Cultura

Escuridão ao meio-dia e o testamento de Bukharin

Livro de ficção se baseia em testamento de Bukharin para relatar as perseguições e assassinatos promovidos pelo stalinismo

Luís Morona, de São Paulo (SP)

18 de março de 2026
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Stalin e Buckharin, assassinado nos chamados Processos de Moscou, em 1938

Arthur Koestler, no livro Escuridão ao Meio-Dia, antigamente publicado como O Zero e o Infinito, nos leva à história “fictícia” de Rubashov, um militante comunista com alto cargo no escalão do partido, cuja tarefa era descobrir os inimigos do regime, prendê-los e puni-los. No entanto, ele próprio é preso sob suspeita de ser um traidor e um contrarrevolucionário.

Rubashov se vê diante de um dilema gigantesco. Ele foi parte da mesma força repressiva do Estado que agora o acusa, assim como de suas próprias ações, nos quais se omitiu diversas vezes para se manter no seu cargo ou até para se salvar.

Mas tudo muda quando ele é preso e começa a ser julgado pelo mesmo aparato que ajudou a construir. Ele passa a encarar o que fez e é desafiado pelos interrogatórios, pelas torturas, pelo silêncio da sua cela e por seu próprio “balanço” militante.

Um livro inquietante e um reflexo importante

Arthur Koestler, autor do livro, em nenhum momento cita onde se passa a história ou quem seria o “Número 1”, que comanda e dirige tudo, cuja palavra está acima de todos. Nos meandros dos quartos descritos no livro, há vários quadros com o rosto desse “Número 1”. Também não nomeia diretamente aqueles que se chamam de “camaradas” e falam da revolução da classe trabalhadora.

Mas não é preciso muito esforço para perceber que o livro se refere aos debates sobre os Processos de Moscou na URSS e nos leva a refletir sobre os acontecimentos que resultaram na repressão dos 139 membros do Comitê Central (efetivos e candidatos) eleitos em 1934, dos quais 98 (cerca de 70%) foram presos e fuzilados entre 1936 e 1939. Ou dos 1.966 delegados presentes no congresso de 1934, 1.108 foram presos sob acusações de crimes contrarrevolucionários.

O autor “coloca a bala na agulha” ao advertir, em um escrito de 1940: “Os personagens deste romance são fictícios. Os eventos históricos que determinaram seus atos são reais. O destino do homem N. S. Rubashov é composto pelo destino de vários homens que foram vítimas dos chamados Processos de Moscou. Alguns deles eram conhecidos pessoalmente pelo autor. Este livro é dedicado à sua memória.”

Koestler participou da Guerra Civil Espanhola e foi membro ativo do Partido Comunista por seis anos, que abandonou após os Processos de Moscou, em 1938. Nessa obra, ele apresenta não apenas um reflexo do massacre de uma geração de comunistas, mas também o dilema central: diante das prisões e dos fuzilamentos, qual seria a opção de um militante à beira da morte?

Qual o dilema de encarar aquilo que você dedicou a sua a ser construído se transformar em um processo destrutivo?

É nesse sentido que o livro se torna fantástico e inquietante. Trata-se de uma obra importante para o debate histórico, sobretudo entre aqueles que ainda insistem em defender o processo de burocratização stalinista na URSS, mesmo após a queda do Muro de Berlim. O livro se inspira nas confissões e nos relatos dos interrogatórios de Bukharin, o “queridinho” do partido, como dizia Lênin.

É impressionante como o autor consegue transmitir o sentimento de um militante que é preso por aquilo pelo qual mais lutou: uma revolução. E como essa revolução cria um dilema em Rubashov: É hora de enfrentar o processo de burocratização que levava vários de seus companheiros à morte e à degeneração? Ou mentir, admitir culpa e tentar sobreviver para lutar de outra maneira?

Enfrentar o sistema e ser considerado um contrarrevolucionário, sendo apagado da história, mesmo acreditando que essa revolução desfigurada possa dar certo no futuro? Mentir e esperar que, com o tempo, esse processo fosse revertido?

Arrepender-se de estar certo e abandonar a militância? Confessar para salvar sua família ou o que restava de sua reputação? Se tantos outros admitiram estar “errados” e voltaram ao partido, por que não fazer o mesmo? Por que cair em um suposto “individualismo”?

É nessas discussões que o livro nos leva a refletir sobre as confissões dos mortos nos Processos de Moscou. E a questionar: esses processos foram parte da destruição dos inimigos da revolução ou da própria revolução?

