Estupro coletivo de crianças: Uma tragédia que diz muito sobre a sociedade que somos

PSTU-SP
Estupro coletivo de crianças: Uma tragédia que diz muito sobre a sociedade que somos

Vera Lúcia Salgado, pré-candidata a Governadora de São Paulo e
Veruska Tenório, Professora das Redes Estadual e Municipal de São Paulo

As mídias dos últimos dias foram inundadas com a notícia de um estupro coletivo de duas crianças, de 7 e 10 anos, na Zona Leste de São Paulo. Os estupradores: quatro adolescentes e um jovem de 21 anos, vizinhos. Todos se conheciam. Tudo gravado e exposto em redes sociais.

O caso é chocante, revoltante, repulsivo e muito triste. São seis famílias destroçadas, mas nenhuma terá a vida tão comprometida, violada, humilhada, envergonhada e marcada por esse acontecimento quanto as crianças vítimas de um ato tão cruel.

Segundo matéria do G1 publicada em 16 de abril deste ano, “Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) indicam que, de 2022 a 2025, foram registrados 22.800 casos de estupro coletivo no Brasil, ou seja, mais de 15 casos por dia.”, e na verdade é mais que isso, pois há muita subnotificação, ou seja, a maior parte desses casos não são denunciados. Desse total, 63% das vítimas são crianças e adolescentes, a esmagadora maioria são meninas e mulheres, e entre os agressores sempre tem alguém conhecido em quem a vítima confiava.

Cultura do estupro

Esse é o tipo de caso que melhor simboliza a “cultura do estupro” tão presente na sociedade machista que vivemos: não basta violentar, torturar e dominar alguém, submetendo-a ao prazer hediondo do estuprador, mas se compartilha esse ato com outros homens igualmente perversos e machistas, multiplicando o sofrimento da vítima várias vezes, e essa cumplicidade macabra valida e reveste com a certeza de impunidade aos agressores, dada a humilhação, culpa e vergonha que é imposta à vítima e à sua família.

As redes sociais apenas reverberam e amplificam a crueldade e a barbárie, além de serem fonte inspiradora às ações desumanas e alienadas alimentadas por conteúdos misóginos, racistas, lgbtifóbicos, aparofóbicos e xenofóbicos que circulam impunes, gerando lucros a bigtechs, coachs e a organizações de extrema direita.

A banalização da violência vivida no cotidiano e sua expressão na vida das pessoas mais empobrecidas têm revelado o lado mais cruel do machismo na sociedade, de tal maneira que os jovens que praticaram um crime tão grave e tão violento o fizeram por “zoeira”. O machismo e a violência contra os setores mais vulneráveis dada a exploração e a opressão nessa sociedade capitalista estão tão arraigados quanto naturalizados.

E, quando isso acontece, é porque as coisas não vão bem. Não podemos tratar esse caso e tantos outros da mesma forma, apenas como “casos”. Temos que analisar o que causa tantos acontecimentos dessa natureza. Por que os crimes de estupro, feminicídio, transfeminicídio e os abusos sexuais, cada vez mais perversos, tornam-se motivo de chacota diante do sofrimento alheio? Os gritos das crianças eram motivo de risos e, depois, de buscar lacração com a exibição do ato de violar, usar e sentir prazer diante da posse, do controle e da tortura. O sofrimento e o comprometimento do futuro de vidas que apenas começaram pouco importou. Uma vida de pânico, medo e angústia, carregada ao longo dos anos, exigindo tratamento desde já para amenizar ao máximo o sofrimento e garantir que essas vidas tenham uma existência razoavelmente saudável, não interessa aos agressores.

E os jovens que praticaram esses crimes, como serão no futuro, após a saída da prisão ou da Fundação Casa? Quais eram os seus sonhos de infância? Quais fatores os trouxeram até aqui?

Por que existem movimentos organizados de homens que defendem um lugar a mulheres e crianças como objetos à disposição dos homens?

Por que os defensores da Red Pill têm tantos adeptos? Por que a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens e de que as crianças estão sujeitas à violência é permitida na sociedade em que vivemos? E por que as bandeiras do machismo, da LGBTfobia, do racismo e da xenofobia estão tão em alta nos dias de hoje? Por que a extrema direita, que se diz “defensora da família acima de tudo”, é a mesma que defende esses preconceitos em nome dessas mesmas famílias?

