Datacenters são inevitáveis. Será mesmo?

  • A concentração da computação em poucos gigantes não é uma exigência do desenvolvimento técnico apenas. É também resultado da mesma lógica de concentração do capital
Romerito Pontes
Datacenters são inevitáveis. Será mesmo?

Quando alguém faz uma pergunta a um aplicativo de inteligência artificial (IA), assiste a um vídeo ou guarda fotos "na nuvem", parece que nada concreto acontece. Mas o que chamamos de nuvem é, na verdade, computadores de outros. Ou seja, a nuvem tem endereço e consome muita água e energia. No Complexo do Pecém por exemplo, em Caucaia (CE), está sendo erguido o primeiro data center da ByteDance, dona do TikTok, na América Latina, com 120 geradores a diesel de reserva. O Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União foram à Justiça para alertar que as comunidades do entorno dependem de poços de água em uma região de escassez histórica, e o povo indígena Anacé não foi consultado no início do licenciamento.

Governos e empresas dizem que esse é o preço do progresso, que data centers são inevitáveis. A pergunta é: o que, exatamente, é inevitável?

A nuvem é um galpão cheio de máquinas

Um data center é um prédio com milhares de computadores ligados dia e noite. Eles esquentam e precisam ser resfriados para não pifarem. Por isso o tamanho de um data center se mede em energia, não em metros quadrados. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), um data center típico de IA consome tanto quanto 100 mil residências, e os maiores em construção vão consumir 20 vezes isso.

Somados, os data centers usaram cerca de 1,5% da eletricidade do mundo em 2024, e a AIE projeta que esse consumo mais que dobre até 2030. A água segue a mesma curva. A agência estima 560 bilhões de litros consumidos em 2023 e 1,2 trilhão em 2030. Parte evapora nas torres de resfriamento, parte é gasta pelas usinas que geram a eletricidade.

Concentrar é técnica? Só em partes

Sejamos honestos. Reunir milhares de máquinas em um espaço concentrado traz alguns benefícios. Um estudo publicado na revista Science em 2020 mostrou que, entre 2010 e 2018, o volume de processamento nos data centers do mundo cresceu 550%, e o consumo de energia, só 6%. Grandes instalações desperdiçam menos que salinhas de servidores espalhadas. Picotar tudo em pedaços pequenos não é, a princípio, uma saída. Uma coisa é produzir alimentos em pequenas propriedades distribuídas. Outra coisa é tentar distribuir uma caldeira siderúrgica em pequenos fogões. Às vezes isso nem é possível.

Mas a técnica não explica tudo. Um estudo do Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE) lembra que, nos anos 1970, a IBM imaginava um mundo servido por quatro ou cinco supercomputadores. A informática seguiu outro caminho, o do computador pessoal. Hoje, com a nuvem, o poder computacional "voltou a se concentrar em poucas mãos". Amazon, Microsoft e Google (todas dos Estados Unidos) controlam 57% da capacidade dos grandes data centers de nuvem do mundo.

Isso não é novidade no capitalismo. Em 1916, Lênin mostrou que a concentração da produção leva ao monopólio e que os monopólios partilham o mundo "segundo o capital e segundo a força". O ramo mais moderno da época era a indústria elétrica. Em 1907, a alemã AEG e a americana GE dividiram o mercado mundial entre si. Hoje, a partilha se repete na disputa entre Estados Unidos e China pela IA. Lênin também falava das ferrovias, vendidas como "empreendimento simples, natural, democrático, cultural, civilizador", que na prática viraram instrumento de opressão. Os data centers são as ferrovias do nosso tempo.

O que é capitalista nesse modelo não é o tamanho das máquinas. É quem é dono delas e para que servem. Boa parte serve para vender anúncios: a Meta, dona do Facebook, tira quase toda a sua receita de publicidade, e o Google, mais de 70%. Cada gigante constrói sua própria capacidade para não ficar para trás na corrida da IA, investindo antes de existir demanda. E assim o ganho de eficiência vira mais consumo. A energia ficou estável até 2018 e agora dispara. E o lugar escolhido para construção de um novo data center é onde terra, energia e água são baratas e os impostos são perdoados, como é o caso da ofensiva das big techs em Minas Gerais. Lênin já descrevia o capital que procura países onde "o preço da terra e os salários [são] relativamente baixos, e as matérias-primas baratas".

