Escândalo do Banco Master mostra cumplicidade da Justiça e de políticos com falcatruas dos banqueiros
Dois meses após a prisão do banqueiro playboy Daniel Vorcaro e da liquidação de seu banco Master, a sucessão de notícias, revelações e tentativas desesperadas de obstruir as investigações expõem muito mais do que já é o maior escândalo financeiro da história do Brasil.
Trata-se de uma crise que não se resume aos R$ 47 bilhões em prejuízo por conta das falcatruas de Vorcaro, mas expõe principalmente a impressionante rede que o banqueiro construiu para impulsionar e defender seus interesses. Do centrão à extrema direita bolsonarista, passando pelo governo Lula e pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e até igrejas.
O próprio fato de o ex-dono do Banco Master ter ficado pouco tempo detido e estar agora tomando sol tranquilamente à beira da piscina em sua mansão de R$ 36 milhões mostra a cumplicidade do sistema com o larápio que deu um golpe em quase 14 milhões de pessoas. Mesmo com o trambiqueiro sendo pego embarcando em seu jatinho para escapar do país e financiando uma rede de influencers para defendê-lo e desacreditar as acusações.
Mas, diante da avalanche de notícias diárias, é preciso sistematizar minimamente esse esquema criminoso.
Pirâmide financeira e fraudes
Para os entendidos da Faria Lima, era público e notório que o Banco Master atuava às margens da lei. Vorcaro comprou o Banco Máxima, que viria a ser o Master, em 2018. De cara, a receita da instituição saltou de R$ 190 milhões para R$ 1 bilhão. Para se ter uma ideia, em 2024 o patrimônio do Master era de R$ 4,2 bilhões, com lucros de mais de R$ 500 milhões.
O principal mecanismo desse esquema era o oferecimento de CDB (Certificado de Depósito Bancário) a taxas muito maiores que as dos outros bancos. O chamariz para captar essa grana, oferecida inclusive por grandes corretoras como a XP, era a garantia do retorno pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que cobria investimentos de até R$ 250 mil. Esse fundo é financiado pelas instituições financeiras como uma espécie de bote salva-vidas caso um banco quebre, impedindo que leve todos junto.
Para evitar que o esquema aparecesse como era de fato, uma pirâmide financeira, Vorcaro e os demais bandidos da diretoria do Master precisavam simular operações por meio de empresas de fachada, as quais emitiam títulos de mentirinha, negociados pelo próprio banco. O pior nem era isso, mas afanar o dinheiro de fundos previdenciários de estados como o do Rio de Janeiro, que botou R$ 1,2 bilhão nesse barco furado, via governo Cláudio Castro.
Quando a vaca já estava indo para o brejo, Vorcaro recorreu ao amigo Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal, para vender o Master ao Banco de Brasília (BRB). Apesar de o Banco Central ter vetado o negócio, já que daria muito na cara, o banco controlado por Ibaneis comprou R$ 12 bilhões em créditos podres de Vorcaro e amarga um prejuízo de, no mínimo, R$ 5 bilhões. Uma conta que Ibaneis, agora, tenta jogar nas costas da população candanga (leia mais aqui).
Ao que tudo indica, esse esquema só foi desmantelado porque Vorcaro pesou a mão e exagerou nos trambiques, numa conta que seria paga pelos outros bancos, principalmente os bancões (sendo que, em última instância, quem banca o FGC é o próprio povo que paga juros de agiota, taxas extorsivos, além dos bancos públicos como Banco do Brasil e Caixa).
Fato é que, até o último momento, o sistema financeiro de conjunto tinha pleno conhecimento das falcatruas do Master e deixou rolar, inclusive o Banco Central, enquanto Vorcaro exibia sua vida nababesca construída em cima de fraudes. Será porque também fazem a mesma coisa, senão pior?

PF encontra R$ 1,6 milhão em espécie na casa de um dos diretores do Banco Master Foto Polícia Federal
Pizza master
Enquanto fechávamos esta edição, a Câmara dos Deputados reunia assinaturas para uma CPI do Master. Mas é improvável que isso dê em alguma coisa, já que está todo mundo metido neste escândalo. O que se desenha é, ao contrário, uma pizza master para livrar todo mundo. A extrema direita e o bolsonarismo tentam jogar o desgaste no colo do governo Lula, mas estão até o pescoço afundados nessa lama. Entre trocas de acusação, o que une todos é abafar o caso, “com o Supremo e com tudo”.
