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Entrevista: Operário químico Davi fala sobre ruptura com o PSOL e entrada no PSTU

“É necessário construir um partido revolucionário. O PSTU é o partido que apresenta uma política coerente baseada na independência de classe"

Roberto Aguiar, da redação

10 de março de 2026
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Davi durante ato de filiação ao PSTU Foto PSTU São José dos Campos

Dirigente do Sindicato dos Químicos de São José dos Campos e Região, o operário químico Davi anunciou recentemente seu rompimento com o PSOL após quase duas décadas de militância. Ao lado de outros dirigentes sindicais e militantes, ele passou a integrar o PSTU, apontando como principal motivo a adaptação do PSOL ao governo Lula e a política de conciliação de classes.

Nesta entrevista ao Opinião Socialista, Davi fala sobre sua trajetória, critica o caminho tomado pelo PSOL, analisa a conjuntura internacional marcada pelo avanço do imperialismo e defende a necessidade de reorganizar a classe trabalhadora em torno de um partido revolucionário.

Para começar, queria que você se apresentasse e falasse um pouco da sua trajetória no movimento operário.

Sou dirigente do Sindicato dos Químicos de São José dos Campos e Região e estou na direção do sindicato desde 2006. Diferente de muitos militantes, eu não vim do movimento estudantil nem de outros espaços políticos. Eu vim diretamente do chão de fábrica.

Quando entrei no sindicato eu praticamente não conhecia nada sobre política ou funcionamento das organizações sindicais. A gente escutava falar na fábrica sobre esquerda, direita, partido, mas sem aprofundamento.

Em 2007 comecei a estudar mais política e me aproximei do debate sobre o socialismo. Isso me marcou muito e me levou a me filiar ao PSOL, através da corrente CST (Corrente Socialista dos Trabalhadores). Depois participei da Luta Socialista (LS) e posteriormente da Revolução Socialista (RS), ambas correntes do PSOL. Durante todos esses anos mantive minha atuação sindical sempre defendendo a necessidade da revolução socialista.

O que levou você a romper com o PSOL depois de tantos anos de militância?

O principal motivo foi a adaptação do PSOL ao governo Lula e à lógica da conciliação de classes. Hoje vemos dirigentes do PSOL participando do governo e defendendo políticas que não rompem com o capitalismo. Isso cria uma contradição enorme: como combater o sistema capitalista fazendo parte de um governo que administra esse mesmo sistema?

Essa contradição ficou evidente quando vemos lideranças do PSOL defendendo políticas do governo ou justificando medidas que atacam trabalhadores. Para nós ficou claro que o PSOL deixou de ser uma ferramenta para a construção de uma alternativa revolucionária.

Ato de filiação coletiva ao PSTU Foto PSTU São José dos Campos

E no caso da RS, corrente política que você militava, quais foram as divergências que levaram ao rompimento?

Houve várias divergências. Uma delas foi a ausência de formação política. Não havia preocupação em formar militantes, estudar teoria revolucionária ou aprofundar debates estratégicos. Eu fui conhecer autores como Trotsky, Lênin e Nahuel Moreno praticamente por conta própria, comprando livros e estudando.

Outro problema foi o movimentismo, a ideia de que bastava atuar nas lutas sem aprofundar o debate estratégico.

Também houve divergências sobre a análise da polarização política no país. A polarização entre Lula e Bolsonaro existe e influencia diretamente a consciência da classe trabalhadora. Ignorar isso ou não aprofundar esse debate não ajuda a orientar a militância.

Essas divergências culminaram em um congresso da corrente onde apresentamos críticas. Houve inclusive acordos políticos que depois não foram cumpridos. Isso levou ao rompimento.

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Como se deu o processo de aproximação com o PSTU?

A aproximação já vinha de muitos anos. Nosso sindicato é filiado à CSP-Conlutas, onde militamos lado a lado com companheiros do PSTU. Mesmo quando disputamos eleições sindicais em chapas diferentes, sempre existiu uma relação política de respeito e unidade nas lutas.

Quando rompemos com o PSOL não fui só eu. Romperam também outros companheiros: Rita, Reginaldo, Marcão, Alexandre e Gabriel.

E surgiu uma pergunta central: como deixar revolucionários soltos, sem organização?

Para nós ficou claro que era necessário construir um partido revolucionário. E o PSTU foi o partido que apresentou uma política coerente baseada na independência de classe.

Não existe combate real ao capitalismo sem independência política dos trabalhadores

Por que você considera que o socialismo é necessário?

Basta olhar para a realidade. Vivemos em um mundo onde uma pequena minoria acumula fortunas gigantescas enquanto milhões de trabalhadores vivem com salários que mal garantem sobrevivência.

Os trabalhadores produzem toda a riqueza, mas não têm acesso a ela. A desigualdade social é brutal. Enquanto alguns são bilionários, milhões de pessoas passam fome.

Para enfrentar isso não basta pequenas reformas. É preciso ir à raiz do problema, que é o sistema capitalista. O socialismo é a possibilidade de organizar a sociedade para atender às necessidades da maioria, e não aos lucros de uma minoria.

Existe hoje um debate sobre o papel da classe operária. Como você vê essa questão?

A classe operária continua sendo o sujeito central da transformação social. O problema é que muitas direções sindicais abandonaram essa perspectiva. Em vez de disputar a consciência dos trabalhadores para enfrentar o sistema, acabam defendendo políticas de conciliação.

As lutas ficam limitadas a campanhas salariais ou negociações pontuais. Isso reduz o horizonte político da classe trabalhadora. Muitas direções nem discutem mais temas políticos nas assembleias: imperialismo, guerras, conjuntura internacional.

Sem essa disputa política fica muito mais difícil mobilizar a classe para lutas mais profundas contra o sistema.

Como você avalia a conjuntura internacional atual?

Estamos vivendo uma intensificação das disputas imperialistas. Os Estados Unidos, sob o governo Trump, demonstram claramente a tentativa de manter sua hegemonia mundial. Ao mesmo tempo, potências como China e Rússia disputam espaço econômico e político. Essa disputa aparece em conflitos como a guerra na Ucrânia e no genocídio contra o povo palestino.

Tudo isso demonstra que o imperialismo continua sendo uma realidade concreta e que as grandes potências disputam o controle econômico e político do mundo.

Qual a importância do congresso da CSP-Conlutas neste momento?

A CSP-Conlutas cumpre um papel fundamental porque é uma central que mantém independência em relação a governos e patrões. Em um momento em que grande parte do movimento sindical está subordinada ao governo, manter essa independência é decisivo.

O congresso da Central precisa debater profundamente a conjuntura internacional e fortalecer a organização da classe trabalhadora para enfrentar os ataques aos direitos.

Também é fundamental combater todas as formas de opressão, como o crescimento da violência contra as mulheres e o feminicídio.

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