Internacional

Contra a intervenção na Groenlândia! Pela abolição da OTAN!

Workers’ Voice

29 de janeiro de 2026
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Manifestação na capital da Groenlândia, Nuuk Foto CGTNEurope

As ameaças de Donald Trump de se apoderar da Groenlândia nas primeiras semanas do novo ano continuam sendo alarmantes. Inicialmente tratadas, no começo de seu segundo mandato, como uma piada ou como uma tentativa de “negociar” com a Europa, hoje essas ameaças já não têm nada de cômico. Antes de recuar, havia um temor palpável, sobretudo na Groenlândia, mas também na Europa, na América do Norte e, na verdade, no mundo inteiro, de que Trump pudesse desencadear uma nova guerra mundial. Ele agora reduziu o tom militar, mas apenas depois de uma surpreendente demonstração de força no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça.

Trump recuou após declarar que havia obtido “tudo o que queríamos” nas conversas com o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, em Davos, no dia 21 de janeiro. Os termos do “marco de um futuro acordo” permanecem nebulosos, embora, segundo informações, concederiam aos Estados Unidos a posse das bases militares na Groenlândia e certos direitos de exploração mineral no território. Em 25 de janeiro, uma alta funcionária da Groenlândia, Naaja Nathanielsen, insistiu que seu governo ainda não havia “recebido nenhuma proposta” e que “abrir mão da soberania da Groenlândia não está na mesa, por enquanto”.

Não nos enganemos: a ameaça contra a Groenlândia continua existindo, ainda que seja fácil imaginar que o sempre errático Trump acorde um dia e resolva dar uma guinada de 180 graus. Assim como o ataque de Trump à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro e Celia Flores, as ameaças à Groenlândia demonstram que o imperialismo estadunidense se tornou cada vez mais disfuncional, mais personalizado e, justamente por isso, mais perigoso.

O imperialismo dos EUA sempre foi uma ameaça ao mundo

Ainda há muita nostalgia liberal por uma suposta era anterior e “melhor” do imperialismo estadunidense, embora os liberais prefiram usar expressões como “ordem baseada em regras” em vez de “imperialismo”. A seguir, analisamos como a versão MAGA e de extrema direita do imperialismo dos EUA está assumindo uma trajetória qualitativamente distinta das anteriores. No entanto, é preciso fazer uma pausa para lembrar que povos indígenas e populações de inúmeros países de maioria negra e parda, em todos os continentes, sempre apontaram que os Estados Unidos jamais tiveram qualquer escrúpulo em violar a soberania nacional e massacrar milhões de pessoas para atender aos interesses do capitalismo estadunidense.

Como em episódios anteriores do imperialismo brutal exercido pelos EUA, os líderes da atual administração são movidos, em última instância, por interesses materiais e políticos. Mais uma vez, falam abertamente sobre a riqueza mineral da Venezuela e da Groenlândia, bem como sobre os combustíveis fósseis e os minerais “raros” existentes em enormes quantidades. As ameaças do secretário de Estado, Marco Rubio, de promover uma mudança de regime em Cuba representam uma escalada do cerco que o imperialismo ianque impõe à ilha há mais de seis décadas.

Outra continuidade é a tentativa de garantir a hegemonia dos Estados Unidos no hemisfério ocidental. Até mesmo o secretário-geral do Conselho da Europa, Alain Berset, alguém pouco propenso a criticar o discurso dos “valores ocidentais” e da “importância da aliança da OTAN”, reconheceu isso recentemente em um artigo de opinião no New York Times: “O temor é que uma Groenlândia independente possa, algum dia, se aproximar da órbita da Rússia ou da China, colocando suas armas às portas dos Estados Unidos. Seria uma repetição ártica da Baía dos Porcos”.

Protesto em Copenhague

É diferente desta vez?

Trata-se da velha paranoia estadunidense de sempre diante de qualquer país, especialmente um com população majoritariamente indígena, que sequer cogite a independência. Ainda assim, seria um erro estratégico ignorar as diferenças entre a expressão atual do imperialismo dos EUA e as anteriores. Embora existam continuidades no conteúdo do imperialismo sob Trump, a mudança na forma é de enorme importância.

Isso está ligado à profunda crise desse projeto imperialista. Presidentes anteriores dos Estados Unidos raramente, ou nunca, deixaram de encobrir suas ações predatórias com a retórica de fins elevados: promover a democracia, tornar o mundo mais “pacífico” ou “livre”, “libertar mulheres morenas de homens morenos”, e assim por diante. Desta vez, o presidente e seus colaboradores mais próximos dizem abertamente o que estão fazendo.

Mais importante ainda, conforme indicam os novos documentos de estratégia nacional publicados no fim de 2025, os Estados Unidos agora enxergam o mundo em termos da “sobrevivência do mais apto”, numa lógica schmittiana ou de darwinismo social.

Como afirmou Stephen Miller, o ideólogo mais abertamente fascista da administração, em entrevista à CNN no início de janeiro: “Vivemos em um mundo, no mundo real… Que é regido pela força, pela violência, pelo poder. Essas são as leis de ferro do mundo”. Em outras palavras, incapaz de manter sua hegemonia global, os Estados Unidos recorrerão cada vez mais ao lado mais duro de seu poder.

Um artigo recente de Erwin Freed, publicado no La Voz de los Trabajadores, resume bem as implicações desses documentos:

Em conjunto, os três relatórios pintam um cenário em que a posição internacional do imperialismo estadunidense passa de um domínio incontestável para a necessidade de negociar seu lugar em uma nova ordem mundial. Embora os Estados Unidos ainda mantenham superioridade econômica e militar, os grandes avanços tecnológicos da China e seu controle de setores estratégicos estão reduzindo rapidamente essa vantagem. Todos os relatórios apontam para um sistema econômico mundial em estagnação e para conflitos cada vez mais intensos entre as grandes potências.

