Banco Master: O STF no centro da crise
A nova prisão do banqueiro mafioso Daniel Vorcaro e as recentes revelações de suas relações promíscuas com o poder colocaram o Supremo Tribunal Federal (STF) no epicentro de uma crise política que pode estremecer as principais instituições do regime.
Desta vez, é o ministro Alexandre de Moraes que se vê no centro da fogueira. Segundo o jornal O Globo, Vorcaro teria trocado várias mensagens com o ministro no dia em que foi preso pela primeira vez, em 17 de novembro. Uma das mensagens é especialmente incriminadora: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, teria perguntado o banqueiro, pouco antes de tentar embarcar num jato particular rumo à Europa, e ser detido pela Polícia Federal.
Após vários dias de silêncio, a assessoria de Moraes desmentiu a notícia do jornal carioca, afirmando que as mensagens extraídas pela PF não tinham o ministro como destinatário. Só não explicava como teriam tido acesso às evidências da investigação, nem os critérios para cravarem o desmentido. Fato é que, mesmo antes dessas mensagens virem à tona, Alexandre de Moraes já estava bem enrolado.
A revelação do contrato de R$129 milhões que o escritório de advocacia que sua esposa mantinha com o banqueiro já lançava um perigoso véu de suspeita sobre o ministro. A apuração do contrato foi divulgada pela mesma colunista do Globo que teve acesso às tais mensagens de celular. Só depois de três meses, o escritório Barci de Moraes veio a público explicar que o contrato, com validade de três anos, tinha como contrapartida, dentre outros serviços, estruturar um plano de “compliance” (algo como um código de ética e conduta). Um valor absolutamente irreal na média do mercado. Ainda mais se tratando de um grupo mafioso que não parecia ter nenhuma preocupação com qualquer tipo de “ética”, e destinava R$ 1 milhão para, entre outras coisas, comprar e coagir jornalistas, plantar notícias e até hackear a polícia e o Ministério Público.
STF no olho do furacão

Julgamento da 1ª Turma do STF sobre tentativa de golpe de Estado Foto STF
O Supremo já sofria com o desgaste por conta da atuação mais do que suspeita do então relator do caso, ministro Dias Toffoli. Primeiro, sem qualquer explicação, Toffoli decretou sigilo das investigações, e tentou impedir que a Polícia Federal analisasse as provas contra Vorcaro. Depois, soube-se que Toffoli é sócio da Maridt, empresa que vendeu participação de um resort a um fundo ligado ao banqueiro. Mesmo assim, o ministro se negava de forma renitente a se declarar impedido, e só se afastou do caso após semanas de desgaste e muita pressão por parte dos outros ministros.
A revelação do que seriam as mensagens do banqueiro a Moraes, por sua vez, mostra que o problema não era apenas um dos ministros. Vorcaro transitava livremente pelos prédios dos três poderes e a sua intimidade chega ao ponto de ter pagado uma degustação de whisky em Londres para Toffoli, Moraes, e também para o diretor-geral da Polícia Federal e o procurador-geral da República. E não aquele whisky de R$ 70 que você mistura com coca-cola na pelada do final de semana, mas Macallan (um whisky caro de luxo), numa conta que ficou em módicos R$ 3,3 milhões.
Tudo dominado
O que mais impressiona nessa nova crise política é que tudo o que foi revelado até agora compreende apenas 1/3 de um dos celulares do banqueiro apreendidos. Faltam mais três. Até o momento já se sabe do envolvimento de figuras proeminentes da extrema direita, do centrão e do próprio governo Lula. Do presidente do PP, o senador Ciro Nogueira, e do presidente dos Republicanos, Antônio Rueda, passando pelos dirigentes do PT da Bahia, Rui Costa e Jacques Wagner, até Guido Mantega que, juntos, articularam encontros de Vorcaro com Lula.
Num jogo de empurra-empurra para jogar a crise no colo do adversário, nem a extrema direita nem o governo do PT se salvam. Se Vorcaro impulsionou as mutretas de seu banco Master durante o governo Bolsonaro e a gestão do então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sua epopeia criminosa prosseguiu sob a sombra do governo do PT. Mesmo que seu candidato preferido nas eleições de 2022 tenha sido Bolsonaro. Seu sócio, o empresário e pastor Fabiano Zettel, por exemplo, foi o maior doador das campanhas de Bolsonaro e do hoje governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Um jatinho do banqueiro ficou à disposição de Nikolas Ferreira para a campanha, inclusive.
Essa abrangência pode, contraditoriamente, ajudar a abafar o caso numa enorme pizza “com o Supremo e com tudo”. Mas pode também desatar a mais grave crise política desde a redemocratização, atingindo os três poderes, ainda que o STF esteja, por agora, no epicentro.
Não se pode confiar nessa Justiça dos ricos
A crise aberta pelo banco Master e a prisão de Vorcaro desnudam um Judiciário promiscuamente ligado aos bilionários e a seus interesses. O STF, como seu principal sustentáculo, não foge à regra. Já se tornou folclórico o chamado “Gilmarpalooza”, evento promovido pelo ministro Gilmar Mendes em Lisboa onde a elite política, jurídica e financeira se confraternizam e trocam “networking”. O recente avanço da decisão sobre a “pejotização”, que pode simplesmente jogar no lixo décadas de luta por direitos trabalhistas, é apenas um dos reflexos de como essa justiça mantém e defende os ricos, e o seu regime.
Daí o grande erro do PT e do governo Lula terceirizarem ao STF a contenção do golpismo e da extrema direita. O Supremo atuou para preservar o atual regime, e seus próprios interesses, que, de forma circunstancial, batiam de frente com o bolsonarismo. Agora, a extrema direita tenta se utilizar dos recentes escândalos para capitalizar eleitoralmente e avançar na pauta da anistia a golpistas e o seu projeto autoritário. Mesmo que eles próprios estejam metidos até o pescoço no caso.
Desde o famigerado 8 de janeiro, o governo Lula não tomou medidas concretas para combater a extrema direita golpista. Manteve o alto escalão das Forças Armadas, governa através de acordos com a própria ultradireita, e sequer moveu uma palha para acabar com a excrescência do artigo 142, um entulho autoritário plantado pelos militares da ditadura na Constituição de 1988.
Junto a isso, o governo do PT mantém uma política econômica de austeridade, com arcabouço fiscal que desvia recursos das áreas sociais para o pagamento da dívida, e prossegue administrando um capitalismo em crise, entregando o país aos diversos imperialismos e desnacionalizando cada vez mais nossa economia. As condições concretas da classe trabalhadora, dentro disso, só pioram, o que explica as recentes pesquisas que mostram o desgaste do governo. Desta forma, com um discurso de combate à extrema direita, o PT e seus satélites apenas jogam água no moinho de alternativas golpistas.