É urgente mudar

São tantas perguntas e algumas certezas: da forma como está, é muito ruim, e temos que mudar essa realidade. Precisamos pensar e agir para que as crianças, as mulheres, as pessoas trans, gays, negras, indígenas e, sobretudo, os pobres — ou seja, todas, todos e todes integrantes da classe trabalhadora — deixem de ser vistos apenas diante das tragédias às quais estão sujeitos todos os dias, inclusive pelos crimes que praticam e pelos quais precisam responder. Mas é preciso também criar as condições necessárias para que tais crimes não aconteçam e para que essas tragédias se tornem coisas do passado.

As crianças devem estar na escola e em equipamentos culturais e esportivos. E que essa escola, desde a Educação Infantil dos bebês, seja pública, de qualidade, integral, inclusiva e capaz de contribuir para o desenvolvimento de cada um com conhecimentos e saberes dignos, despertando a crítica e a convivência social livre, segura, solidária e democrática. E isso só é possível com profissionais qualificados, valorizados em suas carreiras, direitos e salários, respeitados pelos governos e pela sociedade. Por isso apoiar suas lutas, greves e reivindicações é fundamental, como a atual Greve da Educação Municipal de São Paulo, maior e mais tradicional rede pública do país, que expõe o que todos os governos (federal, estadual, municipal) planejaram para a Educação e demais serviços públicos nesse país: privatizar, precarizar seus trabalhadores, desqualificar o serviço, lucrar.

Os adolescentes e jovens estudantes devem estudar, ter acesso ao lazer, à cultura e, sobretudo, ter perspectiva de futuro. Que sejam ensinados em casa, na escola e em outros espaços sociais a respeitar as pessoas e a considerar natural a diferença entre elas em todas as idades. Que não tenham a necessidade de se autoafirmar para serem vistos por uma sociedade que invisibiliza suas vidas e ignora suas necessidades, seus anseios, sonhos e desejos.

Nada disso o sistema capitalista pode oferecer a todos, e menos ainda às populações pobres, pretas e periféricas das cidades. Nem na maior e mais rica cidade das Américas.

Organização e luta por um novo tipo de sociedade

Delegacias 24 horas em todos os municípios, de acordo com a população; casas-abrigo; investimentos em campanhas; aprendizado nas escolas sobre os danos causados pelo machismo e por todas as formas de dominação, opressão e preconceito não são estimulados e muito menos recebem os investimentos necessários.

O Estado, que poderia cuidar disso e utilizar os recursos arrecadados para investimentos na qualidade de vida em todos os aspectos, está voltado para outros interesses. Está voltado para garantir os lucros privados das empresas e empresários. Serviços públicos de qualidade e atendimento às pessoas de acordo com suas necessidades ao longo da existência não fazem parte da natureza do capitalismo.

Para mudar essa realidade estarrecedora, em que nos deparamos todos os dias com fatos e acontecimentos trágicos vivenciados pela população, será necessária a organização da sociedade de outra forma. O socialismo se apresenta como a forma de sociedade capaz de solucionar esses dramas da vida da classe trabalhadora: das mulheres, das crianças, dos jovens, adultos e idosos, negros, LGBTs e pessoas de todas as nacionalidades.

Na Zona Leste de São Paulo, temos a missão de contribuir com essas tarefas de organização e debate coletivo para que nossa ação esteja sempre voltada à transformação dessa sociedade cada vez mais decadente e cruel, para que as crianças e todas nós possamos nos sentir seguras.

Porque tudo o que existe nesta sociedade só é acessado por meio da concorrência. E, para concorrer e ter acesso ao que poderia satisfazer as necessidades humanas, quem possui mais dinheiro leva vantagem, enquanto cada um sobrevive com o que consegue dentro dela. Tudo o que foi descrito acima como necessário não é prioridade da classe dominante, que, para manter sua riqueza, seus privilégios e seus interesses intactos, precisa que essa sociedade continue existindo exatamente como está — e sempre piorando.

É preciso dar um jeito, com a consciência de que “nunca será livre quem oprime o outro” (F. Engels).

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