Internacional

Crise do sionismo aumenta e cresce apoio à resistência armada na Palestina ocupada

Soraya Misleh

20 de junho de 2024
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Manifestação contra o genocídio em Gaza em Recife (PE). Foto Romerito Pontes

Enquanto Israel caminha a passos largos para ocupar o posto merecido de Estado pária, o povo palestino enfrenta sofrimentos atrozes, mas segue firme e confiante. Esses são os relatos que chegam da Palestina ocupada. Um retrato disso é o aumento do apoio à resistência armada. 

A resposta ao derramamento de sangue imposto ao povo palestino, de Gaza à Cisjordânia e à Cidade Velha de Jerusalém, por parte de quem não tem nada a perder, se refletiu em uma pesquisa do Centro Palestino para Pesquisa Política e Pesquisa, realizada entre 26 de maio e 1º de junho: 54% dos entrevistados na Cisjordânia e na Faixa de Gaza defendem esse caminho para acabar com a ocupação sionista. 

A pesquisa refletiu, também, um otimismo quanto à queda do criminoso Netanyahu, mas a maioria não tem ilusões quanto às negociações com um novo governo sionista. 

Cresce o repúdio à Autoridade Palestina

Há um declínio na crença de que a perspectiva de dois Estados seria a solução e um repúdio crescente à gerente da ocupação sionista, a Autoridade Palestina (AP): “Pouco mais da metade acredita que o Hamas é o mais merecedor de representar e liderar o povo palestino hoje, enquanto apenas 16% acreditam que o Fatah, sob a liderança de Abbas [Mahmoud Abbas], é o mais merecedor”. Noventa e quatro por cento dos habitantes da Cisjordânia e 83% de Gaza exigem a demissão do presidente Mahmoud Abbas.

Uma das razões é explicada numa reportagem do portal de notícias “Middle East Eye”: o “profissionalismo” da inteligência e das forças policiais da AP, como parte da cooperação de segurança com Israel, para reprimir a resistência na Cisjordânia, mesmo em meio ao genocídio e ao aprofundamento da limpeza étnica. 

A pesquisa se deu em meio a mais e mais crimes contra a humanidade, numa coleção arrepiante de massacres que compõem o genocídio em Gaza e diante do aumento do derramamento de sangue na Cisjordânia, que enfrenta limpeza étnica avançada. 

Até 19 de junho, sem contar os milhares de desaparecidos sob os escombros, somavam-se mais de 37 mil palestinos assassinados em Gaza e mais de 85 mil feridos, sendo 70% mulheres e crianças. Na Cisjordânia e Cidade Velha de Jerusalém, como afirmou, no último dia 18, em Genebra, o Alto-Comissário de Direitos Humanos das Nações Unidas, Volker Türk, desde o início de outubro de 2023, já são 523 mortos, dentre os quais 133 crianças. 

Esta é uma das muitas razões pelas quais Israel vem sendo incluído, dia após dia, nas listas sujas da ONU, como um dos maiores violadores mundiais de crianças, entre as forças de ocupação mais criminosas, e por aí vai.

Para além das denúncias, a busca pela “solução final” por parte de Israel se enfrenta com um povo cuja perspectiva histórica é a libertação. “Muitos ocupantes passaram por aqui, nenhum conseguiu ficar. E nenhum imperialismo dura para sempre.” Esta é uma frase comum entre os palestinos, ensinada de geração a geração.

A resistência heroica e histórica segue viva e não se curva. “Se um de nós for eliminado, dez outros devem vir em seu lugar. Essa é a marca genuína de nossa luta, e nem a censura nem a simples cumplicidade covarde hão de apagá-la”, já revelara o intelectual palestino Edward Said (1935-2003). A máxima do revolucionário palestino marxista Ghasan Kanafani segue atual: “Com sangue, nós escrevemos para a Palestina.”

Isolamento e crise

A máscara cai. A cara horrenda do Estado sionista está exposta e o isolamento internacional se aprofunda. Ao Brasil segue colocada a exigência de que Lula rompa imediatamente relações econômicas, militares e diplomáticas com o Estado genocida de Israel.

Em meio a esse processo em que a solidariedade internacional não dá trégua, os Estados Unidos enfrentam sua própria crise. Na iminência de eleições presidenciais neste ano, o imperialismo estadunidense tenta desesperadamente encobrir a face do monstro que alimenta. 

Para tentar salvar o projeto colonial, pode jogar Netanyahu para os leões – em meio às fricções internas, que incluem a dissolução, pelo criminoso primeiro-ministro, do “gabinete de guerra”, após o líder sionista Benny Gantz ter saído dessa coalizão. 

Dentro de Israel, mobilizações gigantescas pedem a cabeça de Netanyahu, não por preocupação com as vidas palestinas, mas porque entendem que o projeto sionista está ameaçado. Netanyahu corre o risco de ser preso e responde, ameaçando guerra total contra o Líbano. Assim, cava sua própria cova a cada dia.

Os EUA buscam um acordo de cessar fogo que preserve seu enclave militar. Agora, dentre as possibilidades, há um plano de que, no pós-Gaza, venham a colocar a estreita faixa nas mãos da Autoridade Palestina, que é impopular e malvista pelos palestinos. Para tanto, cogita-se a instalação de forças de manutenção da paz em Gaza, até que a AP possa assumir a faixa. Foi isto que foi proposto, em maio, pela Liga Árabe, com a presença de Abbas. 

Nem rendição nem “paz dos cemitérios”

As tais forças internacionais de paz são rejeitadas pela resistência, que entende que elas também colocariam um alvo em suas costas. O pior dos mundos na luta pela libertação, e pós o urgente cessar-fogo, seria os EUA colocarem sobre a mesa um novo “Acordo de Oslo”, que nada representou a não ser mais 30 anos de paz dos cemitérios e avanço na colonização e limpeza étnica sionistas. 

Há que se observar a movimentação junto aos históricos inimigos da causa palestina, identificados por Kanafani: além do imperialismo/sionismo, os regimes árabes e a elite reacionária árabe-palestina. 

O melhor dos mundos é a vitória, assinalada a partir da resistência, que vem sendo escrita a cada dia. Uma certeza o povo palestino carrega: não perdoará, não esquecerá, não será apagado do mapa. E jamais vai se dobrar. Rumo à Palestina livre, do rio ao mar.