O testamento de Bukharin: da indagação de Rubashov ao verdadeiro testamento

O autor expressa, com brilhantismo, seu próprio remorso pelo que a revolução se tornou. Ele faz parte, parafraseando Broué, “de uma geração que foi massacrada pela história”. Nesse sentido, o livro desperta a necessidade de buscar as “confissões” dos acusados nos Processos de Moscou.

Também é possível analisar o último apelo de Bukharin antes de sua execução (leia aqui). Ao ler esse apelo, percebemos o paralelo entre Rubashov e Bukharin, bem como as questões que atravessam a mente do personagem ao longo do livro.

No entanto, é importante destacar que o verdadeiro testamento de Bukharin não é seu último apelo, como muitos afirmam. Poucos dias antes de ser preso e executado, ele confiou à sua esposa uma carta — decorada por ela e publicada apenas após 1960 — na qual protestava sua inocência e expressava confiança na futura reabilitação de si mesmo e de todos os que foram vítimas da “máquina infernal” policial de Stalin.

Sua esposa, Anna Larina, conseguiu posteriormente entregar esse “último testamento” a uma comissão do partido que investigava sua reabilitação. Refletindo sobre o depoimento e o julgamento de Bukharin, ela afirmou:

Mas o mais surpreendente é que, apesar de tudo, o tempo das esperanças radiantes não havia passado para ele. Ele pagaria por essas esperanças com a própria cabeça. Além disso, uma das razões para suas confissões absurdas no banco dos réus — incompletas, mas suficientemente graves — foi precisamente esta: ele ainda esperava que a ideia à qual dedicou a vida triunfasse.

(Anna Larina, This I Cannot Forget, 1994)

Não é objetivo deste texto afirmar que Bukharin teve menos responsabilidade nesse processo de burocratização e na máquina stalinista que destruiu a revolução. Ele próprio participou de derrotas importantes, como as políticas da Terceira Internacional, os erros da coletivização forçada e a tese do socialismo em um só país, que contribuíram para diversas revoluções derrotadas.

Mas parte da luta histórica é buscar a verdade. Em um momento em que uma nova geração de jovens se radicaliza e se aproxima do marxismo, é fundamental compreender o que foi a URSS, o que aconteceu com a revolução e qual socialismo devemos defender.

Nesse sentido, recomendo esta obra a toda uma geração de militantes que se coloca a tarefa de construir um mundo socialista — tarefa que passa, necessariamente, pela compreensão crítica dos balanços históricos do movimento comunista.

Por fim, apresento, a partir de uma busca ativa, uma tradução de parte do testamento oral de Bukharin à sua esposa, já que grande parte desse material só está disponível no livro em inglês de Anna Larina, This I Cannot Forget (Isso eu não posso esquecer).

Deixo a vida. Inclino a cabeça não diante do machado proletário, que deve ser implacável, mas moral. Sinto minha completa impotência diante da máquina infernal que, com a ajuda, provavelmente, de métodos medievais, adquiriu uma força titânica, produz calúnia organizada, age sem hesitação, com segurança […]

Podem reduzir a pó qualquer membro do Comitê Central, qualquer membro do Partido […], podem transformá-lo em um traidor, um terrorista, um sabotador, um espião. E se ao próprio Stalin surgisse uma dúvida sobre si mesmo, a confirmação dessa dúvida lhe seria fornecida imediatamente. Nuvens de tempestade pairam sobre o Partido. Minha única cabeça, culpada de nada, arrastará consigo outras milhares de inocentes. Porque será necessário inventar uma organização, a organização de Bucharin, que na realidade não existe […]

Sou membro do Partido desde os dezoito anos e o objetivo final da minha vida sempre foi a luta pelos interesses da classe operária, pela vitória do socialismo […]

O jornal que leva o nome sagrado da Verdade (Pravda) publica nestes dias a mais infame das mentiras, escreve que eu, Nikolai Bucharin, teria querido destruir as conquistas de Outubro, restaurar o capitalismo. É uma insolência inaudita, é uma mentira […]

Dirijo-me a vocês, futura geração de dirigentes do Partido, sobre cuja missão histórica recai o dever de desfazer o monstruoso emaranhado de crimes que nestes dias terríveis se tornam cada vez maiores, irrompem como uma chama e sufocam o Partido.

Dirijo-me a todos os membros do Partido. Nestes dias, que talvez sejam os últimos da minha vida, estou certo de que o filtro da história lavará, cedo ou tarde, inevitavelmente, a lama da minha cabeça. Eu nunca fui um traidor […]

Saibam, camaradas, que naquela bandeira que vocês levarão em sua marcha vitoriosa rumo ao comunismo, há também uma gota do meu sangue.

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