Chuvas em Belém expõem abandono dos governos e atingem população pobre das periferias
Enchentes revelam problemas estruturais da cidade e escancaram desigualdade: são os bairros periféricos, majoritariamente negros, que ficam debaixo d’água
As fortes chuvas que atingiram Belém a partir de 18 de abril escancararam uma realidade que já vinha sendo denunciada: por trás da propaganda oficial que buscou vender a cidade como vitrine internacional para a COP 30, existe uma cidade profundamente desigual, abandonada e vulnerável.
Em menos de 24 horas, foram mais de 150 mm de chuva, quase metade do esperado para todo o mês. Um volume considerado extremo e um dos maiores dos últimos dez anos. O resultado foi imediato: bairros inteiros alagados, casas invadidas pela água e famílias obrigadas a sair às pressas.
Mas a chuva, por mais intensa que tenha sido, não explica tudo. Ela apenas revela, de forma brutal, aquilo que já estava posto.
Duas cidades, uma tragédia anunciada
Belém é hoje o retrato acabado de duas cidades. De um lado, a cidade que os governos municipal, estadual e federal tentaram “maquiar” para o mundo durante a COP 30: obras pontuais, marketing ambiental, discursos sobre sustentabilidade.
De outro, a cidade real, onde vive a maioria da população: a Belém dos bairros periféricos, sem drenagem, sem saneamento, sem qualquer infraestrutura capaz de enfrentar eventos climáticos que já são previsíveis. E foi essa Belém real que apareceu com a chuva.
Os bairros atingidos não são os bairros ricos. São Terra Firme, Jurunas, Condor e tantas outras áreas populares. Não há notícias de condomínios de luxo alagados, nem de elites desalojadas. Quem perdeu tudo foram trabalhadores, moradores da periferia, em sua maioria mulheres e pessoas negras, que historicamente ocupam as áreas mais vulneráveis da cidade.
Isso não é coincidência. É resultado direto da desigualdade social produzida pelo capitalismo.
Estado não previne
A resposta do poder público evidencia esse problema. O estado de emergência só foi decretado após o colapso já instalado, quando a cidade já estava debaixo d’água. Mais uma vez, o Estado atua depois da tragédia, nunca antes.
Enquanto isso, o Ministério Público Federal precisou intervir, cobrando medidas urgentes para garantir o mínimo: abrigo para quem ficou sem casa. O órgão denunciou a falta crônica de vagas em abrigos públicos, um problema antigo, já conhecido e nunca resolvido.
Não estamos diante de um desastre “natural”. Estamos diante de uma tragédia social anunciada.
A maquiagem da COP 30 desmancha na chuva
Belém possui áreas de risco mapeadas, histórico de alagamentos e previsões climáticas que indicam aumento de eventos extremos. Ainda assim, o que se vê é a ausência de investimentos estruturais em drenagem, saneamento e políticas de habitação.
Em seu lugar, avançam obras voltadas para interesses econômicos e para a vitrine internacional da COP 30. A chuva fez o que nenhum discurso oficial consegue esconder: desmanchou a maquiagem.
Revelou que existem, de fato, duas Belém. Uma, preparada para receber investidores, turistas e autoridades internacionais. Outra, onde vive a maioria da população, exposta à lama, à água contaminada e ao abandono. E é essa segunda Belém que paga o preço.
Medidas urgentes
Diante dessa realidade, não basta repetir o ciclo de respostas emergenciais. É necessário enfrentar as causas profundas do problema.
É urgente garantir abrigo digno para todas as famílias desabrigadas, com uso de estruturas públicas e privadas ociosas, além da distribuição de alimentos, água e atendimento de saúde. Essas ações precisam ser acompanhadas por comissões formadas por moradores e trabalhadores, garantindo que a ajuda chegue a quem realmente precisa.
Também é indispensável um plano massivo de obras públicas em drenagem urbana e saneamento básico, com investimento contínuo e sem privatização.
É fundamental implementar um programa de moradia popular que retire as famílias das áreas de risco, garantindo reassentamento digno e próximo de seus locais de vida e trabalho.
Da mesma forma, é necessário romper com a lógica da “cidade vitrine” da COP 30, redirecionando recursos para infraestrutura básica e políticas sociais.
Enfrentar a crise climática exige ainda medidas estruturais de proteção ambiental, articuladas com justiça social. E isso passa também por enfrentar os privilégios: taxar os mais ricos e redirecionar recursos hoje voltados aos interesses do grande capital.
Para que a tragédia não se repita
Nada disso virá de forma espontânea. A transformação dessa realidade passa pela organização independente da classe trabalhadora, dos movimentos populares e das comunidades periféricas, justamente aqueles que mais sofrem com as enchentes e, também, os que têm interesse direto em mudar essa lógica.
A tragédia que hoje atinge Belém não é exceção. É regra. E continuará sendo enquanto a cidade, e o conjunto da sociedade, for organizada para atender aos interesses do capital, e não às necessidades da maioria trabalhadora.
Por isso, enfrentar de fato as tragédias como essa exige ir além das medidas emergenciais e mesmo das reformas estruturais. Exige questionar o próprio modelo que produz desigualdade, destruição ambiental e abandono social.
A superação desse ciclo passa pela construção de uma outra sociedade: sem exploradores e explorados, sem uma cidade dividida entre ricos protegidos e pobres expostos, onde a vida esteja acima do lucro: uma sociedade justa e igualitária; uma sociedade socialista.