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Devoradores de Estrelas: uma história sobre o futuro — e sobre o que torna possível escolher

Érika Andreassy, da Secretaria Nacional de Mulheres

23 de março de 2026
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Assisti Devoradores de Estrelas de um jeito que já virou tradição na minha família. Foi indicação do meu irmão — totalmente o estilo dele — e, quando o filme estreou, ele propôs assistirmos juntos à distância e depois fazermos uma chamada para comentar. A gente faz isso às vezes. Moramos em cidades diferentes, com rotinas diferentes, mas esse pequeno ritual virou uma forma de seguir compartilhando experiências.

E, de certo modo, isso dialoga muito com o próprio filme.

Eu li o livro antes de assistir (Devoradores de Estrelas, Andy Weir, Suma, 2021), e isso moldou completamente minha experiência. Já tinha visto o trailer enquanto lia, então as imagens vinham quase prontas na cabeça. Quando finalmente vi o filme, foi como reencontrar velhos amigos.

E o resultado é impressionante.

O filme capta a essência do livro com muita precisão. É leve, divertido, envolvente, mas sem ser superficial. Consegue equilibrar humor e emoção com uma naturalidade rara: faz rir e chorar, mas nunca pesa a mão. As 2h36min passam rápido, quase sem que a gente perceba.

O elenco é um acerto absoluto. Ryan Gosling — e sua eterna e deliciosa cara de cão que caiu da mudança — ficou perfeito na pele de Ryland Grace. E Sandra Hüller entrega uma Eva Stratt simplesmente impecável: firme, pragmática e impossível de ignorar.

A química entre os personagens — inclusive entre aqueles que aparecem menos em tela — sustenta a narrativa mesmo nos momentos mais silenciosos. Isso é fundamental, porque a força da história não está apenas nos acontecimentos, mas nas relações que se constroem ao longo dela.

A trilha sonora também merece destaque. Sign of the Times, de Harry Styles, é particularmente marcante — parece que a música foi feita para o filme, mesmo sendo anterior. Além disso, a trilha transita por diferentes estilos — incluindo momentos com tango e elementos de música clássica — que ajudam a construir a atmosfera emocional sem soar forçado.

Os efeitos especiais são um show à parte: são sofisticados, mas nunca vazios. Estão sempre a serviço da narrativa, ampliando a imersão sem roubar o centro da história. Mas talvez o mais marcante — o que permanece depois que o filme termina — não seja apenas a qualidade da adaptação. É o final.

(Spoiler) Um final que diz mais do que parece

O desfecho de Devoradores de Estrelas vai além de um final bonito de ficção científica. Ele tem implicações éticas, políticas e até ideológicas bem interessantes. E é aqui que entra um aspecto que, pra mim, é central: a forma como a gente lê a obra.

Existe uma leitura mais imediata, mais comum, que enxerga no gesto de Grace um ato de heroísmo individual. Um personagem que, por empatia e coragem, escolhe fazer o bem — mesmo sem obrigação, num movimento que contrasta com suas escolhas e hesitações anteriores.

Mas há outra forma de olhar para esse final. Uma forma que, enquanto marxistas, nos é bastante familiar. Porque, ao invés de enxergar apenas um indivíduo excepcional, o que aparece ali são relações que tornam aquela escolha possível.

A escolha de Grace não é só individual. Ela condensa três dimensões: a) sobrevivência da humanidade, b) responsabilidade com o outro e, c) liberdade individual versus dever coletivo. Note-se que ele já cumpriu sua missão, a Terra será salva. Rocky e seu planeta, por sua vez, também estão condenados — mas ninguém mais pode ajudá-los. Grace pode voltar como herói ou se sacrificar por outra espécie. O ponto central portanto é: não há obrigação formal de salvar Rocky — é uma decisão ética.

O problema de uma leitura que apresenta a escolha de Grace como um ato heroico, baseado meramente em empatia pessoal é que transforma uma questão coletiva em escolha individual, deslocando a responsabilidade estrutural para a moral do sujeito.

