Em vez de enfrentar Trump, Lula ofende o Paraguai

LIT-QI
Em vez de enfrentar Trump, Lula ofende o Paraguai

PSTU-Brasil e PT-Paraguai

No último dia 24 de julho, o presidente Lula visitou a fábrica da Avibrás, uma fabricante de material bélico em Jacareí, no interior de São Paulo. Na ocasião, o presidente do Brasil fez a seguinte declaração: "A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos".

Em qualquer contexto, essa fala por si só já seria inadmissível, uma vez que a chamada "Guerra do Paraguai" (1864 a 1870) como ficou conhecida no Brasil, ou "Grande Guerra", como é chamada no Paraguai, é um dos episódios mais vergonhosos da história do Brasil, ao lado do genocídio indígena e dos 380 anos de escravidão. Uma guerra colonialista que arrasou o Paraguai e dizimou 90% de sua população masculina, em benefício das classes dominantes da Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e Uruguai) e das potências hegemônicas na época, em especial a Inglaterra.

Por conta disso, o discurso de Lula gerou uma justa indignação no povo paraguaio, e deve ser motivo de vergonha para os trabalhadores e o povo brasileiro, que, ao contrário da burguesia e do governo, certamente não são favoráveis à opressão e exploração do Brasil sobre o Paraguai.

Uma guerra colonialista

Essa guerra marca de maneira profunda a história do Paraguai e até hoje é motivo de desconfiança do povo paraguaio em relação ao Brasil, ainda mais porque, depois dela, as relações do Brasil e seus respectivos governos, sempre foram de dominação e opressão em benefício especialmente das multinacionais instaladas no território brasileiro, mas também de empresas brasileiras e, recentemente, dos grandes proprietários de terra.

Um dos maiores exemplos dessa relação de dominação é o tratado que deu origem à Usina de Itaipu, durante os regimes militares dos dois países (Médici no Brasil e Stroessner no Paraguai). Desde o início de suas operações até hoje, o Paraguai foi obrigado a vender o excedente de sua parte da energia gerada pela usina ao Brasil, a preço de custo ou bem abaixo do mercado. Na prática, o povo paraguaio pagou pela energia consumida no Brasil, o que beneficia, hoje, não o povo brasileiro, mas as empresas privadas transnacionais que controlam a distribuição de energia no país

É preciso enfrentar Trump e o imperialismo norte-americano, e não o Paraguai

Tal relação de subordinação teve origem numa guerra cujo real sentido é, até hoje, distorcido no Brasil por discursos como o de Lula. O maior conflito militar da história da América Latina foi o ápice de uma disputa por territórios e acesso, principalmente, ao Rio do Prata, pela decadente monarquia brasileira e a Argentina. Países que tinham, atrás de si, interesses de potências como a Inglaterra e os EUA.

Causa ainda mais consternação o fato de Lula ter usado como exemplo o Paraguai num momento em que Trump ataca, inclusive militarmente, a América Latina. Enquanto a Venezuela foi invadida, teve Maduro sequestrado, e hoje é governada por telefone pelo Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, Trump ameaça Cuba de ocupação e recrudesce ainda mais um bloqueio brutal que castiga, sobretudo, o povo cubano. O tarifaço imposto contra o Brasil é também um ataque imperialista contra a soberania do país, a fim de aprofundar a subordinação e interferir nas eleições. Já a hipócrita classificação de organizações criminosas como "terroristas" legitimam e abrem o caminho para ataques militares dos EUA no futuro, funcionando já como um elemento de pressão e ameaça contra o Brasil.

Apesar do discurso, Lula não enfrenta Trump

O governo Lula, neste contexto, adotou um discurso em defesa da soberania nacional, mas segue, na prática, negociando e entregando o país, como no caso das cobiçadas terras raras. Nem mesmo o tarifaço foi respondido por qualquer tipo de retaliação, e a política de "reciprocidade" fica só nas palavras das autoridades do governo, atendendo às súplicas de uma burguesia atavicamente subordinada e dependente das migalhas que caem dos pratos imperialistas.

O caso da Avibrás é emblemático. Uma das poucas empresas de tecnologia e indústria bélica esteve a ponto de fechar e demitir em massa. Uma heroica greve operária de três anos e meio, coordenada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, dirigido pelo PSTU, evitou o fechamento ou a desnacionalização de uma fábrica estratégica para a soberania do país. O governo Lula, por sua vez, nada fez nesse episódio, foi a luta dos trabalhadores e trabalhadoras da fábrica, com o sindicato, o responsável pela sua manutenção. Lula não só não atende a exigência do sindicato e dos trabalhadores pela estatização da empresa, como sugere que a ameaça de nossa soberania é o Paraguai, quando, na verdade, é o imperialismo estadunidense quem vem tentando dominar o continente e promove guerras ao redor do mundo para perpetuar sua condição de imperialismo hegemônico.

Governo paraguaio finge indignação, mas se ajoelha a Trump

Diante da fala de Lula, o governo paraguaio protestou e convocou o embaixador brasileiro. Mas, o presidente do país, Santiago Peña, ao contrário do justo sentimento do povo de seu país, finge indignação e é mais um vassalo do imperialismo norte-americano, na esteira dos presidentes de extrema direita que ascenderam ao poder no último período. Aliado de Milei na Argentina, Peña sancionou recentemente um acordo com as Forças Armadas dos EUA que pretende submeter militarmente o Paraguai aos EUA, convertendo, na prática, o país em uma base militar norte-americana.

Longe de qualquer aspiração nacionalista, ou defensor da soberania do Paraguai, Peña é, assim como seus pares da extrema direita na região, um representante de uma burguesia que se beneficia com a completa submissão colonial ao imperialismo estadunidense.

É preciso que os trabalhadores exijam do governo Lula uma real postura contra o imperialismo norte-americano. Em vez de ofender o povo paraguaio, que retalie já o tarifaço de Trump, envie petróleo contra o bloqueio a Cuba e estatize a Avibrás como medida fundamental de uma política de segurança nacional e em defesa da soberania.

O PSTU do Brasil e o PT do Paraguai, integrantes da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI) conclamam a necessidade de unir a classe trabalhadora dos dois países, assim como os trabalhadores e os povos latino-americanos, para derrotar o imperialismo, enfrentando a entrega e a capitulação dos governos de nossos países.

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