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Ditadura militar e pandemia: Uma dívida que permanece em aberto

Diego Cruz

1 de abril de 2024
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Manaus AM 15.05.20 Sepultamentos no Cemitério Nossa Senhora Aparecida. causado pela Pandemia do Covid-19 Foto: Alex Pazuello/Semcom

O golpe militar que instaurou 20 anos de ditadura no país completa hoje 60 anos. Após muita pressão e mobilização contra os que queriam colocar uma pedra sobre essa história de execuções, torturas e perseguições, conseguimos conquistas parciais, como uma Comissão da Verdade (extinto por Bolsonaro e engavetado por Lula), mas ainda falta muito para que se passe a limpo essa história, e se puna os culpados.

Vimos muito bem o que acontece quando fechamos os olhos para esse tipo de crime praticado pelo Estado, como exige agora Lula. Por isso se diz: ‘Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”. 

Há exatos quatro anos, outro período de terror se abatia sobre o país. A pandemia, ao contrário das ditaduras militares, não se restringiu ao cone-sul, mas a todo o planeta. De um dia para outro, a vida de bilhões de pessoas se transformou completamente, em praticamente todos os aspectos. Ninguém passou incólume.

Se a pandemia foi mundial, e nenhum governo pode ser, a priori, responsabilizado por ela, a resposta e as políticas implementadas para enfrentá-la, ou não enfrentá-la, são sim responsabilidade dos governos. E, da mesma forma que não podemos nos esquecer dos crimes e da barbárie praticada pela ditadura, tampouco podemos nos esquecer do que aconteceu neste período, e o que ocorreu foi nada menos que criminoso, um morticínio em massa. 

Primeiro, a simples negação. Depois, uma política ativa contra qualquer tipo de medida para enfrentar a crise. Quem não se lembra das “passeatas das mortes”? Ou frases como “o Brasil não pode parar por 5 ou 7 mil mortes”, do dono da Madero? “Não sou coveiro” de Bolsonaro. O então governo bancou um projeto de Lei para impedir a obrigatoriedade do uso de máscaras em locais fechados. Simples, assim. E depois toda a campanha de boicote e desmoralização das vacinas.

O resultado não poderia ser outro: mais de 700 mil mortes em números atuais, muito provavelmente subnotificados. O Brasil contava com 6,7% dos registros de Covid no mundo, mas teve 11% das mortes. Pesquisas realizadas em 2021, quando contávamos com 500 mil mortes, apontavam que, estivéssemos na média mundial, teríamos 100 mil. Ou seja, 400 mil pessoas morreram “a mais” no Brasil. Morreram não, foram assassinadas por uma política de Estado, com requintes de crueldade.

O mais cruel é que tínhamos todas as possibilidades não de ficar na média mundial de mortes, mas muito, muito abaixo. Com todos os problemas, o Brasil conta ainda com um parque industrial relevante, que poderia ter sido reconvertido para a fabricação de respiradores, máscaras, etc. Ao invés disso, enfrentamos uma crise de importação de máscaras e seringas, basicamente um pedaço de tecido e um utensílio de plástico. Poderíamos ter garantido uma renda mensal para autônomos, pequenos comércios e desempregados, a fim de garantir um verdadeiro lockdown, mantendo apenas os serviços essenciais. Ao invés disso, prevaleceu a lógica do capital, e as fábricas continuaram produzindo às custas das vidas e da saúde dos operários.

O governo Bolsonaro, atendendo aos interesses do capital, enviou para a morte centenas de milhares de pessoas. De forma mais direta: Bolsonaro e seus cúmplices mataram, pelo menos, 400 mil pessoas no país. Muitas, com requintes de crueldade.

Quando pessoas morriam sufocadas por falta de oxigênio em janeiro de 2021, em Manaus, o general Pazuello “um-manda-e-outro-obedece”, à frente do Ministério da Saúde, patrocinava uma festa na cidade, regada a whisky, como revelou sua então esposa. Se isso não é tortura, não sei mais o que é. Boilesen ficou famoso por se regozijar ao assistir as torturas na ditadura, e teve um fim mais que merecido. Pazuello bebia seu whisky a poucos metros de pessoas que agonizavam por falta de ar, e hoje é deputado.

Muitas famílias tiveram negado seu direito a dar um enterro digno às vítimas da ditadura. Na pandemia, tantas outras também tiveram esse direito negado, tendo que ver um ente querido à distância num caixão lacrado, ou enterrado em covas coletivas. 

E não é coincidência que esse crime tenha sido perpetrado pelo governo Bolsonaro, apinhado de militares, como o general Heleno que fez parte da ‘linha dura’ da ditadura lá atrás, e, tal qual seus comparsas de quepe e farda, ficaram impunes. 

O apagamento da memória dá nisso. Podem passar décadas, mas, inevitavelmente, reproduz o arbítrio, a barbárie e as mortes, essas seletivas, atingindo sempre os mais pobre e negros.

A ditadura matou, oficialmente, centenas. A política negacionista e criminosa de Bolsonaro (seguido pelos governos estaduais, é bom lembrar), matou centenas de milhares. Não é questão de um ser mais grave que outro, mas da necessidade de responsabilização e punição, e das consequências da omissão.

Ao contrário da ditadura, porém, temos hoje a “vantagem” da informação, por mais que Bolsonaro tenha tentado esconder os números da pandemia. A CPI, que serviu mais como holofote para a oposição parlamentar do que um enfrentamento real, colheu relatos, dados e detalhes que tipificam uma série de crimes. Um calhamaço que o então PGR (Procurador Geral da República) Augusto Aras (que muitos petistas defenderam manter no cargo), jogou no lixo. O então presidente da Câmara, Rodrigo Maia, sentou em cima dos pedidos de impeachment, tal qual seu sucessor, Arthur Lira.

Contraditoriamente, mesmo com tanta informação que temos hoje em dia, o apagamento desse período de terror se sobrepõe. Se não tivesse tentado dar um golpe de Estado, Bolsonaro estaria mais enrolado na Justiça com o roubo de joias do que com a morte de centenas de milhares de pessoas. Pazuello, além de deputado, é cortejado pelo vice-presidente do PT, o famigerado Washington Quaquá. 

Não temos sequer um memorial para lembrar das vítimas da ação criminosa do Estado durante a pandemia. Foi tudo normalizado. Uma verdadeira anistia, ampla e irrestrita, menos para os que morreram e para as suas famílias.  Da mesma forma que hoje olhamos para trás e tentamos entender como foi possível a ditadura militar e as atrocidades daquele período, nossos filhos e netos nos questionarão pela pandemia e os horrores que a atravessaram. Inclusive, a omissão da esquerda parlamentar e das direções majoritárias do movimento de massas.

Neste 1º de abril, é importante rememorar o golpe de 1964, cobrar a retomada da Comissão da Verdade, reparação das vítimas e punição dos assassinos e torturadores. Mas também não podemos deixar que os crimes praticados na pandemia continuem nas brumas do esquecimento. Devemos isso a nossos amigos, familiares, pais, e a todos que foram deliberadamente assassinados pelo Estado em nome do lucro e do capital. É uma dívida que permanece aberta, e precisa ser cobrada.

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