O que realmente aparece ali é a cooperação como condição de sobrevivência — humanos só avançam porque cooperam globalmente. Grace só sobrevive por causa de Rocky. E Rocky, depois, depende de Grace. O que se estabelece é uma relação de interdependência material entre indivíduos.

A ciência, por sua vez, aparece como prática coletiva: todo conhecimento vem de uma cadeia social e o problema é resolvido por acúmulo histórico da ciência, isso desmonta completamente a ideia do “gênio individual”. Sobre a escolha, ela tampouco é abstrata — é histórica. Grace só pode escolher porque já existe solução para a Terra, existem condições materiais para agir. Ou seja: a moral depende das condições concretas.

Mas, talvez o elemento mais forte do final seja o internacionalismo — ou melhor, intergaláctico. A relação entre Grace e Rocky rompe com o nacionalismo, com a competição e com a lógica de escassez. Eles constroem uma cooperação radical entre espécies, baseada em necessidade material, não em ideologia. E isso é particularmente revelador, porque contrasta diretamente com o sistema capitalista mundial: onde países competem, mesmo em crises globais, e tecnologia é apropriada por interesses privados.

Em outras palavras: mesmo sozinho, Grace não está isolado no sentido pleno. Ele carrega consigo todo um acúmulo coletivo: científico, social, histórico. Ele só chega até ali porque houve cooperação em escala global. E, mais decisivo ainda, ele só sobrevive porque encontra Rocky. E Rocky, por sua vez, também depende dessa relação. O que o filme constrói, no fundo, é uma situação de interdependência.

A escolha de Grace importa — e muito — mas ela não surge do nada. Ela só faz sentido porque há condições materiais que tornam possível agir, porque há um vínculo que foi construído, porque entre eles se construiu uma relação. Isso desloca completamente o centro da história. Não é mais apenas sobre um indivíduo que decide. É sobre as condições que tornam possível decidir.

Um otimismo nada ingênuo

Talvez o elemento mais bonito — e mais potente — do final seja justamente esse. A relação entre Grace e Rocky constrói uma forma de cooperação que atravessa tudo aquilo que, no mundo real, costuma nos separar: fronteiras, interesses, disputas, até mesmo a própria ideia de espécie.

Eles cooperam não por ideologia abstrata, mas por necessidade concreta.

E, ao fazer isso, constroem algo novo.

Para nós, marxistas, essa leitura tem um peso especial. Porque parte de um princípio fundamental: a humanidade — e, mais amplamente, os seres capazes de produzir, pensar, criar — não estão condenados à competição permanente. Existe a possibilidade real de cooperação, de construção coletiva, de ação comum diante de desafios históricos.

E isso não aparece no filme como um discurso explícito. Aparece na própria dinâmica da história. Por isso, o final é tão interessante.

Ele não é apenas emocionante.

Ele aponta para uma ideia de mundo.

Um mundo em que a sobrevivência não apareça como resultado de escolhas individuais isoladas, mas da capacidade de construir relações. Em que o conhecimento é coletivo. Em que as escolhas individuais estão enraizadas em processos mais amplos.

E, talvez sem que esse fosse o objetivo central do autor, o filme permite — e até sustenta — essa leitura.

O que fica depois

No fim, Devoradores de Estrelas não é só uma boa ficção científica. É uma história que permite pensar sobre quem somos — e sobre o que nos torna capazes de enfrentar crises profundas.

E, se há algo que fica, é justamente isso: não é a existência de heróis que garante o futuro. É a capacidade de construir vínculos, de compartilhar conhecimento, de agir coletivamente — mesmo quando tudo parece improvável.

Talvez seja por isso que assistir esse filme em conjunto, ainda que à distância, faça tanto sentido. Porque, de alguma forma, ele fala exatamente sobre isso. Sobre as formas — pequenas ou gigantes — que encontramos de não estar sozinhos.

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