A OTAN em crise; o imperialismo chinês em evidência

Outra novidade profundamente inquietante é o discurso belicoso — tanto no plano comercial quanto no literal, ou “cinético” — entre aliados da OTAN. Antes de Trump retirar suas ameaças militares, autoridades europeias discutiam abertamente a imposição de sanções contra empresas de tecnologia dos Estados Unidos. Boicotes a produtos e serviços estadunidenses estão se tornando comuns entre a população da Europa e do Canadá.

A historiadora e blogueira estadunidense Heather Cox Richardson também observou, em seu boletim diário de 18 de janeiro: “Apesar de toda a fanfarronice de Trump sobre o comércio dos Estados Unidos, o mundo parece estar seguindo em frente sem eles”. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, visitou Pequim nesta semana — a primeira visita de um premiê canadense à China desde 2017. Na sexta-feira, o Canadá rompeu com os Estados Unidos e firmou um acordo significativo com a China, reduzindo tarifas sobre veículos elétricos chineses em troca da redução, por parte da China, das tarifas sobre sementes de canola canadenses. Carney escreveu nas redes sociais: “A relação entre o Canadá e a China foi distante e incerta por quase uma década. Estamos mudando isso, com uma nova parceria estratégica que beneficia os povos de ambas as nações”.

Pouco depois, Carney discursou em Davos e falou abertamente de uma “ruptura” na aliança da OTAN provocada pela hostilidade de Trump, convocando as chamadas “potências médias” (países tradicionalmente subordinados à hegemonia dos EUA, da China ou da Rússia) a se unirem para propor uma alternativa tanto ao domínio fascista do MAGA quanto ao imperialismo chinês. No entanto, a política de Carney, que favorece o capital financeiro e a indústria canadense de combustíveis fósseis, é incapaz de enfrentar, muito menos resolver, as contradições que produzem as crises e toxicidades crescentes do nosso tempo. Apenas uma luta socialista internacional e de massas contra o imperialismo pode fazê-lo. Ainda assim, o grau em que o discurso revelou uma fratura profunda e provavelmente irreparável no seio do imperialismo ocidental foi surpreendente, embora não inesperado.

Autodeterminação para a Groenlândia

Frequentemente se perde, nos debates sobre OTAN, Trump, Estados Unidos, Europa e China, o fato de que quase 90% dos cerca de 60 mil habitantes da Groenlândia são de origem indígena inuit groenlandesa. As ameaças absolutamente desprezíveis de Trump expõem, em toda a sua ignomínia, o racismo e a mentalidade colonial que permeiam cada fibra desse homem e que ele e seus seguidores exaltam. Mas o tom mais moderado da Dinamarca contradiz sua própria história colonial.

A colonização da Groenlândia pela Dinamarca remonta ao início do século XVIII. Durante a maior parte desse período até os dias atuais, a metrópole tratou a colônia de forma típica do colonialismo de povoamento, incluindo, até a década de 1990, um programa de contracepção forçada que atingiu centenas de mulheres groenlandesas. Apesar do pedido oficial de desculpas do governo dinamarquês e das tentativas de indenizar as vítimas desse crime, as comunidades groenlandesas ainda convivem com o trauma e os danos físicos causados por essa política.

O movimento independentista da Groenlândia pressionou o Reino da Dinamarca a conceder autonomia ao território em 1979. Em 2024, pouco antes das ameaças de Trump, o independentismo contava com o apoio de 60% da população, segundo pesquisas de opinião. No último ano, e especialmente nos meses mais recentes, houve um recuo no apoio à independência total. A maioria dos groenlandeses afirma agora que, se tivesse de escolher entre os Estados Unidos e a Dinamarca, preferiria a Dinamarca, com sua rede de proteção social e sua previsibilidade nas relações internacionais.

A ideia de independência plena, por ora, ficou em segundo plano, já que os groenlandeses chegaram à conclusão — bastante razoável — de que sua pequena população e a ausência de capacidade defensiva os tornariam presa fácil da insaciável besta colonial estadunidense.

Por uma abolição emancipatória e operária da OTAN

Se o momento atual representa uma crise existencial para a OTAN, nós, como socialistas revolucionários, não lamentaremos o desaparecimento dessa gangue imperialista. Fundada como uma aliança de países imperialistas com o objetivo de conter a União Soviética e, de forma mais ampla, qualquer alternativa socialista após a Segunda Guerra Mundial, o verdadeiro papel da OTAN ao longo dos últimos 80 anos foi o de principal organização anticomunista do planeta. Ela se posicionou como inimiga implacável da emancipação dos povos colonizados e ex-colonizados, funcionando como um cavalo de Troia do imperialismo estadunidense.

Por isso, embora lutemos ao lado de todos os que combatem Trump e seu movimento ultradireitista MAGA, deixamos evidente que defendemos a abolição da OTAN. Contudo, a abolição da OTAN só poderá impedir que o mundo mergulhe em novos ciclos de violência e guerra se for conduzida por movimentos de massa, de baixo para cima, como parte de uma visão socialista e emancipatória da sociedade. Se o colapso da OTAN ocorrer nos termos de Trump, isso significará apenas aceitar a divisão do mundo em “esferas de influência”. Longe de ser um mal menor, isso agravaria os piores aspectos do status quo.

Como afirmamos em nosso chamado pela abolição da OTAN no momento da invasão russa da Ucrânia, “assim como a classe trabalhadora é a única que produz a riqueza da sociedade, é também a única força social capaz de pôr fim às guerras de forma permanente”.

Não à ingerência na Groenlândia!
Não à ingerência na Venezuela!
Pela abolição da OTAN!

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