O banqueiro Daniel Vorcaro Foto Reprodução
Máfia de terno, gravata e toga
Diante da atual crise no STF, setores governistas cerram fileiras ao redor de Alexandre de Moraes, atacando as denúncias como “golpistas”. Na prática, se desmoralizam cada vez mais com cada fato novo que aparece. É verdade que o vazamento seletivo de provas e a articulação com veículos da imprensa não são coincidências. É até plausível a possibilidade que Sérgio Moro ainda mantenha contatos no aparato do Estado, inclusive na Polícia Federal e no Ministério Público, ávidos por vingança. E que setores da grande imprensa queiram desgastar o governo e apostar numa alternativa ainda mais liberal no futuro, à lá Milei. No entanto, defender o STF de forma incondicional, deslegitimando cada nova evidência de corrupção, não vai combater a extrema direita. Só os arrasta junto nessa crise.
A corrupção no STF, assim como nos demais poderes, deve sim ser denunciada, não de forma despolitizada e apartada de seu caráter de classe. Mas para, ao contrário, mostrar aos trabalhadores e ao conjunto da população como agem em defesa dos banqueiros, dos bilionários capitalistas, e de como essa gente atua como verdadeiras máfias.Um grande grupo de amigos e comparsas, que se reúnem para “degustar” whisky caro enquanto roubam a aposentadoria de trabalhadores.
Inclusive desmontando a campanha da direita e da extrema direita que, além do cinismo em associar a corrupção exclusivamente ao governo Lula (sendo que eles também estão envolvidos nos mesmos esquemas), passam um pano no sistema financeiro e na mesma Faria Lima que, como vimos recentemente, é uma grande e sofisticada lavanderia do PCC e do crime organizado de forma geral. A realidade é que a corrupção existe em todos os governos justamente porque é inerente ao capitalismo. E o projeto ultraliberal levado à frente pela extrema direita tende a aprofundar isso ainda mais.

Nikolas Ferreira, o pastor Guilherme Batista, sua esposa e a influenciadora Jey Reis Reprodução
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Combater a corrupção e o capitalismo
Mesmo nos marcos desse sistema, e desse regime dos ricos, a corrupção deve ser enfrentada e combatida. Não pela perspectiva “udenista” e hipócrita da direita, ou pelo discurso da “ética na política” de uma esquerda da ordem (como se fosse possível convencer os capitalistas a não nos roubarem mais do que já nos roubam). Mas unindo a denúncia da corrupção, com a exigência de investigação e punição rigorosa a todos os corruptos (seja de colarinho branco ou de toga), ao combate do próprio capitalismo.
O problema aqui é que isso só pode ser feito, de forma coerente e até o fim, a partir de uma perspectiva de independência de classe. Algo que o PT e a esquerda do sistema não podem fazer, já que sua política de conciliação e de administração do capitalismo, não só os impedem de combater a corrupção, como jogam eles próprios nessa crise.
A crise do banco Master amplia o sentimento antissistema. E, uma vez que se aprofunde, tende a agravar essa tendência. A extrema direita já tem sua estratégia de se apresentar como uma saída radical, mesmo sendo a parte mais podre desse sistema. A esquerda se vê, mais uma vez, numa disjuntiva: agarrar-se a esse regime dos bilionários como faz a esquerda da ordem, ou apontar para uma ruptura com esse sistema com uma perspectiva socialista e revolucionária.
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