Da Amazônia às escolas públicas: Resistência indígena em Santarém expõe o projeto de saque do Capitalismo no Brasil
Vivemos um momento de intensificação da ofensiva do capital sobre a natureza, os territórios e a classe trabalhadora na América Latina, em um contexto de polarização da ordem mundial entre duas grandes potências imperialistas — Estados Unidos e China — que disputam recursos estratégicos para sustentar seu desenvolvimento tecnológico, industrial e militar, incluindo áreas como energia, logística e inteligência artificial.
Essa corrida econômica e geopolítica aprofunda a exploração da classe trabalhadora em escala global e incide diretamente sobre territórios indígenas, que concentram bens naturais fundamentais para essas cadeias de acumulação. No Brasil, a privatização dos rios, a dragagem de hidrovias e o avanço de grandes empresas sobre a Amazônia — como no caso do Decreto 12.600/2025 que busca desestatizar os rios Tapajós, Madeira e Tocantins e das operações ligadas à multinacional Cargill — expressam a subordinação do país a esse projeto internacional de saque. Diante desse cenário, a educação e a ação política deixam de ser campos neutros e assumem um papel estratégico na disputa por um projeto de sociedade, exigindo unidade concreta entre a classe trabalhadora indígena e não indígena na defesa dos territórios, da soberania popular e da vida.
Território, capital e vida: uma resistência que atravessa séculos
A luta dos povos indígenas contra a expropriação de seus territórios não é recente, nem episódica: trata-se de uma resistência histórica que atravessa mais de cinco séculos, desde a invasão colonial iniciada em 1500 até as formas contemporâneas de espoliação promovidas pelo capital financeiro e pelas empresas transnacionais. Ao longo desse processo, os povos indígenas enfrentaram massacres, expulsões, tentativas sistemáticas de apagamento cultural e sucessivos projetos de integração forçada ao mercado. Ainda assim, resistiram — e seguem resistindo.
Essa resistência se expressa hoje de forma concreta nas ocupações do porto da Cargill — a maior empresa do agronegócio em operação no Brasil e na América Latina, multinacional fundada em 1865 e atuante na produção de alimentos, ultraprocessados e insumos — e do aeroporto de Santarém. Há mais de quinze dias, diferentes povos indígenas mantêm uma mobilização contínua contra o Decreto nº 12.600/2025, que prevê a dragagem e a concessão dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins a empreendimentos privados no âmbito do Programa Nacional de Desestatização (PND). Essas ações revelam que a defesa dos rios não é apenas uma pauta ambiental, mas uma luta política contra a transformação da vida em mercadoria e contra a entrega dos bens comuns ao capital internacional.
Estado, governos e a continuidade da espoliação
As mobilizações recentes deixam evidente que os ataques aos territórios indígenas não são exceções, mas parte estruturante do modelo de desenvolvimento adotado pelo Estado brasileiro. Mesmo após décadas de luta, como no caso da Terra Indígena Jaraguá — demarcada apenas no final de 2023, depois de mais de 40 anos de resistência —, o reconhecimento formal do território não se converte automaticamente em políticas públicas de reparação, investimento e garantia de condições dignas de vida.
A demarcação, quando não acompanhada de ações concretas, corre o risco de se reduzir a uma placa e a um papel, enquanto a violência estrutural permanece. As lideranças indígenas apontam que decretos como o 12.600/2025 demonstram os limites de governos que, ainda que se apresentem como progressistas, mantêm intacta a lógica de subordinação ao mercado internacional e às grandes corporações. Essa realidade evidencia que o Estado atua como gestor dos interesses do capital, e não como garantidor dos direitos dos povos.
Educação sob ataque: desmonte, precarização e resistência
A ofensiva contra os territórios indígenas caminha lado a lado com o ataque à educação pública e ao trabalho docente. Em São Paulo, o governo Tarcísio aprofunda um projeto de desmonte da educação estadual que se expressa na precarização dos vínculos, no desemprego de milhares de professores e no bloqueio da abertura de novos contratos por até três anos. Esse ataque atinge de forma direta professores indígenas e não indígenas, incluindo aqueles que atuam na Escola Estadual Indígena Djekupe Amba Arandy, localizada na Terra Indígena Jaraguá. Destruir a educação pública é enfraquecer a capacidade de organização política da classe trabalhadora e dos povos indígenas, impedindo a construção de uma consciência crítica capaz de enfrentar o capital, o Estado e as empresas que avançam sobre os territórios.
Unidade na ação: classe trabalhadora indígena e não indígena contra o mesmo projeto de dominação
As ocupações em Santarém, a luta pela demarcação do Jaraguá e a resistência cotidiana nas escolas públicas revelam que a classe trabalhadora indígena e não indígena enfrenta um mesmo inimigo histórico: o capital e o Estado que o sustenta. A precarização do trabalho, o ataque à educação e a privatização dos rios fazem parte de um projeto único de reorganização neoliberal, que prevê uma permanência de relações de produção semicoloniais, que busca fragmentar as lutas e transformar direitos em mercadorias. A unidade que se coloca não apaga as especificidades das lutas indígenas, mas as reconhece como parte fundamental da resistência de classe no Brasil. Trata-se de construir uma ação comum, consciente e organizada, capaz de enfrentar um sistema que explora trabalhadores, destrói territórios e compromete o futuro coletivo.
