estar cientes de que uma militância consequente, com aprofundamento teórico e com coragem de denunciar a exploração e a opressão sistêmica que se vive sob o capitalismo, defendendo a alternativa socialista, pode trazer e provavelmente trará retaliações daqueles que reproduzem a ideologia dominante, tais como repressão, tentativas de manipulação e de silenciamento, difamação, injúria e calúnia – tudo isso caracterizando o processo de assédio moral coletivo sobre o qual se discutiu no presente texto. Portanto, que a luta pela transformação do mundo seja uma escolha consciente que leve em consideração não apenas aquilo que se tem a ganhar com a revolução, mas, também, tudo aquilo que se terá de suportar, de maneira firme e resoluta, até que ela chegue.

É importante ressaltar que a ideologia dominante é incutida na classe dominada através da superestrutura, isto é, as instituições ideológicas e políticas que têm por finalidade legitimar a dominação. A superestrutura, ressalte-se, não é homogênea, sendo composta de inúmeras contradições, fissuras e disputas que permitem, por exemplo, o surgimento de consciências dissonantes. A guerra psicológica é, portanto, uma estratégia ardilosa da burguesia visando gerar opressões cruzadas na classe trabalhadora em função de traços identitários (gênero, raça, orientação sexual, idade, time de futebol) impossibilitando o reconhecimento de que os verdadeiros inimigos são o capitalismo e seus representantes, algo que poderia levar à uma transformação radical da sociedade em que aqueles que tudo produzem pudessem decidir o que seria feito com o produto de seu trabalho, levando a uma desalienação e a uma assunção da responsabilidade por parte da classe trabalhadora no sentido de estar consciente que os rumos da sociedade dependem, essencialmente, dela.

Uma questão que se coloca é: como continuar criando e se expressando – resistindo, enfim – de formas que gerem fortalecimento não apenas individual, mas também coletivo? A esse respeito, na longa tradição revolucionária, pode-se encontrar a iluminação do processo e a certeza de que apenas na construção coletiva, no aquilombamento, na adesão a um Partido Revolucionário e Socialista que valide e mantenha uma rede de apoio em torno dos sujeitos-alvo do assédio – apoio não apenas moral, mas, também, político e jurídico – pode-se resistir eficazmente ao sistema opressor e explorador, com formação política, arte, cultura, propaganda e agitação políticas que busquem ampliar a compreensão da classe trabalhadora e gerar a percepção de que, em muitos casos, esta reproduz uma falsa consciência que só interessa àqueles que já estão no poder.

Textos consultados

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