O preço que fica aqui

O governo Lula decidiu disputar esses investimentos com isenção de impostos. A lei do Redata, programa de incentivos para data centers (Lei 15.504/2026), vai custar R$ 5,2 bilhões em renúncia fiscal só em 2026, segundo o Congresso em Foco. A lei exige que apenas 10% da capacidade atenda o mercado interno. O plano foi apresentado a executivos de big techs nos Estados Unidos antes de ser mostrado à população. Quando o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) pediu a minuta, o governo negou, como já denunciamos.

O geração de empregos também não compensa. Na Virgínia (EUA), maior polo do mundo, cada instalação gera cerca de 50 empregos permanentes, segundo a comissão de auditoria do Legislativo daquele estado. Já a água aperta. Vinhedo (SP), cidade com dois data centers, decretou emergência hídrica em maio de 2024.

Nem a soberania é garantida. A própria Fazenda estima que cerca de 60% dos dados e serviços de IA usados no Brasil são processados fora do país, e a infraestrutura é controlada pelo capital estrangeiro. E trazer o data center para cá não muda o dono. Pela lei estadunidense conhecida como CLOUD Act, o governo dos EUA pode exigir dados de empresas americanas, onde quer que estejam guardados. E a extrema direita não é alternativa, porque é aliada das mesmas big techs, como ficou evidente nessas eleições de 2026.

Outros caminhos já estão em teste

Algumas alternativas são testadas pelas próprias gigantes capitalistas. A Microsoft anunciou em 2024 um resfriamento em circuito fechado que evita mais de 125 milhões de litros por ano em cada data center, com pequeno aumento no gasto de energia. Ou seja, o gasto de água é uma escolha em nome do lucro, não uma necessidade técnica.

O calor também pode virar recurso. Em Espoo, na Finlândia, o calor de data centers da Microsoft deve cobrir cerca de 40% da rede que aquece as casas da cidade, graças a pressão pela regulamentação desse tipo de infraestrutura.

Há ainda modelos distribuídos e públicos. Em 2020, a rede Folding@home somou computadores de voluntários e superou em mais de cinco vezes a potência máxima do supercomputador americano Summit. A Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN) processa os dados do seu acelerador numa rede de mais de 170 centros em mais de 40 países. No Brasil, o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) coordena o Sistema Nacional de Processamento de Alto Desempenho (SINAPAD), com nove centros em universidades e institutos públicos. O pesquisador Sergio Amadeu, inclusive, tem defendido uma rede federada de data centers públicos para universidades e centros de pesquisa. Uma rede assim distribui a pressão sobre a água entre várias bacias, em vez de concentrá-la num só território.

Redes federadas, contundo, têm seus limites. Para treinar os maiores modelos de IA (pesquisa de fronteira) ainda é mais eficiente milhares de chips trabalhando juntos no mesmo lugar. A pergunta então é porque a corrida por esses modelos é mais importante do que a nossa capacidade para saúde, pesquisa e serviços públicos? Sob o capitalismo, o desenvolvimento serve ao lucro, não ao bem estar da população.

Repensar o modelo

Não dá para negar os benefícios que a IA pode trazer. A necessidade de processar dados é inescapável. Essa infraestrutura é indispensável para desenvolver a indústria, a pesquisa e os serviços públicos de um país. Hoje, boa parte da capacidade computacional é gasta processando dados de mercado e anúncios para fazer a economia girar, não para revolucionar a sociedade.

O modelo atual não serve ao desenvolvimento. Como o Redata só exige que 10% da capacidade fique no mercado interno, o país entra com terra, energia e água, e o processamento pode servir a clientes de fora. Enquanto isso, segue importando as máquinas de que sua indústria precisa: segundo o ILAESE, elas lideraram as importações em 2023, com 26,4% do total. Nem os chips que movem os computadores o país fabrica. Tem só empresas que projetam, encapsulam e testam, e a estatal Ceitec sobrevive com poucos recursos. É a desindustrialização com roupa nova. Esse modelo é uma escolha, e serve aos monopólios capitalistas

Uma política a serviço dos trabalhadores começaria por uma rede pública federada, construída a partir do que universidades e institutos de pesquisa já operam. É uma alternativa real para guardar e processar os dados do Estado, da saúde, da pesquisa e da indústria nacional, e permitiria proibir que dados sensíveis do governo fiquem em nuvens estrangeiras. Onde houver data center, resfriamento sem evaporação e reaproveitamento de calor devem ser obrigatórios, e o consumo de água e energia deve ser público e auditável: segundo o Uptime Institute, só 27% dos operadores informam quanta água usam. Os bilhões de isenção do Redata seriam mais úteis nessa infraestrutura pública do que como presente às big techs. E a infraestrutura digital estratégica precisa estar nas mãos do Estado, sob controle dos trabalhadores, não de meia dúzia de bilionários.

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