Internacionalismo desde os territórios: a luta é continental
A luta contra a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, assim como contra o avanço de empresas como a Cargill, está inserida em um contexto internacional de disputa por recursos estratégicos. Os povos indígenas compreendem que o que está em jogo não é apenas uma política nacional, mas a inserção subordinada do Brasil em uma economia global que depende da espoliação dos territórios para sustentar a acumulação de capital. O internacionalismo, nesse sentido, não é uma abstração teórica, mas uma prática que nasce das ocupações, das alianças entre povos de Abya Yala e da solidariedade entre trabalhadores e comunidades que enfrentam o mesmo sistema em diferentes países.
Educação, resistência e responsabilidade histórica
Desde 1500, os povos indígenas resistem à violência do colonialismo, do Estado e do capital. Essa resistência, longe de pertencer ao passado, se atualiza hoje nas ocupações do porto da Cargill e do aeroporto de Santarém, na defesa dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, na luta pela educação pública e na construção de unidade entre a classe trabalhadora indígena e não indígena. O desmonte da educação, a precarização do trabalho, a privatização dos rios e o avanço das empresas sobre os territórios revelam um mesmo projeto de classe, que subordina a vida aos interesses do capital e transforma direitos em mercadoria.
Diante desse cenário, a unidade entre a classe trabalhadora indígena e não indígena não é um gesto simbólico nem uma aliança circunstancial, mas uma tarefa política colocada pelas condições concretas do nosso tempo. Fortalecer processos de educação e organização política enraizados nas lutas reais significa reconhecer nas resistências indígenas — inclusive em contexto urbano — uma experiência histórica central para a construção de um projeto socialista conectado à realidade brasileira e latino-americana. Não se trata de falar em nome dos povos indígenas, mas de caminhar junto, em unidade na ação, contra o capital, o Estado que o sustenta e todas as formas de exploração e opressão. Defender a educação, os territórios e os bens comuns é, hoje, parte inseparável da luta por um futuro socialista, internacionalista e comprometido com a vida.
Suspender não é revogar!
A suspensão do Decreto nº 12.600/2025 anunciada pelo governo Lula, acompanhada da promessa de participação indígena no projeto, não responde à gravidade do que está em jogo. Suspender não é revogar. Manter o decreto vivo, ainda que temporariamente paralisado, significa preservar a ameaça permanente de privatização dos rios Tapajós e Madeira e a continuidade de um modelo que transforma bens comuns em ativos do mercado, além de rasgar a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) .
A participação indígena não pode servir para legitimar um projeto já orientado pela lógica da desestatização e da entrega dos territórios ao capital. A reivindicação que emerge das ocupações, das escolas e dos territórios é clara: revogação imediata do decreto, fim dos empreendimentos privados sobre os rios e construção de políticas públicas de reparação, proteção territorial e educação sob controle popular. Qualquer solução que não enfrente a raiz do problema seguirá reproduzindo a violência histórica contra os povos indígenas e a classe trabalhadora.
Pela imediata revogação do Decreto 12.600/2025!
Em defesa da Educação Pública: Basta de precarização e perseguição aos professores, no Brasil e no mundo
Para se aprofundar
CONSELHO DO POVO GUARANI MBYA. Cartas, manifestos e documentos políticos.
→ Produções coletivas sobre território, educação, demarcação e resistência indígena.
GUARANI, Jerá. Tornar-se selvagem. Texto e falas públicas da liderança Guarani Mbya do território do Jaraguá.
→ Reflexão indígena sobre território, educação, colonialismo e resistência frente ao Estado e ao capital.
LÊNIN, Vladimir I. O imperialismo, fase superior do capitalismo.
→ Análise clássica sobre a disputa entre potências imperialistas, exportação de capitais e saque de territórios.
LÊNIN, Vladimir I. O Estado e a Revolução.
→ Fundamenta a crítica ao Estado como instrumento de dominação de classe, inclusive sob governos ditos progressistas.
TROTSKY, Leon. A revolução permanente.
→ Contribui para compreender os limites dos projetos conciliatórios e a necessidade de uma estratégia internacionalista.
TROTSKY, Leon. O Programa de Transição.
→ Articulação entre reivindicações imediatas da classe trabalhadora e a luta por uma transformação socialista.
MARIÁTEGUI, José Carlos. Sete ensaios de interpretação da realidade peruana.
→ Referência central para pensar a questão indígena como parte da luta de classes na América Latina.
MARIÁTEGUI, José Carlos. El problema del indio. In: ALMEIDA, L. S.; GALINDO, M. (org.). Índios do Nordeste: temas e problemas 3. Maceió: EDUFAL, p. 27–31
→ Análise sobre território, comunalidade e socialismo a partir da realidade indígena latino-americana.
KOWARICK, Lúcio. A espoliação urbana. São Paulo: Paz e Terra.
→ Base para compreender a precarização da vida e do trabalho em contextos urbanos, incluindo populações indígenas.
KOWARICK, Lúcio. Viver em risco.
→ Discussão sobre como o Estado produz vulnerabilidade como política.