Isso não impede que novos escândalos apareçam e a crise se aprofunde ainda mais, arrastando os três poderes para uma desmoralização ainda maior. De qualquer forma, esse caso por si só mostra a cumplicidade criminosa do Legislativo, Executivo e Judiciário com as falcatruas do sistema financeiro. Se um banco pequeno como o Master mantinha essa rede de ligações, como deve ser um Itaú ou um Santander?
Estatização do sistema financeiro
O escândalo do Master escancara como os banqueiros dominam todas as esferas deste regime dos ricos. Lucram de forma legalizada, com uma das maiores taxas de juros do mundo, enriquecem em cima do endividamento dos trabalhadores e do próprio mecanismo da dívida pública, sem produzir um parafuso, parasitando a renda do trabalho. Como se não bastasse, ainda lucram de forma ilegal, seja lavando dinheiro para organizações criminosas, seja por esquemas mais sofisticados de roubo como arquitetou Vorcaro – tendo o judiciário, o governo e a oposição de direita nas mãos, ou no bolso.
Esse sistema perpetua as condições para que os vorcaros da vida continuem roubando os trabalhadores, controlando tudo, do juiz ao deputado, lucrando com a pobreza e a miséria do povo. O escândalo do banco Master mostra a necessidade de se estatizar o sistema financeiro, sob controle dos trabalhadores, para que atue no desenvolvimento do país e atenda às necessidades da população, e não de meia dúzia de bilionários salafrários que se unem a políticos corruptos e ao crime organizado para continuarem roubando o país e o povo.
Se gritar pega ladrão
Alguns dos principais envolvidos
Ministro Dias Toffoli: Acatou prontamente o pedido da defesa de Vorcaro para o foro privilegiado tão logo o caso explodiu. E o que ele fez? Simplesmente decretou sigilo das investigações. Pouco depois veio à tona a notícia que Toffoli havia viajado ao Peru no dia 29 de novembro num jatinho de um empresário para assistir à final da Libertadores. Um dos passageiros era Augusto Arruda Botelho, advogado de um dos diretores do Banco Master.
Toffoli ainda tentou impedir que a Polícia Federal tivesse acesso ao material apreendido numa segunda fase da operação contra o Banco Master. Pouco tempo depois, apareceu a razão (ou uma delas) para Toffoli ser tão bonzinho com Vorcaro. Fundos ligados ao banco compraram participação de irmãos do ministro num resort no interior do Paraná (especula-se que sejam laranjas do próprio Toffoli).
Ministro Alexandre de Moraes: O escritório comandado pela esposa do ministro mantinha um contrato de nada menos que R$ 129 milhões com o Banco Master. Além da mulher de Moraes, dois dos três filhos do casal também atuam no escritório.
Ciro Nogueira (presidente do PP): Além de ter impedido uma CPMI contra o Banco Master ainda em abril do ano passado, foi autor de uma PEC que tentava aumentar a cobertura do FGC dos atuais R$ 250 mil para R$ 1 milhão, no que ficou conhecida como “emenda Master”.
Antônio Rueda (presidente do União Brasil): Atuou pelo lobby para a compra do Master pelo BRB, junto a Ibaneis Rocha.
Bolsonaro e Tarcísio de Freitas: O cunhado de Vorcaro, o empresário e pastor Fabiano Zettel, foi o maior doador às campanhas de Bolsonaro e Tarcísio em 2022. Zettel é ligado a fundos investigados na Operação Carbono Oculto, que revelou um esquema de lavagem de dinheiro do PCC na Faria Lima.
Jaques Wagner (PT): O líder do governo no Senado é próximo do ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima. Além de ter sugerido Ricardo Lewandowski para integrar o conselho do banco, Jaques Wagner, em sua gestão no governo baiano, vendeu a rede de supermercados Cesta do Povo a Lima.
Guido Mantega (PT): O ex-ministro da Fazenda de Lula foi contratado como consultor, na verdade lobista, por Vorcaro por um salário de módico R$ 1 milhão. Articulou um encontro entre Lula e Vorcaro em 2024.